Cenário é de preocupação devido à elevada concentração populacional no estado e as baixas coberturas vacinais, mas Brasil ainda não vive cenário de disseminação sustentada do vírus 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Casos de sarampo atingem nível mais alto em 35 anos nos EUA. — Foto: Maddie McGarvey/The New York Times Um pequeno surto de sarampo levou o Ministério da Saúde a recomendar a revacinação de todas as pessoas e implementar uma “dose zero” para bebês com menos de um ano na capital de São Paulo, em São Bernardo do Campo e em Guarulhos. O cenário preocupa pelo risco de reintrodução do vírus numa região de elevada concentração populacional e baixa cobertura vacinal, mas, por enquanto, não significa que o país vá perder o certificado de livre do sarampo. — A rede de contatos de um indivíduo em São Paulo, que pega metrô, frequenta ambientes de extrema aglomeração, é muito grande. Então o risco de um indivíduo infectado encontrar um não vacinado é muito alto. Isso exige uma capacidade elevada de vigilância local e uma cobertura vacinal grande. É uma situação que gera atenção, mas que temos condição de controlar. Há um empenho muito grande para isso — diz Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Segundo o Ministério da Saúde, ao todo foram confirmados 17 casos do sarampo no Brasil em 2026: um na cidade do Rio de Janeiro, 13 em São Paulo, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos. Três foram encerrados sem risco de disseminação, incluindo o do Rio, e outros 14 permanecem em acompanhamento nas três cidades paulistas. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ), o caso na capital fluminense foi confirmado em março numa mulher de 22 anos sem registro de vacinação e que trabalhava em um hotel. Após a notificação, foram realizadas medidas de investigação, vacinação de bloqueio de contatos próximos, no local de trabalho e no serviço de saúde em que ela foi atendida e a busca por possíveis outros casos na região próxima a onde ela morava. Já em São Paulo, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-SP) informa que foram sete casos em pacientes do sexo masculino e nove em pacientes do sexo feminino, 10 deles em bebês de até um ano e os demais em adultos de 20 a 50 anos. Gatti explica que a maior parte não tinha a vacinação completa: — Dos 14 casos ativos, temos 5 em adultos, alguns não vacinados e outros só com uma dose, três casos em bebês de 1 a 2 anos, dois não vacinados e um com esquema incompleta, e 6 em menores de um ano, idade que não é contemplada pelo calendário vacinal de rotina, mas que começamos a vacinar agora com a "dose zero". Não costumamos vacinar faixa na rotina porque ela já carrega alguns anticorpos da mãe, e a vacina costuma funcionar menos. A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba, é aplicada em duas doses, a primeira aos 12 meses de idade e a segunda aos 15. O PNI oferece ainda a proteção de forma gratuita para pessoas de até 59 anos que não tenham sido vacinadas. Já a estratégia da "dose zero" envolve uma aplicação extra, administrada entre os 6 a 11 meses de vida. Ela não substitui as duas aplicações futuras que devem ocorrer normalmente seguindo o calendário de rotina. O Ministério da Saúde passou a recomendar a "dose zero" nos três municípios, assim como a vacinação irrestrita de todos os moradores das cidades de 6 meses a 59 anos de idade com um reforço, ou seja, mesmo aqueles que já foram imunizados no passado. — A vacinação indiscriminada possibilita um alcance rápido de altas coberturas sem precisar checar histórico vacinal, uma rapidez necessária no contexto de risco alto de circulação do vírus. A vacina é segura, então não há riscos. Para quem já foi imunizado, ela vai aumentar a quantidade de anticorpos. E para os que não foram vacinados ou não sabiam o histórico, vai conferir uma proteção. Então consigo rapidamente eliminar suscetíveis e conter a disseminação do surto — explica a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Flávia Bravo. A revacinação de toda a população vai até 1º de setembro, quando termina a campanha nacional de multivacinação. Já a "dose zero" deve continuar pelo menos também até setembro, mas será encerrada apenas quando for confirmado o fim do surto, diz o diretor do PNI. Em outras cidades do estado, as autoridades de saúde recomendam que crianças, adolescentes e adultos que não tenham recebido as doses previstas no