“Não podemos deixar de levar em conta que o governo federal tem um papel preponderante e tem que ser o protagonista dessa integração e coordenação", afirma Victor Cesar Carvalho dos Santos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Policiais conduzem suspeitos presos durante a Operação Contenção, no Complexo da Penha, no Rio — Foto: Aline Massuca/Reuters A União tem papel preponderante na coordenação da troca de informações entre as forças de segurança municipal, estadual e federal para combate à violência nas cidades, principalmente, no enfrentamento do espalhamento das organizações criminosas no país. A avaliação partiu de Victor Cesar Carvalho dos Santos, secretário estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em painel do projeto “Caminhos do Rio”, realizado pelos jornais “O Globo” e “Extra”, nesta terça-feira (4), com patrocínio da prefeitura do Rio, com o tema "A Responsabilidade Municipal na Segurança Pública". “Quando falamos em segurança pública, não podemos deixar de levar em conta que o governo federal tem um papel preponderante e tem que ser o protagonista dessa integração e coordenação [entre forças de segurança]”, disse. “Porque, hoje, as organizações criminosas já deixaram de ser locais”, afirmou Santos. “Hoje, nós temos um câncer, que são duas organizações criminosas, uma do Rio de Janeiro e de São Paulo, que gerou metástase no Brasil inteiro”, citou o secretário. Carvalho dos Santos se referiu ao espalhamento de crimes, em escala nacional, liderados por duas grandes organizações, Comando Vermelho e PCC (Primeiro Comando da Capital), respectivamente originadas nas capitais fluminense e paulista. “E nada mais justo que o governo federal consiga olhar, de uma visão macro, toda a atuação dessa organização criminosa pelo Brasil”, disse Santos. “Rio de Janeiro e São Paulo têm que ser olhados de forma diferente, e a integração [de informações] é fundamental”, afirmou. Ele observou que, em algum momento do passado, a troca de informações e de recursos, no combate ao crime, entre entes federativos estacionou. “Eu entendo que o que deu errado foi que cada um achou que poderia fazer o melhor sem conversar com o outro”, afirmou Santos, para quem isso levou à piora em indicadores de violência no Rio. O secretário defendeu uma união entre os entes federativos para se alcançar o ambiente de ordenamento urbano, com infraestrutura adequada, amparada por policiamento comunitário, com apoio de instituições municipais, estadual e federal. Para Santos, a integração tem que ser feita, também, por meio de planejamento de longo prazo, e não por meio de planos de rápida duração, o que ele classificou como “gambiarras”. Na análise do secretário, enquanto não houver integração entre os entes federativos, dentro de um contexto de planejamento de longo prazo, o Rio de Janeiro e o país continuarão a tratar “um câncer com analgésicos”, no que concerne ao combate ao crime. Também no evento, Daniel Hirata, pesquisador e assessor especial do Ministério da Justiça e Segurança Pública, defendeu aprovação da PEC da Segurança Pública (Proposta de Emenda à Constituição nº 18/2025), atualmente à espera de apreciação no Senado. O projeto do governo federal altera a Constituição para dar mais poder de coordenação à União, constitucionalizar o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e redefinir as funções da Polícia Federal e das guardas municipais. Hirata ponderou que a legislação deixa de forma clara as atribuições, em planejamento de longo prazo, de cada ente federativo no que concerne ao combate à violência, em prol de aprimoramento da segurança pública. Por sua vez, Joana Monteiro, fundadora e diretora do Laboratório para Redução da Violência, comentou que, enquanto a aprovação da PEC da Segurança não é realizada, é possível atuar no combate ao crime com mecanismos já existentes. Ela citou dois exemplos. Um deles são Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficcos), força-tarefa que envolve polícias federal, civis, militares, penais e rodoviária federal. O outro são os Comitês de Inteligência Financeira e Recuperação de Ativos (Cifras) – estruturas de cooperação interinstitucional criadas para descapitalizar o crime organizado, integrar dados de segurança e combater a lavagem de dinheiro. Para a técnica, esperar pela aprovação da PEC para lidar com combate à violência, mas atribuindo funções a cada ente federativo seria “o mundo ideal”. “Mas os poderes locais e estaduais não podem aguardar e esperar isso [no combate à violência]”, disse. No evento, os especialistas em segurança pública discutiram, ainda, como seguir a trilha de dinheiro e de negócios deixada por organizações criminosas, para identificá-las e combatê-las. O secretário de segurança do Rio alertou que, no Estado, as organizações criminosas mudaram o modelo de atividades ilícitas tradicionais para estruturas de negócios sofisticados, baseados no controle territorial e na exploração de atividades econômicas legais. Empresas são extorquidas por "taxas" para transitar ou operar em determinados territórios, e milícias e traficantes controlam e faturam milhões com serviços essenciais, como gás, internet, água, luz e o mercado imobiliário em comunidades, citou. “A criminalidade evoluiu”, reconheceu ele, o que requer maior investigação policial focada no negócio montado pelo criminoso, e não no criminoso em si, a fim de combater esse tipo de prática.