Sempre atento ao fato de que encontros entre grandes artistas atraem grandes públicos, o festival Doce Maravilha armou para a sua edição 2026, no Jockey Club Brasileiro, na Zona Sul do Rio, uma dessas ocasiões raras e muito celebradas: no próximo sábado, em show que começa às 19h, estarão no palco juntos Paulinho da Viola, 83 anos, e sua convidada, Maria Bethânia, 80 anos recém-completados. Dois dos maiores nomes da música popular brasileira, surgidos na efervescente cena dos anos 1960, que nutrem uma admiração mútua mas que, por motivos diversos, pouco conseguiam se ver. — O Paulinho parece um pouco comigo nesse jeito de levar a vida. Ele é quieto, muito caseiro, do mesmo modo que eu. É difícil encontrar, é difícil... não me lembro a última vez que estive com o Paulinho, senão muito recente, no meu aniversário (de 80 anos, no mês retrasado) — diz Bethânia, que em 2025 caiu na estrada com um show comemorativo dos 60 anos de uma carreira iniciada oficialmente aos 18, em 1965, quando foi de Salvador para o Rio, a fim de substituir Nara Leão no espetáculo “Opinião”. Filho de César Faria, lendário violonista do samba e do choro, Paulinho da Viola começou um pouco antes, em 1964, no Zicartola, bar que o compositor Cartola tinha no Centro do Rio com sua mulher, Dona Zica. Ele confirma a raridade dos seus encontros, nos últimos anos, com a amiga Maria Bethânia. — Acho que a gente esteve juntos mais por causa da música, em shows ou em alguma coisa assim. A gente encontrava e tal, mas já tinha algum tempo que eu não falava direito com a Bethânia. Tem viagem, família, filhos, a idade... é a vida da gente, né? — reconhece o cantor, em conversa separada. — Eu tinha visto um show dela recente (o dos 60 anos de carreira), quando consegui falar com ela, disse assim: "Vem cá, você quer me matar?" (risos). Fiquei tão emocionado com o show... foi bonito mesmo! A iminência dessa participação de Bethânia traz, para os dois, lembranças de um tempo em que estiveram bem próximos. A cantora diz não se recordar exatamente do primeiro encontro entre eles. Mas oferece algumas pistas. — Certamente nos encontramos no Zicartola, depois do show Opinião. Ele já estava acontecendo — garante Bethânia, já então uma admiradora daquele rapaz a quem chamavam de Príncipe do Samba. — Sempre ouvi se referirem a ele dessa maneira, por conta da sua extrema elegância. (E quando o conheci) vim a descobrir o motivo. Paulinho avança na recordação do início de sua relação com a cantora. — Começaram os festivais da canção, e aí às vezes às vezes a gente se encontrava. Mas não era assim muito, não. Eu encontrava mais com o Caetano (Veloso), o Capinam (o poeta José Carlos Capinam, seu parceiro), o Sidney Miller, a gente estava sempre junto. A Bethânia, acho que a primeira vez em que a gente fez assim uma apresentação juntos, de uma maneira bem formal e tudo, foi naquele filme, “Saravah” — conta o cantor. Lançado em 1972, “Saravah” é um documentário gravado no Rio, ao longo de três dias, em fevereiro de 1969, pelo ator e compositor francês Pierre Barouh (que em 1966 havia feito a versão francesa de “Samba da Benção”, de Vinicius de Morais e Baden Powell). Fascinado pelo tema do samba, Barouh foi atrás de alguns dos maiores músicos do Brasil, como Baden, Pixinguinha e João da Baiana (àquela altura com mais de 80 anos de idade), Paulinho e Bethânia (então com 21) e gravou conversas e números musicais. ‘A gente estava muito feliz’ “Saravah” ganhou um novo público nas redes sociais, especialmente no Instagram, e graças ao trecho com o encontro de Paulinho e Bethânia, que começou a ser divulgado em perfis dedicados à música brasileira. Paulinho guarda na mente a imagem do encontro com Bethânia em “um lugar bem à vontade, com uma mesa de madeira e bancos” no Rio (“e a gente estava muito feliz, eu senti isso”, recorda-se). A cantora tem memórias mais nítidas: — Inesquecível! O Pierre Barouh, querido, meu amigo, quis fazer esse filme com os mais importantes da música e me convidou. Ele ficava hospedado comigo e me convidou a participar, que porque queria fazer uma coisa com o samba. Quando cheguei lá, para filmar, quem estava? Era Paulinho, olha que alegria! Foi uma tarde encantada, maravilhosa, lembramos sambas de que gostávamos muito, tanto Paulinho quanto eu. Esse filme é maravilhoso! Três anos depois das gravações de “Saravah”, em 1972, os cantores voltariam a se encontrar em uma turnê pela Europa, com o