Há quem diga que os rabiscos de Joan Miró podem facilmente ser imitados por crianças. Até seu neto Joan Punyet Miró, administrador de seu legado, compara a imaginação do avô à de uma mente fresca, atraída por cores primárias, criaturas sorridentes e a rebeldia de subverter diferentes materiais.

Testemunha da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial, o artista nunca domesticou traumas e outros ecos do inconsciente. Pelo contrário. Fez dos instintos uma maneira de repensar quadros e esculturas, sempre aberto a improvisar obras que o neto chama de "primitivas".

"Miró era o sonho, a imaginação, a liberdade criativa. Sempre se unia ao acidente", afirma ele, citando gravuras que o espanhol criou sobre placas de cobre mordidas por cachorros. Daí surgiram os retratos indescritíveis dos espécimes, em que patas se tornam traços finos, focinhos desaparecem em borrões pretos com um emaranhado de tons vibrantes ao fundo.

'Mulher e Cachorro diante da Lua' (1935), obra de Joan Miró - Divulgação/Fundació Joan Miró

As peças estão entre as mais de cem que o Museu de Arte Brasileira Faap, em São Paulo, exibe a partir desta sexta, numa mostra repleta de pássaros, estrelas e outros signos com que Miró aproximou o céu da terra.