A nova onda de calor que atinge a Europa mostra que os efeitos das temperaturas extremas já avançam muito além dos termômetros. Em diferentes partes do continente, as máximas devem alcançar ou superar os 40°C. Espanha, Portugal e França estão entre os países mais afetados neste início de semana, mas o calor deve se deslocar gradualmente para o centro e o leste europeu. Na Espanha, os termômetros podem chegar a 42°C ou mais, principalmente no sul do país. Em Portugal, áreas do centro, do norte e do sul enfrentam risco elevado de incêndios, enquanto a França prevê temperaturas de 40°C em regiões do oeste antes de o núcleo de calor avançar para leste. 👉 Ao mesmo tempo, França e Espanha combatem incêndios que já deixaram mortos, destruíram imóveis e forçaram grandes operações de retirada. Partes de Portugal, da Irlanda e do Reino Unido também estão sob condições consideradas muito extremas para a propagação do fogo. Entenda mais abaixo. Agora no g1 Por que as temperaturas estão subindo tanto? A atual onda de calor é favorecida por uma área persistente de alta pressão sobre parte da Europa. Esse sistema dificulta a passagem de frentes frias, reduz a formação de nuvens e mantém o céu aberto durante vários dias. O ar desce na atmosfera, aquece e fica ainda mais seco. Ao mesmo tempo, ventos transportam ar quente do Norte da África em direção ao continente europeu. Sem chuva, o solo perde umidade rapidamente. Quando há água disponível, parte da energia do Sol é usada na evaporação. Em um terreno seco, uma parcela maior dessa energia aquece diretamente a superfície e o ar. ➡️ RESUMINDO: Alta pressão + ar quente + pouca chuva + solo seco = temperaturas mais altas e duradouras. Ondas de calor sempre fizeram parte do clima europeu. O aquecimento global, no entanto, eleva a temperatura de partida e torna esses episódios mais frequentes, intensos e longos. "A onda de calor brutal na Europa carrega as marcas da crise climática por toda parte – é o preço mais recente a pagar pela poluição dos combustíveis fósseis que assola nosso planeta", afirmou recentemente o secretário-executivo da ONU para Mudança Climática, Simon Stiell. “Escolas fechando, pessoas vulneráveis morrendo e economias sofrendo: é assim que a crise climática se apresenta na prática”, declarou. Caminhão dos bombeiros destruído pelo fogo permanece em uma estrada após a passagem de um incêndio florestal em Porto Germeno, na Grécia, nesta segunda-feira (3). — Foto: Stelios Misinas/Reuters Por que o risco de incêndios está tão alto? O calor não provoca sozinho o início de todos os incêndios. Muitos focos surgem por ação humana, acidentes ou falhas em redes elétricas. As temperaturas elevadas e a falta de chuva, porém, retiram a umidade de folhas, galhos e pastagens. 🔥Dessa forma, a vegetação seca passa a funcionar como combustível, permitindo que uma pequena chama avance rapidamente. O vento também espalha brasas para áreas distantes e dificulta o trabalho dos bombeiros. Quando o incêndio cresce muito, ele também pode formar grandes colunas de calor e fumaça, capazes de alterar a circulação do ar e favorecer novos focos. Portugal também colocou amplas regiões sob o nível máximo de risco. Mesmo países menos associados a grandes incêndios, como Reino Unido e Irlanda, aparecem entre as áreas que exigem atenção. Na Escócia, centenas de bombeiros, funcionários e voluntários foram mobilizados para combater um grande incêndio próximo ao Parque Nacional de Cairngorms. Moradores só puderam voltar para casa depois de uma melhora no tempo e da redução das chamas visíveis. Na Grécia, o primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis afirmou que o país teria “dias difíceis pela frente” diante da combinação de calor, vento e vegetação seca. Como foram as últimas ondas de calor? A segunda onda, entre meados e o fim de junho, foi a mais intensa da sequência. Vários países registraram máximas históricas ou muito próximas dos recordes. Outro período prolongado de calor atingiu principalmente a França no início e em meados de julho. A quarta onda começou no fim do mês e avançou sobre o oeste, o centro e o sul do continente. 