calendário de rotina procurem a unidade de saúde mais próxima para verificar a situação vacinal e atualizar a caderneta. Segundo Flávia, casos específicos, como de um bebê abaixo dos 12 meses que vai visitar uma das três cidades com casos, podem ser conversados com o pediatra para avaliar a aplicação da "dose zero". — Além da vacinação, tomamos outras medidas de controle, como busca dos contatos e varredura no território. Sempre contamos cinco quarteirões para cada lado de onde o paciente mora e passamos casa por casa checando o status vacinal e imunizando os desprotegidos. E temos busca ativa de todas as pessoas que relataram sintomas parecidos, por exemplo, para identificar qualquer possível caso — complementa o diretor do PNI. Há risco de reintrodução do sarampo? O alerta ocorre especialmente devido às baixas coberturas vacinais, que começaram uma trajetória de queda em 2016. Embora tenham melhorado nos últimos anos, ainda não chegam aos 95% preconizados pelo Ministério de Saúde. Segundo dados da pasta, a cobertura nacional com a primeira dose da tríplice viral está em 89%, e a com a segunda em 73,5%. No Rio de Janeiro e em São Paulo, apenas cerca de 65% completaram o esquema, de acordo com as secretarias estaduais. Ainda assim, o Brasil mantém o certificado de eliminação do sarampo, que chegou a ser perdido em 2019, após a queda importante no percentual de imunizados e a identificação de diversos surtos da doença pelo país, com mais de 20 mil casos registrados naquele ano, mas que foi reconquistado em 2024, depois de dois anos sem transmissão local. Desde então, os poucos casos que o Brasil costuma registrar são importados de outros países ou relacionados a pacientes que vieram de fora, sem haver uma disseminação sustentada dentro do território brasileiro. Foi o caso do ano passado, quando 38 casos importados ou relacionados à importação foram identificados, mas controlados com bloqueio vacinal, busca ativa e reforço da vigilância. Para perder o certificado, seria preciso ocorrer transmissão endêmica sustentada do vírus por um período de 12 meses consecutivos. — Por enquanto, não estamos no cenário de risco de perder a certificação. Como interrompemos todos os surtos, as cadeias de transmissão foram encerradas. Houve uma importação, com alguns outros casos, mas que não gerou transmissão sustentada dentro do território. Mas vemos o avanço em outros países, então a pressão externa para entrada de casos é muito grande. Por isso, precisamos de elevadas coberturas vacinais — diz Gatti. Ele lembra que o sarampo é uma doença extremamente transmissível: num ambiente de não vacinados, um único caso pode gerar mais 18 novos infectados. E, em crianças pequenas, o risco de pneumonia e morte por infecções secundárias é elevado. — Precisamos melhorar a cobertura especialmente nesse momento em que países vizinhos, como Peru e Bolívia, estão com transmissão ativa e muitos outros pelo mundo, como Estados Unidos, México e Canadá, também estão com muitos casos. Precisamos olhar para esse cenário global porque hoje uma pessoa chega aqui em horas desses países distantes. Então há um alerta em São Paulo, mas os gestores de todo o país devem agir para garantir altas coberturas — afirma Vanderson Sampaio, diretor de operações do Instituto Todos pela Saúde e professor da Fiocruz Amazônia e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Nos EUA, por exemplo, os casos bateram o recorde dos últimos 35 anos. E o risco de reintrodução no Brasil é ampliado quando o vírus é detectado em áreas de alta concentração populacional e movimentação de pessoas de diferentes regiões do país, caso da região metropolitana de São Paulo. Apenas as três cidades que registram casos no momento acumulam uma população de 14 milhões de pessoas, segundo as estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). — São Paulo é um hub de pessoas que vêm de fora e podem trazer o sarampo, especialmente pós Copa do Mundo, férias, em que muitos foram para países com elevada circulação do vírus. A maioria das pessoas chega no nosso país por São Paulo, e muitas transitam por lá, então elas podem ser contaminadas e disseminar pelo país. E temos uma cobertura vacinal que varia muito de estado para estado, com muito abandono na segunda dose e bolsões de suscetíveis. Precisamos agir para melhorar a taxa e também torná-la mais homogênea — diz Flávia.
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