A obra do autor teatral aponta o erro do ser humano. Talvez resida aí o interesse atual por ela 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O escritor Nelson Rodrigues na redação do GLOBO em 1974 — Foto: Rodolpho Machado / Agência O Globo Uma fila gigantesca serpenteia a Praça Cardeal Arcoverde, em Copacabana. Não é venda de ingresso para campeonato de futebol ou show da Taylor Swift. A fila — quem diria! — é para a peça “O beijo no asfalto”, no Teatro Glaucio Gill. O autor é um imoral. Pornográfico. Indecente. Tarado. Palavras que rondam a obra de Nelson Rodrigues desde sempre. Seus tipos estão todos em cena: os policiais e jornalistas canalhas, os maridos atormentados, as esposas culpadas. “O beijo no asfalto” reúne um elenco numeroso, cheio de talentos, como Edson Celulari, Ernani Moraes, Eduardo Sterblitch, Luísa Arraes e Pedro Henrique França, que sabe dizer o texto de Nelson com a propriedade que ele pede. A encenação fisga pela atualidade ao abordar homofobia e fake news, num tempo em que essas palavras sequer existiam. A boa notícia é que a temporada-relâmpago, que se encerraria na segunda-feira passada, foi prorrogada. Era batata! Mas, em um mundo que deu uma guinada tão violenta para o conservadorismo nos últimos anos, o que faz com que centenas de pessoas queiram assistir a Nelson Rodrigues? Ou seria exatamente por isso? Como falar de incesto, abuso, adultério para um público cada vez mais religioso e careta? O caminho óbvio é que a obra do maior dramaturgo brasileiro hibernasse nas catacumbas por um tempo. Mas nem aí Nelson é óbvio: está acontecendo exatamente o contrário. Quem puxou o fio do novelo atual foi Fernanda Montenegro, com “Nelson Rodrigues por ele mesmo”, uma leitura emocionante de textos do autor. Em cartaz no Teatro das Artes, Bruce Gomlevsky expõe diferentes facetas de Nelson, suas contradições e radicalismos, que fazem rir diante de uma personalidade tão forte, em “Nelson Rodrigues — O passado sempre tem razão”. A Cia. dos Atores acaba de fazer um ciclo de leituras de textos do autor e a TV Globo prepara uma novela baseada em algumas de suas obras. Em São Paulo, no Teatro Oficina, as filas dobraram o quarteirão para conferir a deslumbrante montagem de “Senhora dos Afogados”, dirigida por Monique Gardenberg, que chega ao Rio mês que vem e é simplesmente imperdível. Leona Cavalli confirma seu DNA de atriz rodrigueana, com uma performance arrebatadora. O Oficina recuperou ainda “Os sete gatinhos”, numa montagem esperta e que também enche os olhos. O Sesc São Paulo fez recentemente uma nova montagem de “Vestido de noiva”, e Jorge Farjalla dirigiu reencenações de “Álbum de família”, “Valsa n° 6” e “Dorotéia”. É muito Nelson Rodrigues em cena em tão pouco tempo, o que só confirma a qualidade e a riqueza da obra do autor. Há alguns anos fiz uma matéria para O GLOBO sobre a descoberta de Nelson no exterior, com a tradução de seus textos para o inglês e encenações de suas peças em outros países. À época, perguntei ao diretor Luiz Artur Nunes como haveria espaço para o autor de frases como “nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais” em um mundo onde as mulheres ganham justo protagonismo e as denúncias de feminicídio são crescentes. “É um equívoco entender o Nelson como um inimigo das mulheres. Ele retrata com muita intensidade o abuso e a exploração contra a mulher na sociedade contemporânea. É preciso ir além do Nelson frasista de efeito, debochado, e chegar no homem mais preocupado com as questões substantivas do ser humano”. A obra de Nelson Rodrigues aponta o erro, a falha do ser humano. Talvez resida aí o interesse em sua obra no momento. Nelson está longe das catacumbas, nos palcos, mais vivo do que nunca.
Nelson fora das catacumbas
A obra do autor teatral aponta o erro do ser humano. Talvez resida aí o interesse atual por ela
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