Relatos denunciam atrasos, falta de depósitos do FGTS e do INSS, carteiras de trabalho sem baixa e problemas de infraestrutura 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Hospital de Clínicas do Ingá — Foto: Felipe Gelani Um grupo de profissionais que trabalharam no Hospital de Clínicas do Ingá relatou ao GLOBO-Niterói graves problemas trabalhistas envolvendo a unidade. Segundo os ex-funcionários, há meses não são pagos salários e direitos trabalhistas, como depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Alguns também afirmam que continuam com a carteira de trabalho em aberto, mesmo após deixarem o hospital. Parte dos trabalhadores recorreu à Justiça, obteve decisões favoráveis, mas diz que ainda não conseguiu receber os valores devidos. Pelo menos dez profissionais que trabalharam na unidade entraram em contato com a equipe do jornal e relataram problemas semelhantes. Segundo eles, o hospital, que funcionava com emergência e internação, reduziu progressivamente suas atividades e atualmente manteria apenas atendimento ambulatorial em horário reduzido. Eles afirmam que a unidade só conta com um médico, um recepcionista e um segurança. Os ex-funcionários também relatam problemas de higiene, infiltrações e falta de manutenção em equipamentos. Um ex-gerente de enfermagem do hospital, que pediu para não ser identificado, afirma que o último pagamento recebido pelos funcionários foi referente a julho de 2025, quitado apenas em outubro. Segundo ele, a situação atingiu profissionais de diferentes setores. — Afetou todos, de faxineiros a médicos. Simplesmente não pagaram mais ninguém — denuncia. O ex-gerente também relata problemas nos depósitos do FGTS e no recolhimento do INSS. Segundo ele, os funcionários continuaram recebendo contracheques mesmo sem o pagamento dos salários correspondentes. Teto da Central de Material e Esterilização estaria apresentando infiltração, aponta registro de ex-funcionários — Foto: Arquivo pessoal Uma ex-funcionária que trabalhou na recepção e no faturamento afirma que os atrasos começaram com poucos dias, enquanto ela ainda trabalhava na instituição, e foram aumentando gradualmente. Ela diz que chegou a fazer plantões extras sem receber integralmente. — A gente chegou a cinco meses sem pagamento. Aí pagavam um, mas ficavam devendo quatro — diz. Segundo ela, os atrasos provocaram a saída gradual dos funcionários e contribuíram para a redução das atividades do hospital. A ex-funcionária afirma ainda que houve períodos de falta de medicamentos e alimentos. Profissionais teriam usado dinheiro próprio para comprar alimentos destinados a pacientes. Ela também relata que funcionários continuaram trabalhando mesmo sem receber salários, arcando, em alguns casos, com os próprios custos de transporte para chegar à unidade. Outra profissional afirma que, no fim do período em que trabalhou na unidade, já não havia equipes de Recursos Humanos e do setor financeiro para prestar informações aos trabalhadores. — Já não tinha mais ninguém do RH, já não tinha mais ninguém do financeiro. Não tinha ninguém para dar uma satisfação — afirma. Os funcionários também dizem que a situação atingiu profissionais com décadas de trabalho no hospital, alguns com mais de 20 ou 30 anos de casa, que teriam deixado a unidade sem receber integralmente seus direitos. Os trabalhadores afirmam que vários profissionais ingressaram com ações trabalhistas contra o hospital. Segundo o ex-gerente, já passariam de 200 os processos movidos contra a instituição e empresas relacionadas, com um passivo trabalhista estimado por ele em mais de R$ 15 milhões. Em alguns casos, segundo os relatos, as decisões foram favoráveis aos funcionários, mas não houve pagamento na fase de execução. — Os colegas ganham ações, todos ganham. Só que não conseguem receber nada — afirma o ex-gerente. Empresa no Panamá A equipe de reportagem teve acesso a uma alteração contratual da Golden Island Patrimonial Ltda., empresa citada em ações trabalhistas relacionadas ao hospital. O documento registra que, em agosto de 2025, as quotas da empresa foram transferidas para a New York Built Patrimonial S.A., sediada no Panamá. A alteração contratual, por si só, no entanto, não comprova que a operação tenha sido realizada para ocultar patrimônio ou impedir o pagamento de dívidas trabalhistas. O contrato informa ainda que a empresa brasileira tem capital social de R$ 4,293 milhões, integralizado com oito imóveis ou direitos sobre imóveis. Entre os bens listados estão um apartamento na Lagoa, no Rio, avaliado em R$ 2,5 milhões, seis lojas e direitos sobre imóveis em Niterói, além de direitos possessórios sobre terrenos no Sapê e no Caramujo. O documento também registra a nomeação de um novo administrador para a empresa. Os questionamentos sobre a operação e as demais denúncias foram encaminhados ao responsável pelo Hospital de Clínicas do Ingá, mas não houve retorno. O GLOBO-Niterói ainda visitou o hospital, mas o único médico em atividade não atendeu à equipe de reportagem. Por meio da recepcionista, o médico, pai do proprietário, afirmou apenas não ser responsável pela unidade.
Ex-funcionários cobram direitos do Hospital de Clínicas do Ingá, em Niterói
Relatos denunciam atrasos, falta de depósitos do FGTS e do INSS, carteiras de trabalho sem baixa e problemas de infraestrutura






