ʽDevido ao custo de vida, algumas pessoas não conseguem arcar com o aluguelʼ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Homem dorme em uma calçada do centro de Londres — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo Assim como em Portugal, a população em situação de rua na Inglaterra aumenta a cada ano e bateu recorde, com 4.793 mil pessoas no último trimestre de 2025, superando os 4.751 de 2017. São dados oficiais do governo, que informa que o número de pessoas dormindo na rua durante março deste ano foi de 7.541, sendo que 28% estavam na situação pela primeira vez e 40% eram recorrentes. De novo, como em Portugal, após mais investimento e tentativas equivocadas, surge renovada a promessa prioritária de acabar com o problema e devolver a dignidade a estas pessoas. Na estreia como primeiro-ministro em 20 de julho, o trabalhista Andy Burnham disse que instruiu o novo governo para “acabar com o problema de pessoas sem moradia no país”. Homem dorme em uma calçada do centro de Londres — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo Seu gabinete anunciou orçamento extra de R$ 2,3 bilhões (340 milhões de libras) e a construção de 1,2 mil moradias para atender cerca de três mil pessoas. A maioria é homem, com mais de 26 anos, 43% estão em Londres e são pessoas nascidas no Reino Unido, seguidos de cidadãos da União Europeia e, por último, de países de fora do bloco. Burnham descartou levar décadas para cumprir a promessa. Nas ruas de Londres e Bristol, cidades percorridas pelo Portugal Giro após o anúncio da medida, a persistência do drama é visível. Pessoa dorme na portaria de um prédio em Londres — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo Enquanto em Londres o local de abrigo é mais duro e reflete a expressão rough sleeping, em Bristol é mais comum ver barracas de camping abrigar as famílias. Nas ruas do centro de Londres e em vias mais afastadas é possível ver pessoas dormindo nas ruas a qualquer hora. Até em Westminster, região do Parlamento e pontos turísticos populares. Sob um cartaz do musical “Trainspotting”, inspirado no livro clássico de Irvine Welsh sobre consumo de drogas, um homem passa horas dormindo alheio ao calor e ao movimento ao redor. Homem dorme em uma calçada do centro de Londres abaixo do cartaz de "Trainspotting" — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo Brasileiros residentes na cidade consultados pela coluna dizem que há dependentes de drogas que relutam em encarar a desintoxicação para receber apoio do governo. A jornalista Libby Brooks escreveu na “First Edition”, newsletter do “The Guardian”, que as causas podem incluir falta de moradias acessíveis e sociais e apoio inadequado a ex-detentos e vítimas de violência doméstica. Uma brasileira lembrou que veteranos de guerra podem enfrentar esta situação. Na cidade de Rotherham, a instituição “Help 4 Homeless Veterans” comprou casas para ajudar. Em uma tarde em Londres, a coluna observou o serviço de apoio de uma instituição, que entregava alimentos e itens de primeira necessidade a pessoas que eram, na maioria, mais velhas. A poucos metros, um homem sentado na calçada estendia a mão para os pedestres. No cartaz, dizia ser uma pessoa sem moradia e pedia ajuda, mas teve seus apelos ignorados. Homem se identifica como pessoa sem moradia e estende a mão pedindo ajuda em Londres — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo A St Mungo´s é uma instituição de caridade com 50 anos e divulgou comunicado que “responde a um aumento preocupante no número de pessoas (...) que dormem nas ruas de Londres”. Apesar de registrar que houve um pequeno decréscimo de 10%, informou que 3,9 mil pessoas dormiram nas ruas londrinas de abril a junho deste ano. Homem dorme em uma calçada do centro de Londres — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo O Portugal Giro solicitou a St Mungo´s o contato de uma pessoa de apoio na linha de frente e pediu informações sobre o problema. A instituição respondeu que não seria viável no momento. Em seu site oficial, há o depoimento creditado a uma pessoa, identificada como Daisy, que trabalha na linha de frente: “Nos últimos seis meses, observamos grande aumento no número de pessoas que passaram a viver nas ruas recentemente e são as mais vulneráveis ​​e as que correm maior risco”. A moradia de quem vive nas ruas de Bristol é uma barraca. Tanto que a imagem é usada nos anúncios de apoio da St Mungo´s divulgados no país. Anúncio da instituição de caridade St Mungo´s em Bristol — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo O blog fotografou algumas delas instaladas no jardim da Catedral de Bristol, localizada em College Green, bem ao lado do imponente prédio da prefeitura. Barraca instalada perto de uma das paredes da Catedral de Bristol — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo É mais um local da cidade que atrai centenas de turistas e moradores após ficar famoso como cenário da série “Skins”. Barraca instalada ao lado da Catedral de Bristol — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo Os moradores são pessoas que saem de manhã para trabalhar, procurar trabalho ou fazer biscates. Sacam dinheiro no caixa eletrônico, vão ao supermercado e levam vida normal até a volta para “casa”. Homem pede ajuda no centro de Bristol — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo Ao contrário de Londres, a coluna viu pouca gente dormindo diretamente no chão duro. Mas foi possível apurar como as barracas se multiplicam para formar núcleos, geralmente em uma praça. Barracas instaladas em uma praça no centro de Bristol — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo Ao ver a aproximação do jornalista, uma mulher que transitava entre barracas evitou o contato e fechou o zíper da porta. Barracas instaladas em uma praça no centro de Bristol — Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo Daisy, no depoimento da St Mungo´s, acrescentou que “devido ao custo de vida, algumas pessoas simplesmente não conseguem arcar com o aluguel de uma moradia básica”.