Ferramentas capazes de escrever mensagens, criar perfis e sugerir respostas transformam a forma de paquerar e levantam dúvidas sobre a autenticidade das conexões 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Perfis reais, conversas criadas por IA: a nova tendência nos aplicativos de relacionamento — Foto: Imagem criada por IA Nos aplicativos de relacionamento, a inteligência artificial já escreve biografias, sugere respostas, cria cantadas e até conduz conversas inteiras. O comportamento, conhecido como chatfishing, uma referência ao catfishing, prática de criar identidades falsas na internet, levanta uma nova dúvida sobre os relacionamentos digitais: afinal, quem está do outro lado da tela, uma pessoa ou uma personalidade moldada por algoritmos? Para João Paulo Batistella, especialista em transformação digital e inovação, o fenômeno representa uma espécie de "catfish de personalidade". "A foto pode ser verdadeira, o nome também, e pode haver um interesse genuíno. O problema é que a forma de conversar, demonstrar empatia e criar intimidade talvez tenha sido construída por um algoritmo", afirma. ChatGPT, Rizz, Winggg e YourMove AI estão entre as ferramentas usadas para tornar o perfil mais atraente. Algumas sugerem respostas em tempo real; outras criam biografias, escolhem cantadas e até indicam estratégias para manter o interesse de quem está do outro lado da conversa. Uma pesquisa da Match em parceria com o Instituto Kinsey mostrou que 26% dos solteiros norte-americanos já recorrem à inteligência artificial para aumentar as chances de sucesso nos aplicativos de relacionamento. Na prática, a tecnologia deixou de funcionar apenas como corretora de texto e passou a participar da construção da primeira impressão. O descompasso costuma aparecer quando a conversa migra para o encontro presencial: quem parecia articulado, engraçado e atencioso nas mensagens nem sempre consegue sustentar a mesma interação ao vivo. Recorrer à IA para revisar um texto ou ajudar alguém mais tímido a iniciar uma conversa não é, por si só, um problema. A questão surge quando a ferramenta deixa de servir como apoio e passa a substituir a espontaneidade, o senso de humor, a sensibilidade e até a forma de demonstrar interesse. Nesse cenário, o match pode se encantar por características que não correspondem à interação fora do ambiente digital. Para Batistella, a inteligência artificial pode facilitar a comunicação, mas não substituir a personalidade. "Antes, os filtros alteravam o rosto. Agora, também podem editar humor, inteligência, empatia e afeto. A pergunta deixou de ser apenas 'essa foto é verdadeira?' e passou a ser 'com quem eu realmente estou conversando?'", conclui.