O iene caminha para fechar a semana tendo devolvido quase metade dos ganhos impulsionados pela intervenção realizada pelo banco central do Japão com apoio dos Estados Unidos, alimentando especulações entre operadores de que as autoridades dos dois países podem atuar novamente no mercado de câmbio. A moeda japonesa era negociada em torno de 158,45 por dólar na manhã de sexta-feira, bem distante da máxima de 155,23 alcançada na segunda-feira após a intervenção conjunta, que Trump diz ter feito 'por amizade'. Na semana passada, havia se aproximado da mínima em quatro décadas, em torno de 164 por dólar, antes da primeira operação conjunta de compra de ienes pelo Japão e pelos EUA desde 1998. Estima-se que apenas o Japão tenha desembolsado US$ 53 bilhões na quinta-feira — provavelmente um recorde de intervenção em um único dia, para valorizar a própria moeda. Não ficou claro quanto foi aportado pelos EUA. O presidente Trump e a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, em Tóquio, em outubro passado — Foto: Haiyun Jiang/The New York Times Moeda volta a desvalorizar O recuo ressalta os limites da intervenção para reverter o declínio de longo prazo do iene, enquanto a ampla diferença de juros em relação aos EUA, o elevado nível de endividamento do Japão e a incerteza geopolítica continuam pressionando a moeda. Enquanto isso, o dólar registrou na quinta-feira seu maior ganho diário em duas semanas, com a alta dos preços do petróleo, refletindo a diminuição do otimismo de que as tensões no Oriente Médio arrefeceriam. Autoridades americanas e japonesas alertaram os investidores de que estão determinadas a continuar defendendo o iene, se necessário. — A possibilidade de outra rodada de intervenção é alta, especialmente à medida que o dólar-iene se aproxima de 160 — disse Moh Siong Sim, estrategista da Oversea-Chinese Banking Corp. — Mas, para que a intervenção seja eficaz, ela precisa ser acompanhada por aumentos mais rápidos dos juros pelo Banco do Japão ou por um cenário favorável à flexibilização monetária pelo Federal Reserve. Embora o Banco do Japão tenha mantido sua taxa de referência inalterada na semana passada, os swaps de índice overnight indicam uma probabilidade de cerca de 60% de alta dos juros até setembro. Atsushi Mimura, principal autoridade cambial do Japão, afirmou que as autoridades responderiam aos movimentos do câmbio em coordenação com a política monetária. Na noite de sexta-feira da semana passada, o Financial Times noticiou que o Federal Reserve de Nova York tomou a medida incomum de vender euros para comprar ienes em nome do Departamento do Tesouro dos EUA. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent — Foto: Daniel Heuer/Bloomberg Desde o impacto inicial de intervenção que provocou uma queda brusca da relação entre dólar e iene, o foco já está se voltando novamente para os rendimentos dos títulos do Tesouro como catalisador de um dólar mais forte, avaliam analistas ouvidos pela Bloomberg. Os operadores de câmbio também observaram uma segunda tentativa fracassada de levar a relação dólar/iene abaixo de 155, o que faz com que as táticas do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, pareçam uma ação única e encerrada. Por que os EUA 'ajudaram' o Japão O presidente dos EUA, Donald Trump, confirmou a ação coordenada apenas na noite de domingo e disse que ela foi feita por "amizade". Questionado a bordo do Air Force One sobre o motivo pelo qual os Estados Unidos estavam agindo para apoiar o iene, Trump disse: — Porque temos um ótimo relacionamento com o Japão. Eles têm, você sabe, um iene enfraquecido e queriam um pouco de ajuda. E nós sempre estamos aqui para o Japão. O Japão tem sido muito bom para nós, com a exceção, é claro, de Pearl Harbor — disse o americano, repetindo sua controversa referência recorrente ao ataque japonês à base americana no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, que levou os EUA ao conflito. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou publicamente na rede X que o país "não hesitará" em voltar a intervir no mercado, se necessário. As razões para o governo americano apoiar o Japão a evitar uma maior desvalorização do iene vão bem além da amizade. O país asiático é o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro americano. Qualquer venda desses papéis para financiar intervenções cambiais, portanto, pode pressionar o mercado de Treasuries, em um momento em que as preocupações com a inflação e a guerra no Irã já estão elevando os rendimentos desses títulos. US$ 60 bi por dia à disposição do Japão Em Tóquio, a ministra das Finanças japonesa, Satsuki Katyama, declarou que na sexta-feira o ministério "comprou ienes japoneses em coordenação com o Departamento do Tesouro dos EUA". "Esta ação conjunta [...] contrariou a volatilidade excessiva e os movimentos desordenados do iene japonês nos últimos meses", acrescentou a ministra. Ela se recusou a confirmar uma nova rodada de intervenção, enquanto o principal diplomata para a área de câmbio do Japão, Atsushi Mimura, deixou claro que os dois países pretendem continuar vigilantes.
Iene japonês devolve quase metade dos ganhos com intervenção cambial que teve a ajuda dos EUA
Uma semana após operação conjunta entre os dois países, a divisa do Japão volta a perder valor significativo no mercado de câmbio












