Estratégias visam ampliar o fluxo de visitantes. Norte Shopping e Shopping da Bahia já têm estúdio para fazer transmissões ao vivo com produtos oferecidos nas lojas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A vendedora Aline Guimarães, de 42 anos, apresenta produtos em live no Tik Tok em estúdio no Norte Shopping — Foto: Marcelo Theobald Ir ao shopping center não é mais como antes. Se há pouco tempo o centro comercial era o lugar preferencial para fazer compras, o crescimento acelerado do comércio eletrônico tirou muita gente dos corredores e de lojas físicas, além de ter chacoalhado as estratégias das administradoras dos centros comerciais. Na tentativa de seguir atraindo visitantes e recuperar vendas perdidas para o e-commerce, os shoppings estão lançando mão de novas estratégias, de eventos passando pela atração de serviços até a construção de minibairros no entorno. E, se “a montanha não vai a Maomé”, vale até mesmo vender on-line para garantir à loja física o faturamento que escapa para as plataformas digitais. Em um dia comum de trabalho, a vendedora Aline Guimarães, de 42 anos, atende uma dezena de clientes numa loja da Arezzo do Norte Shopping, no Rio, mas, como de praxe, vários “dão só uma olhadinha”. As comissões dela deram um salto quando ela começou a frequentar um estúdio montado no meio do shopping, onde vendedores das lojas fazem lives no TikTok Shop. Nas transmissões ao vivo, Aline exibe sapatos e bolsas da marca e, em uma hora, vende o equivalente ao que a loja física fatura em dois dias. Embora a venda ocorra na infraestrutura digital montada pelo shopping, o faturamento é contabilizado pela loja. Um percentual de cada venda fica com a Play2Shop e com a administradora do shoppin Esse mercado de live commerce — transmissões ao vivo onde os vendedores apresentam os produtos e vendem em tempo real, direto nas redes sociais — cresce aceleradamente e começa a estimular shoppings centers a usar o modelo para se digitalizar. O estúdio superequipado usado por Aline é parte de um projeto da Allos, administradora do espaço, em parceria com a Play2Shop, que também levou essas lives para o Shopping da Bahia, em Salvador, do mesmo grupo. A vendedora Aline Guimarães exibe sandálias em live no Tik Tok em estúdio no Norte Shopping — Foto: Marcelo Theobald A startup especializada em vendas on-line — fundada por Gabriella Comazzetto e Paula Puppi, ex-executivas do TikTok e do grupo de publicidade WPP no Brasil — treina vendedores das lojas dos shoppings para se apresentar diante da câmera na rede social, mobiliza equipamentos e equipe técnica e faz a gestão das páginas das lojas na plataforma de vendas. A expectativa da empresa é elevar as vendas das lojas físicas do Norte Shopping em cerca de 30% com esse complemento digital, diz Marcela Garcia, diretora comercial da Play2Shop, que negocia levar o modelo a outras administradoras de shoppings. O próximo estúdio deve ser instalado no Shopping Cidade São Paulo, na Avenida Paulista. — O varejo físico não é inimigo do digital, e vice-versa. O modelo que propomos ajuda os lojistas a venderem mais, a terem um novo canal de vendas muito além do ponto físico — explica Marcela. Cada loja acaba virando um pequeno centro de distribuição, repassando os produtos vendidos à equipe logística do TikTok, que leva os itens ao consumidor. Mas Aline destaca que muita gente que vê as lives e não compra acaba estimulada a ir ao shopping conferir de perto um produto. E acaba comprando mais. Torcedores lotam Nova América para acompanhar jogos da Copa de 2026 no shopping, que instalou telões — Foto: Divulgação — Ficava na loja esperando clientes entrarem. No estúdio, em uma hora, tempo em que estaria ociosa na loja, já fiz R$ 3 mil. As lives viraram uma rotina essencial e também aumentam as vendas físicas — diz a vendedora. Essa integração de comércio físico e on-line é uma tendência global que tem como principal paradigma a China, origem do TikTok, onde é comum ver influenciadores digitais fazendo vendas ao vivo com seus celulares em shoppings. As lojas criam ambientes físicos (e “instagramáveis”) para atraí-los. Game que vale mimo Também inspirada nas soluções comerciais digitais asiáticas, a Ancar — que administra 23 shoppings no país — incluiu em seu aplicativo joguinhos para fidelizar consumidores e levá-los aos shoppings, bem à moda de varejistas on-line como Shein e AliExpress. Quem visita os centros comerciais da empresa pode se