O principal indicador da qualidade da educação básica no Brasil mostra que o país avança, mas em ritmo insuficiente para alcançar objetivos traçados há anos. Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgados ontem, apontam melhora em todas as etapas de ensino avaliadas, mas duas das metas de 2021, as últimas estabelecidas, seguem fora do alcance. No ensino médio, o desempenho permanece abaixo até do patamar previsto para 2017. Criado em 2007, o Ideb é medido a cada dois anos, considerando dois fatores em seu cálculo: a aprendizagem, por meio da nota do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), e a quantidade de alunos que são aprovados. — A notícia positiva é que o Brasil conseguiu avançar nas três etapas. Nos anos iniciais, todos os estados avançaram. Nos outros, apenas a minoria não conseguiu — afirmou o diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, Gabriel Corrêa, que pondera: — Mas os níveis de aprendizagem ainda estão muito baixos. Os dados mostram que a única meta ultrapassada foi a dos anos iniciais do fundamental (do 1º ao 5º ano). Em 2025, o país atingiu a nota 6,3, numa escala de zero a 10. Só há dois anos, o Brasil havia alcançado o esperado para 2021, de 6. Já nos anos finais do fundamental (do 6º ao 9º ano), a nota nacional ficou em 5,3, enquanto a meta de 2021 era 5,5. Por fim, o ensino médio teve resultado mais distante do objetivo estabelecido para 2021: 4,5, quando deveria ter chegado a 5,2. Essa etapa escolar não bateu sequer as metas previstas para 2019 (5) e 2017 (4,7). Veja os dados - anos iniciais Brasil: 6,3 (2025) - 6 (2023) - 6 (meta de 2021)Rede pública: 6,1 (2025) - 5,7 (2023) - 5,8 (meta de 2021)Rede privada: 7,2 (2025) - 7,1 (2023) - 7,5 (meta de 2021) Já nos anos finais do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano), o país ficou com a nota 5,3, enquanto a meta de 2021 era 5,5. Já o ensino médio é a etapa mais distante da meta. O Brasil obteve, em 2025, 4,5, quando deveria ter chegado a 5,2, em 2021. Esse patamar também não bate as metas previstas para 2019 (5), nem para 2017 (4,7). Veja os dados - anos finais Brasil: 5,3 (2025) - 5 (2023) - 5,5 (meta de 2021)Rede pública: 5 (2025) - 4,7 (2023) - 5,2 (meta de 2021)Rede privada: 6,4 (2025) - 6,3 (2023) - 7,3 (meta de 2021) Veja os dados - ensino médio Brasil: 4,5 (2025) - 4,3 (2023) - 5,2 (meta de 2021)Rede pública: 4,3 (2025) - 4,1 (2023) - 4,9 (meta de 2021)Rede privada: 5,8 (2025) - 5,6 (2023) - 7 (meta de 2021) O novo PNE, sancionado neste ano, mudou o formato de metas e não adotou mais o Ideb como referencia — agora, a qualidade será avaliada pela quantidade de alunos que chegam aos patamares básico e adequado de aprendizagem. Por isso, não há mais metas do Ideb a partir de 2021. Além disso, desde o ano passado o Ideb passa por uma reformulação. Ao GLOBO, o presidente do Inep, Manuel Palácios, afirmou que a prova para medir os conhecimentos dos alunos deverá, por exemplo, incorporar questões dissertativas — atualmente são só de múltipla escolha. Além disso, a fórmula do cálculo também deverá ser alterada. No entanto, ainda não há definição de novo formato. Aprendizagem Junto com o Ideb, o Inep também divulgou o resultado dos alunos brasileiros no Saeb. Essa é a principal avaliação da aprendizagem no país. Os dados mostram que, em 2025, o desempenho melhorou em relação à última edição, em 2023, em Português e Matemática nas três etapas. Em Matemática, os resultados voltaram a ficar praticamente iguais aos de 2019, última aferição antes da queda causada pela pandemia de Covid-19. Já em Português, esses patamares cresceram levemente. A escala de pontos vai de 0 a 500. Veja os dados do Brasil: Português - anos iniciais: 219,3 (2025) - 213,9 (2023) - 214,6 (2019)Português - anos finais: 262,2 (2025) - 258,8 (2023) - 260,1 (2019)Português - ensino médio: 279,0 (2025) - 275,7 (2023) - 278,4 (2019)Matemática - anos iniciais: 232,3 (2025) - 224,8 (2023) - 227,9 (2019)Matemática - anos finais: 262,7 (2025) - 257,1 (2023) - 263,0 (2019)Matemática - ensino médio: 276,5 (2025) - 271,9 (2023) - 277,3 (2019) Veja os dados da rede pública: Português - anos iniciais: 215,1 (2025) - 207,6 (2023) - 209,1 (2019)Português - anos