A briga entre França e Rússia por influência e poder na ÁfricaRodrigo da Silva explica os bastidores da disputa entre duas potências europeias no continente vizinho. Crédito: Rodrigo da Silva (roteiro) e Amanda Fleure (apresentação)Gerando resumoEm 21 de julho, a polícia liberiana realizou uma operação em um bangalô em Duazon, uma cidade localizada entre Monróvia, a capital da Libéria, e seu aeroporto. No local, encontraram dois homens e centenas de pacotes de pó branco empilhados até o teto. Prenderam os homens — um sérvio e um espanhol-colombiano — e apreenderam os pacotes. Após dois dias de contagem e análises, informaram ter apreendido quase quatro toneladas de cocaína de alta qualidade, com um valor de mercado de cerca de US$ 317 milhões (o valor no atacado na Europa é menor, entre € 50 milhões e € 60 milhões, ou US$ 57 milhões e US$ 68 milhões).Essa nem sequer foi a maior apreensão de cocaína na África neste ano. Em maio, um navio com bandeira das Ilhas Comores foi interceptado na costa do Saara Ocidental transportando quase 31 toneladas da droga, mais do que as 30 apreendidas na África Ocidental em todo o ano de 2025. Entre 2019 e 2025, o volume de cocaína apreendida na região a cada ano aumentou 50%. O tamanho dos carregamentos apreendidos também cresceu: em 2025, o carregamento médio nas rotas da região pesava 5,6 toneladas, em comparação com 2,4 em 2024. Em poucos anos, a África Ocidental tornou-se um dos maiores centros de distribuição de cocaína para a Europa.Um agente da Agência de Combate às Drogas da Libéria (LDEA) revista um integrante da Força de Segurança Conjunta da Libéria antes de uma cerimônia em que um total de 4.208,6 kg de cocaína foram incinerados durante um ato público em Careysburg, em 30 de julho de 2026 Foto: MATTHEW JACOBS/AFPPUBLICIDADEA região há muito tempo é um ponto de passagem conveniente, mais ou menos a meio caminho entre a América do Sul, onde a maior parte da cocaína é produzida, e a Europa, onde grande parte dela é consumida. A corrupção e a fiscalização policial ineficaz também contribuíram para isso. Jos Leijdekkers, cidadão holandês e um dos traficantes de drogas mais procurados da Europa — que deveria estar cumprindo uma pena de 24 anos em uma prisão holandesa —, estaria comandando uma grande rede de tráfico a partir de Serra Leoa. A Holanda solicitou sua extradição, sem sucesso. Nos últimos anos, um boom na produção de cocaína, o aumento do policiamento na Europa em relação aos carregamentos provenientes da América do Sul e as inovações tecnológicas adotadas pelos traficantes aumentaram tanto a quantidade de cocaína que passa pela região quanto o número de países envolvidos no comércio.Os traficantes agora transportam cocaína a granel da América do Sul para a África Ocidental, onde os controles portuários são relativamente fracos. Lá, as remessas são reembaladas e carregadas em grandes “navios-mãe”, antes de serem transferidas para embarcações menores de alta velocidade, conhecidas como “go-fasts”, que circulam pelo norte da África e pelas Ilhas Canárias ou em alto mar. Essas embarcações são rápidas demais para que a maioria das marinhas consiga interceptá-las com segurança. Eles contornam os portos europeus, optando por praias e cais improvisados. Embora o número crescente de apreensões bem-sucedidas sugira que as autoridades tenham melhorado na interceptação do tráfico, grande parte ainda passa pela malha. O Centro de Análise e Informação Marítima (Narcóticos) da UE (MAOC-N), um órgão de fiscalização, estima que mais de 100 toneladas de cocaína tenham chegado com sucesso da África Ocidental aos clientes europeus no ano passado.A região tornou-se particularmente atraente como centro de distribuição porque os países europeus reprimiram duramente as importações diretas de países como Brasil, Guiana e Suriname, afirma Paulo Silva, do MAOC-N. “Isso cria dois pontos de partida, o que torna a situação muito mais difícil para nós na Europa”, diz ele. “É impossível inspecionar tudo o que vem da África Ocidental.” Para os traficantes de drogas, a rota apresenta um “risco menor de interrupção e apreensão, o que, no geral, torna o transporte mais barato”, diz Lucia Bird, da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, uma ONG.A expansão do comércio legal na região também está favorecendo o comércio ilegal. Portos, aeroportos e fronteiras terrestres movimentam mais carga do que antes, de modo que embarcações maiores, transportando mais drogas, são mais fáceis de disfarçar. Um ex-chefe da Agência de Combate às Drogas da Libéria acredita que a maior parte da cocaína entra no país por via rodoviária vinda de Serra Leoa, rotulada como alimento congelado. Chefes do crime organizado, dos Balcãs ao Brasil, podem monitorar em tempo real quando os contêineres estão sendo carregados no porto ou transferidos no mar. Policiais envolvidos na operação em Duazon encontraram um roteador Starlink, um traje de mergulho e rastreadores GPS à prova d’água que, segundo suspeitam, foram usados para manter os chefes dos traficantes informados.Em comparação com décadas anteriores, quando o tráfico de drogas se concentrava em um punhado de Estados frágeis, como Gâmbia, Guiné-Bissau e Serra Leoa, ele está cada vez mais atraindo outros países, em parte graças a Leijdekkers. Sua presença na Serra Leoa faz com que os carregamentos provenientes de lá agora sejam alvo de fiscalização mais rigorosa por parte das autoridades europeias, levando à diversificação para Gana, Costa do Marfim e Libéria. Um carregamento de 238 kg de cocaína (valor de mercado de US$ 19,2 milhões) apreendido no aeroporto de Monróvia em junho foi associado ao traficante holandês. Autoridades de Gana e da Holanda afirmam que um carregamento de 4,5 toneladas proveniente de Gana, apreendido recentemente em Amsterdã, também foi transportado por sua rede.As autoridades liberianas anunciaram a apreensão de quase quatro toneladas de cocaína, avaliadas em US$ 317 milhões, em uma grande operação antidrogas que resultou na prisão de dois cidadãos estrangeiros Foto: MATTHEW JACOBS/AFPApesar do grande alarde que acompanha cada apreensão de drogas, os países da África Ocidental estão, em grande parte, impotentes para impedir esse comércio próspero. A tecnologia moderna de segurança é cara demais para ser amplamente empregada em portos, aeroportos e em alto mar. “Ainda adotamos esse estilo de segurança dos anos 1940”, lamenta um ativista em Monróvia. “Nem mesmo cães farejadores temos.” Os scanners não funcionam quando falta eletricidade. Os perímetros dos aeroportos menores são facilmente violados.O mesmo ocorre com os funcionários públicos que recebem salários irrisórios (na Libéria, alguns ganham apenas US$ 100 por mês). “Identificamos agentes do Estado que têm trabalhado com o cartel. Temos policiais que foram indiciados”, diz Gregory Coleman, inspetor-geral da polícia da Libéria. Em Serra Leoa, Leijdekkers parece ter influenciado com sucesso todo o Estado. A demanda por cocaína na Europa continua a crescer. Para os cartéis, as apreensões ocasionais são apenas o custo de se fazer negócios. Publicidade
Como traficantes estão usando a África para levar cocaína da América do Sul para a Europa
Jos Leijdekkers, cidadão holandês e um dos traficantes de drogas mais procurados da Europa, estaria comandando uma grande rede de tráfico a partir de Serra Leoa