dedicar a procurar QR Codes espalhados pelos corredores. O app também permite cadastrar notas fiscais de compras que geram pontos a serem trocados por mimos, como brindes ou um cafezinho. — Esse programa traz o dinamismo que o cliente quer. Ele quer ser reconhecido sempre, com benefícios, descontos, acesso exclusivo e prioridade. Quer ser tratado como um cliente especial, um heavy user nosso — diz Cecília Ligiéro, diretora de Marketing, Vendas e Inovação da Ancar. Eventos para atrair público A Ancar também intensifica a agenda de eventos para gerar fluxo nos shoppings. A exposição imersiva que celebra os artistas modernistas 'Klimt e Gaudí, o impossível existe', inaugurada no mês passado no Rio Design Barra, aumentou em 35% o fluxo de visitantes. A Copa do Mundo foi outra oportunidade para a companhia, que instalou telões no Nova América, na Zona Norte do Rio, para que o público acompanhasse os jogos do Brasil. O resultado foi um aumento de 10% no faturamento dos restaurantes. Esse shopping já tem uma série de atividades esportivas diárias, que buscam incluir o complexo comercial no cotidiano dos consumidores, como aulas de ioga e turmas de corrida. O bem-estar também é um eixo estratégico da Multiplan, que administra 20 centros, como o Barra Shopping e o Village Mall, no Rio, e o Morumbi Shopping, em São Paulo. No ano passado, a empresa promoveu 1,3 mil eventos do gênero, de maratona a recreação infantil. — Essas ações são importantes ferramentas de relacionamento, oportunidades para que as comunidades do entorno criem ou fortaleçam o vínculo com o shopping — diz Marcelo Martins, vice-presidente de Operações da Multiplan. Projeto Casa Figueira, da Iguatemi, em Campinas, tenta atrair consumidores para morar perto do shopping — Foto: Divulgação Nesse sentido, há investimentos muito mais complexos para manter consumidores ligados aos shoppings, como empreendimentos imobiliários no entorno que coloquem o centro comercial no centro de minibairros. O maior projeto da Multiplan nessa frente está em curso em Porto Alegre: 20 torres residenciais estão em construção a menos de um quilômetro do Barra Shopping Sul, com valor geral de vendas (VGV) de R$ 4,9 bilhões. Empreendimentos como 'satélites' A lógica é que esses empreendimentos funcionem como “satélites” dos shoppings, garantindo um fluxo contínuo de visitantes. No Casa Figueira, aposta imobiliária da Iguatemi em Campinas, no interior de São Paulo, a expectativa é de concentrar 50 mil habitantes no entorno do Shopping Iguatemi Campinas. O loteamento de 1 milhão de metros quadrados deve abrigar cerca de 100 edifícios residenciais e comerciais nos próximos 20 anos. Charles Krell, vice-presidente de Operações da Iguatemi, destaca que a estratégia é uma “via de mão dupla”: o shopping valoriza o complexo imobiliário, enquanto os moradores, trabalhadores e visitantes ampliam o fluxo do shopping. — Uma comunidade se alimenta da outra. O desenvolvimento imobiliário em nossas propriedades, associado à atividade do próprio shopping, é um catalisador muito importante para as atividades do shopping — afirma. A cidade de Campinas, terceiro maior município paulista e um dos principais polos econômicos do país, foi escolhida também para a mais recente empreitada imobiliária da Allos. A empresa lançou no mês passado uma área de 476 mil metros quadrados ao redor do Shopping Parque Dom Pedro. No local, serão construídos 17 edifícios, tanto residenciais quanto destinados a hospitais, escolas, escritórios e hotéis. Ao todo, a Allos tem no portfólio 72 torres desenvolvidas ao redor de 13 shoppings do país. A expectativa da companhia com os investimentos imobiliários é de uma receita de R$ 8 bilhões. Mário Oliveira, diretor de Desenvolvimento e Novos Negócios da Allos, estima que cada “minibairro” viabilize a seu shopping-eixo — ao qual está ligado — um fluxo adicional diário de 40 mil pessoas. Para Douglas Martins, especialista em Marketing e Vendas e CEO da consultoria Vektor, as estratégias dos shoppings são uma busca não apenas para aumentar as vendas, mas capturar o tempo do consumidor. — O tempo de permanência e a frequência nos shoppings vêm aumentando. Isso prova que, hoje e no futuro, será muito mais do que um destino de compras. São locais se reposicionando como infraestrutura urbana de conveniência, saúde e entretenimento. É um papel que, num país com déficit de espaço público seguro e climatizado, é praticamente insubstituível — analisa.