finais: 256,6 (2025) - 252,9 (2023) - 253,8 (2019)Português - ensino médio: 272,3 (2025) - 269,1 (2023) - 271,3 (2019)Matemática - anos iniciais: 227,4 (2025) - 218,3 (2023) - 222,4 (2019)Matemática - anos finais: 255,3 (2025) - 249,9 (2023) - 255,5 (2019)Matemática - ensino médio: 268,0 (2025) - 263,9 (2023) - 268,1 (2019) Aprovação Além da aprendizagem, o Brasil também avançou na taxa de aprovação. Ou seja, a proporção de alunos que não evadem e passam de ano. Nos anos iniciais, esse patamar chegou a 98,3% e, nos finais, a 96,2%. Já no ensino médio houve o maior crescimento: de 91,3% para 94,8%. No entanto, diversos estados flexibilizaram nos últimos anos as regras para aprovação, ampliando ou adotando programas de progressão parcial, estratégia pedagógica, conhecida no passado como "dependência", na qual os estudantes podem ser reprovados em algumas disciplinas e mesmo assim passar de ano. O Pará foi o primeiro a elevar para cinco o número de disciplinas que um aluno podia reprovar e ainda assim passar de ano. Com isso, conseguiu derrubar a taxa de repetência de 11%, em 2022, para 0,7% no ano seguinte — o que gerou um salto no Ideb saindo da penúltima colocação no ranking dos estados para a sexta, em 2023. Depois disso, vários outros estados também seguiram a mesma estratégia. Nessa lista, estão, por exemplo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Paraíba que foram além e definiram em seis o número de disciplinas que um aluno pode reprovar sem perder o ano. Rio entre os piores Um dos que mais flexibilizaram as regras para aprovação no país, a rede estadual do Rio de Janeiro registrou, em 2025, a menor taxa de aprendizagem no ensino médio do país, de acordo com os dados do Saeb. Ainda assim, o estado teve um aumento na nota do Ideb, justamente por ter aumentado o número de alunos que passam de ano. Apesar do crescimento no Ideb, o estado segue com a segunda menor nota do país no ensino médio (3,7). Agora, está empatado com Roraima, Amapá e Amazonas. Os quatro só estão à frente do Distrito Federal (3,6), o último da lista. O ranking é liderado por Paraná (5,1), Piauí (4,9), Goiás (4,9) e Espírito Santo (4,9). Em 2023, o Rio já havia ocupado a penúltima posição entre as redes estaduais do ensino médio. Dois anos depois, definiu a regra para que os alunos pudessem reprovar em até seis disciplinas e, mesmo assim, passarem de ano. Com isso, a taxa de aprovação explodiu: passou de 80% para 91% entre 2023 e 2025, o que fez o Ideb aumentar 0,4 pontos. No entanto, a aprendizagem dos alunos da rede estadual do Rio caiu em 2025 pela terceira vez seguida e atingiu o menor patamar dos últimos 16 anos, com 4,04 de nota média padronizada (uma combinação do resultado da avaliação de Português e Matemática aplicada pelo MEC em 2025). Esse resultado é o mais baixo do país, empatado com o da Bahia, que está em trajetória de subida. Sul se destaca Já o Paraná tem a maior nota no Ideb entre as redes públicas nas três etapas de ensino avaliadas pelo indicador. Nos anos iniciais do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano), o estado ficou com a nota 6,9. Nos anos finais (do 6º ao 9º ano), 5,8. E, no ensino médio, 5,1. O estado não adota nenhum tipo flexibilização das regras de aprovação e também lidera os índices de aprendizagem em todos os ciclos de ensino. Outras redes estaduais que se destacaram em 2025 no ensino médio, a etapa escolar mais desafiadora, foram o Rio Grande do Sul e o Piauí. Ambos tiveram aumentos significativos nas notas do Ideb por conta de um melhor desempenho no quesito da aprendizagem. O primeiro tinha o 15º maior Ideb do país em 2023 e passou para o 5º, em 2015. Já o segundo foi de 7º para 2º. Veja os rankins abaixo: Ideb anos iniciais - rede pública Paraná: 6,9Ceará: 6,8Santa Catarina: 6,5São Paulo: 6,5Goiás: 6,4Espírito Santo: 6,4Minas Gerais: 6,4Alagoas: 6,3Acre: 6,2Mato Grosso: 6,1Rio Grande do Sul: 6,1Piauí: 6,1Rondônia: 6,0Distrito Federal: 6,0Paraíba: 5,9Amazonas: 5,9Pernambuco: 5,8Rio de Janeiro: 5,8Tocantins: 5,8Mato Grosso do Sul: 5,7Roraima: 5,7Maranhão: 5,5Pará: 5,5Sergipe: 5,4Bahia: 5,4Amapá: 5,4Rio Grande do Norte: 5,2 Ideb anos finais - rede pública Paraná: 5,8Goiás: 5,6Ceará: 5,6Minas