📝 Veja a sequência: ➡️ Fim de maio: calor recorde ainda durante a primavera;➡️ Meados e fim de junho: episódio mais intenso;➡️ Início e meados de julho: novo período prolongado de temperaturas elevadas;➡️ Fim de julho e início de agosto: quarta onda. A contagem, contudo, não é oficial para toda a Europa. Cada serviço meteorológico usa critérios próprios, e os episódios não começam nem terminam ao mesmo tempo em todos os países. Como também há diferentes formas de definir as estações, as datas podem variar. Pelo calendário astronômico, o verão começou em 21 de junho. Para a meteorologia, porém, a estação vai de 1º de junho a 31 de agosto. Como a primeira onda começou ainda em maio, o mais preciso é dizer que o continente enfrenta a quarta onda de calor desde maio, e não necessariamente a quarta onda do verão. Trabalhadores da construção civil atuam sob altas temperaturas durante uma onda de calor em Viena, na Áustria, nesta segunda-feira (3). — Foto: Elisabeth Mandl/Reuters 🌡️ Por que o calor causa tantas mortes? O corpo humano precisa manter sua temperatura dentro de uma faixa relativamente estável. Em dias muito quentes, ele tenta liberar calor por meio do suor e do aumento da circulação de sangue próximo à pele. Idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores ao ar livre e moradores de casas pouco ventiladas estão entre os grupos mais vulneráveis. As noites quentes são especialmente perigosas. Quando a temperatura não cai após o pôr do sol, o organismo não consegue se recuperar do estresse acumulado durante o dia. Em áreas urbanas, concreto, vidro e asfalto armazenam calor e o liberam lentamente durante a madrugada. Isso faz com que bairros densamente construídos permaneçam mais quentes que regiões próximas. Muitas casas, escolas e empresas da Europa foram projetadas para um clima mais frio. No Reino Unido, diversos edifícios foram construídos para reter calor, o que dificulta o resfriamento durante uma onda. Mesmo em cidades do Mediterrâneo, onde construções antigas usam pátios internos, paredes espessas e fachadas claras para reduzir o calor, prédios mais recentes nem sempre seguem essas soluções. A instalação de aparelhos de ar-condicionado também não resolve todo o problema. O custo da energia limita o acesso em vários países, e o aumento repentino do consumo pressiona as redes elétricas justamente nos dias mais quentes. Justamente por isso, o diretor regional da Organização Mundial da Saúde para a Europa, Hans Kluge, afirmou que os governos precisam corrigir falhas antes dos próximos episódios e preparar os sistemas de saúde para agir antes que o calor atinja níveis perigosos. “O trabalho agora ocorre em duas frentes: corrigir o que falhou nas últimas semanas antes que a próxima onda de calor chegue e construir sistemas de saúde que não apenas reajam ao calor extremo, mas estejam preparados para ele”, declarou. 🏞️ Como o calor afeta rios, energia e transportes? A combinação de temperaturas elevadas e pouca chuva aumenta a evaporação e reduz a água que chega a rios e reservatórios. Usinas hidrelétricas produzem menos energia quando a vazão diminui. Centrais nucleares e térmicas também podem precisar reduzir a geração quando falta água para resfriar equipamentos ou quando a temperatura dos rios fica alta demais. Ao mesmo tempo, o consumo de eletricidade sobe com o uso de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado. O sistema passa a enfrentar, portanto, maior demanda e menor capacidade de produção em algumas regiões. O transporte também sofre. Trilhos ferroviários podem se expandir e deformar, obrigando os trens a reduzir a velocidade. Pontes móveis podem ficar presas com a dilatação do metal, enquanto estradas sofrem com o amolecimento do asfalto ou o deslocamento de placas de concreto. Por isso, os impactos não desaparecem assim que os termômetros caem. Rios e reservatórios podem levar semanas ou meses para recuperar seus níveis, e a vegetação permanece seca e vulnerável a novos incêndios. No Danúbio, que atravessa dez países, a redução da água já prejudica a navegação, o turismo e a produção de energia na Hungria e na Romênia. O Reno, rota importante para o transporte de cargas entre a Suíça, a Alemanha e a Holanda, também está mais baixo. Na Itália, a queda do nível do rio Pó preocupa agricultores e autoridades por causa dos impactos na irrigação e no abastecimento Navios cargueiros navegam pelo rio Reno, com o nível da água baixo e a Catedral de Colônia ao fundo, na Alemanha, nesta segunda-feira (3). — Foto: Thilo Schmuelgen/Reuters 👉 Onde o calor deve aumentar nos próximos dias? O oeste europeu concentra os maiores extremos neste início de semana, com temperaturas muito elevadas na Espanha, em Portugal e na França. Na sequência, o núcleo mais quente deve avançar em direção ao centro e ao leste da França e alcançar outras partes do continente. Áreas da Itália, dos Bálcãs e do leste europeu também podem enfrentar calor mais intenso. No Reino Unido, o pico deve ocorrer no sudeste da Inglaterra, com máximas próximas dos 35°C. Para a região, trata-se de um valor incomum e capaz de aumentar o risco à saúde e de problemas na infraestrutura. As previsões ainda podem mudar, principalmente para períodos superiores a cinco ou seis dias. O cenário, porém, indica que o calor continuará atingindo diferentes regiões da Europa ao longo da semana. LEIA TAMBÉM: O rescaldo dos incêndios florestais na Europa