Enquanto descia a serra de Cunha a bordo da van de jornalistas e colunistas da Folha rumo à Festa Literária Internacional de Paraty, não imaginava que, duas semanas depois, estaria pensando e escrevendo sobre as capitãs das águas e o Catavento.
O Catavento é um veleiro feminista de 32 pés liderado pela capitã Carol Melchor. Há cinco anos, a embarcação vem transformando as dinâmicas do mar que cerca mansões em ilhas privadas ao píer ocupado pelos passeios turísticos. Ao ser um barco-escola no qual aprendem a velejar, em sua maioria, meninas, jovens e mulheres caiçaras, o veleiro tem sido um farol. Sobre ele conversaremos mais à frente.
Sou uma velejadora iniciante. Aprendi os fundamentos do esporte durante minha estadia em Cambridge, com a equipe de Diplomacia das Águas, vinculada ao Massachusetts Institute of Technology.
Foi lá que conheci Anselmo Cassiano, um dos pesquisadores mais ativos da comunidade brasileira na universidade. Durante alguns meses, ele ensinou a mim e à Nilma Dominique, professora de português no instituto, os princípios da navegação à vela no Charles River, que passa diante do campus em direção ao mar.
Desde que comecei a falar sobre essas experiências nas redes sociais, fui procurada por diversas mulheres velejadoras de diferentes partes do Brasil. Seus relatos expõem inúmeros obstáculos: a presença ainda hegemônica dos homens, o elitismo que se apropria dos saberes tradicionais e coloniza píeres, garagens e barcos, além da falta de políticas públicas para o desenvolvimento da atividade, sobretudo quando voltada às mulheres.