Gerais: 5,3Rio Grande do Sul: 5,2Santa Catarina: 5,2Piauí: 5,2São Paulo: 5,2Espírito Santo: 5,2Alagoas: 5,1Mato Grosso: 4,9Pernambuco: 4,9Amazonas: 4,8Mato Grosso do Sul: 4,8Acre: 4,8Rio de Janeiro: 4,7Rondônia: 4,7Paraíba: 4,7Tocantins: 4,7Pará: 4,7Distrito Federal: 4,7Maranhão: 4,5Sergipe: 4,4Amapá: 4,4Bahia: 4,2Rio Grande do Norte: 4,2Roraima: 4,2 Ideb ensino médio - rede pública Paraná: 5,1Piauí: 4,9Goiás: 4,9Espírito Santo: 4,9Rio Grande do Sul: 4,7Pernambuco: 4,7Ceará: 4,5Minas Gerais: 4,5Pará: 4,4Santa Catarina: 4,3Mato Grosso: 4,3São Paulo: 4,3Mato Grosso do Sul: 4,2Alagoas: 4,2Tocantins: 4,1Paraíba: 4,1Sergipe: 4,1Rondônia: 4,0Acre: 4,0Rio Grande do Norte: 3,9Bahia: 3,8Maranhão: 3,8Rio de Janeiro: 3,7Amapá: 3,7Roraima: 3,7Amazonas: 3,7Distrito Federal: 3,6 No ensino médio, o MEC também divulgou uma segunda tabela com as notas das redes estaduais. Nele, também estão incluídas escolas com educação profissional ou técnica integrada. Esse cálculo só existe desde 2017 e é uma demanda de estados que possuem uma rede forte de escolas com esse perfil, como São Paulo, Ceará e Pernambuco (veja abaixo). Ideb ensino médio - rede pública com escolas técnicas Paraná: 5.1Goiás: 5Espírito Santo: 4.9Piauí: 4.9Pernambuco: 4.8Ceará: 4.7Rio Grande do Sul: 4.7Minas Gerais: 4.5São Paulo: 4.5Pará: 4.4Mato Grosso: 4.3Santa Catarina: 4.3Alagoas: 4.2Mato Grosso do Sul: 4.2Paraíba: 4.2Sergipe: 4.1Tocantins: 4.1Acre: 4Rio Grande do Norte: 4Rondônia: 4Bahia: 3.8Maranhão: 3.8Amapá: 3.7Amazonas: 3.7Rio de Janeiro: 3.7Roraima: 3.7Distrito Federal: 3.6 Ministro diz que vai rever metas Ao apresentar os resultados nesta quarta-feira, em Brasília, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, destacou que a prioridade da educação nos últimos 20 anos foi melhorar o fluxo educacional (índices de aprovação e abandono) ampliar o acesso às escolas. Segundo ele, a pasta e o Inep vão apresentar um novo plano de metas em outubro, que deve ser focado principalmente na evolução da proficiência dos alunos. — Vamos renovar essas metas em outubro, o Inep está trabalhando no que vamos conseguir entregar para sociedade nos próximos dez anos. A gente vai se deter muito na questão da proficiência, da aprendizagem e da equidade — afirmou. Barchini afirmou que as metas ainda estão em discussão com as secretarias estaduais e municipais. O ministro da Educação afirma que os objetivos traçados devem ser mais “ousados” do que dos últimos 20 anos. — As metas serão ousadas porque agora não temos mais, entre aspas, esse problema, do fluxo e em muito menor escala ainda temos o problema do acesso, mas vamos resolver. Então é possível que a gente tenha metas muito mais ousadas para estados e municípios, Ministério da Educação, para a educação brasileira. Segundo os dados, em 2025, 442 municípios não conseguiram atingir a nota abaixo de 4,9 no índice. Barchini afirmou que o governo prestará assistência às prefeituras para a implementação de medidas de melhoria no sistema de educação municipal. — A ideia do Ministério da Educação é que esses 442 municípios sejam chamados aqui por uma assistência técnica específica e individualizada a esse município, para que a gente não deixe ninguém para trás, para que todos os municípios brasileiros possam oferecer para as crianças brasileiras uma educação de qualidade, com bom acesso, com a boa infraestrutura e com a ciência no centro e das escolas brasileiras. Apesar da melhora apresentada no fluxo educacional de estados, especialistas apontam que a flexibilização de políticas de políticas de aprovação podem ter contribuído em alguns casos. Rio de Janeiro, Paraíba, e Rio Grande do Norte, por exemplo, o aluno pode ser reprovado em até seis matérias e mesmo assim passar de ano. O presidente do Inep, Manuel Palacios contestou essa linha de pensamento, e afirmou que há um avanço “incontestável” nestes índices de estados. — É incontestável que de fato você tem uma diminuição significativa das taxas de reprovação. Então, o que está acontecendo em todos os estados e municípios é um esforço para diminuir o abandono e a reprovação que tem tido efeito. Excetuando poucos casos , a maior parte dos estados houve um avanço nas taxas pelo aprendizado — argumentou.