'A Odisseia' é maior espetáculo cinematográfico do ano - até agoraFilme de Christopher Nolan impressiona pelo escala grandiosa e cria jornada envolvente. Crédito: Produção: Beatriz de Souza | Câmera: Lucas Ghitelar | Edição: Júlia PereiraNeste fim de semana, dois filmes geraram juntos o maior total de bilheteria já registrado num único fim de semana na história dos cinemas norte-americanos. Homem-Aranha: Um Novo Dia e A Odisseia, de Christopher Nolan, ocuparam simultaneamente o topo das bilheterias mundiais. Para qualquer pessoa que ainda acredita que o cinema está em declínio estrutural, esse resultado merece atenção antes de qualquer conclusão apressada. Confesso que vou menos ao cinema nos últimos anos. Talvez por pura preguiça. PUBLICIDADEO dado mais importante não é o tamanho do recorde. É o contexto em que ele aconteceu. O setor de cinema passou anos sendo decretado morto pelos analistas que descobriram o streaming. Netflix, Disney+ e Apple TV+ investiram centenas de bilhões para fazer o consumidor assistir em casa. E o consumidor assistiu em casa. E ainda assim, quando o filme certo aparece, ele coloca uma fortuna numa única janela de três dias. O que esse resultado diz não é que o cinema sobreviveu ao streaming. É que os dois coexistem porque entregam experiências completamente diferentes. Streaming entrega conveniência. Cinema entrega evento. E evento, quando bem construído, ainda mobiliza comportamento de consumo em escala que nenhuma plataforma de streaming consegue replicar.Leia tambémO governo abriu R$ 18,5 bilhões para quem foi atingido pelo tarifaço. O seu negócio está na fila?O governo abriu R$ 18,5 bilhões para quem foi atingido pelo tarifaço. O seu negócio está na fila?Luiz, dono de uma rede de shoppings do interior de São Paulo, disse-me, em meados de 2025, que a queda de fluxo nas salas de cinema se tornou uma das pressões sobre o mix de lojistas do empreendimento. A leitura era que o cinema havia virado âncora fraca. O recorde desta semana inverte essa leitura. Cinema âncora fraca é cinema com filme fraco. Cinema com Homem-Aranha e Nolan no mesmo fim de semana move shopping, move alimentação, move estacionamento, move tudo ao redor. O problema nunca foi o modelo. Foi o produto. Será? Tenho minhas dúvidas ainda.PublicidadeO fenômeno Tom Holland merece análise separada porque tem lição de branding que vai além do entretenimento. O ator estrelou A Odisseia e Homem-Aranha no mesmo ciclo de lançamentos. Os dois maiores filmes do ano simultaneamente. Nenhum ator havia dominado o topo da bilheteria com dois filmes diferentes ao mesmo tempo nessa escala. O que Holland construiu não é carreira de ator. É marca pessoal ancorada em consistência de entrega e diversidade de produto que o mesmo consumidor consome em formatos diferentes. A mesma lógica que qualquer empresário deveria aplicar: mesma audiência, produtos complementares, marca que se reforça a cada entrega.Cinema com 'Homem-Aranha' e Nolan no mesmo fim de semana move shopping, move alimentação, move estacionamento, move tudo ao redor Foto: Sony Pictures via APO cinema que sobreviveu ao streaming não é o que ignorou a Netflix. É o que entendeu que sala de cinema e plataforma digital são produtos diferentes para ocasiões diferentes, e passou a competir com filmes que justificam o esforço de sair de casa. Aí sim. Homem-Aranha e A Odisseia justificam. Não porque são bons filmes em abstrato. Porque são eventos que o consumidor quer vivenciar coletivamente, na tela grande, no som que a sala entrega. Experiência que nenhuma televisão em casa replica.O analista Paul Dergarabedian, da Rentrak, disse à Variety que o setor havia alcançado um marco que parecia inalcançável. A frase é mais útil do que parece para quem analisa mercado. Marcos, que pareciam inalcançáveis, se tornam referência quando o produto certo aparece no momento certo com a execução certa. Shopping, restaurante, academia, qualquer negócio que dependa de o cliente sair de casa e ir até o estabelecimento recebeu neste fim de semana a confirmação mais cara da história recente: o consumidor ainda sai de casa quando o produto vale o esforço.O que matou o cinema nos anos ruins não foi só streaming. Foi o produto mediano que não justificava a saída. O mesmo raciocínio vale para qualquer negócio presencial. Conveniência digital concorre com tudo. Experiência genuína, entregue com consistência e com produto que o consumidor não encontra em outro lugar, ainda mobiliza comportamento em escala. Hollywood aprendeu isso neste fim de semana da forma mais cara possível. Sei que falar é fácil, até porque sou empresária, construir com consistência é que é o desafio.Publicidade
Opinião | O cinema não morreu; o que US$ 430 milhões num fim de semana diz sobre comportamento do consumidor
Cinema entrega evento; e evento, quando bem construído, ainda mobiliza comportamento de consumo em escala que nenhuma plataforma de streaming consegue replicar