Terra Trio (que acompanhava Maria Bethânia), o violonista Sebastião Tapajós e o percussionista Pedro Santos, também conhecido como Pedro Sorongo. Pouco antes de embarcarem, eles gravaram, separadamente, faixas para um LP bancado pelo selo alemão MPS (o mesmo que hoje está lançando os álbuns de Ed Motta). “Nova Bossa Nova” é hoje uma das peças mais raras da MPB (“das gravações, não tenho a menor lembrança, nem sabia que tinha esse disco!”, diz Bethânia). Paulinho guardou um exemplar e repara que nem na capa e nem na contracapa o LP tinha alguma foto de Bethânia. Já ela lembra da turnê subsequente. — Foi uma viagem muito longa, fizemos uma turnê gigantesca. Alemanha, Áustria, Itália, Portugal... e chegamos até Oslo. Viajamos muito, acho que uns dois meses, cantávamos em espaços nas universidades interioranas. Viajávamos o dia inteiro, oito, nove horas de viagem e chegávamos direto no lugar onde íamos cantar. Era lavar o rosto, fazer passar uma maquiagem rapidamente e subir no palco — conta. — Mas foi prazerosíssimo, porque o Paulinho é espetacular. Tinha meus queridíssimos meninos do Terra Trio, com toda a intimidade comigo, com o meu conhecimento do meu trabalho. E o Pedro Santos, que era o percussionista, meu e de Paulinho, uma figuraça. Essa memória eu tenho muito viva, de muita dificuldade, mas de muito prazer. Paulinho assina embaixo das recordações da companheira de cena: — A gente estava sempre conversando e rindo. O Pedro Sorongo, a Bethânia não podia olhar para ele, que ria muito! Apesar da admiração confessa, Maria Bethânia pouco gravou Paulinho da Viola. Em pot-pourris, “Sinal fechado” e “Num samba curto” entraram no LP ao vivo “A Cena Muda”, de 1974 (“e teve uma época que ela cantava muito um samba meu, ‘Coração vulgar’”, recorda-se o cantor – a interpretação, por sinal, está em “Saravah”). — Paulinho compõe divinamente, com uma personalidade, com uma assinatura nítida. Isso me encanta, além de ser lindo tudo que ele compõe. Eu adoro, sou fã dele. Queria cantar mais, mas ele faz umas melodias que às vezes eu acho que só ele sabe cantar direito — justifica-se. — Sempre vou querer cantar Paulinho e sempre vou temer um pouco cantar Paulinho, porque ele é um cantor tão afinado, um compositor tão fino, tão sofisticado... mas eu ouso, faz parte de mim ousar. Dois dias de ensaio Para o encontro no Doce Maravilha estão previstos dois dias de ensaio, nos quais Bethânia promete “preparar o melhor que pudermos”: — Mas é o show dele, o lindo show de Paulinho, aquela beleza de sempre, aquela elegância de sempre, aquela boa música de sempre, e uma participação minha. Estou feliz de reencontrar Paulinho depois de tantos anos, reencontrar em cena. Isso é emocionante para mim, fico comovida de vê-lo, sempre tão elegante, tão cavalheiro, sempre tão nobre. É um homem lindo, o Paulinho, lindo, lindo, um compositor extraordinário. Um samba que o cantor puxou em “Saravah” e que Bethânia conhecia, os dois vão recuperar no show: “Tudo é ilusão”, de Aníbal Silva, Eden Silva e Raul Moreno, conhecido na gravação de Dalva de Oliveira. Além dela, Paulinho entrega que ambos cantarão a “Falsa baiana”, de Geraldo Pereira, que costumavam incluir nos shows na Europa en 1972. Nesta parte conjunta, a banda do sambista será acrescida de Jorge Helder (baixo) e João Camarero (violão), fiéis escudeiros da cantora. Capinam revisitado Entre as que vai cantar só com sua banda, Paulinho adianta que haverá o “Sinal fechado” e algumas que nem sempre inclui em seus shows, como “Retiro”, “Roendo as unhas” e “Canção para Maria”, parceria com Capinam, que não revisitava há muito tempo. — Apresentamos ela em 1966, num festival em São Paulo, cantada pelo Jair Rodrigues — rememora o sambista, acrescentando que a letra reúne muitas imagens da Bahia (e ainda conta com a coincidência do nome no título). — A intenção foi essa, acho que é uma forma de dizer: “Olha, nós temos aqui uma outra Maria”. A festa dos 80 anos de Bethânia serviu de belo esquenta para o encontro no palco do Doce Maravilha: nela, a aniversariante e Paulinho foram flagrados dançando “Ainda bem”, hit de Marisa Monte. — Eu ia até fazer uma brincadeira de dançar um pouco como se fosse um miudinho, mas não dava porque eu estava com um sapato de sola de borracha e não podia fazer aquilo. Aí, nós nos abraçamos e dançamos juntos, foi muito bom — relata o cantor. Bethânia curtiu. — Foi uma delícia. Primeiro, porque adoro Marisa, adoro Paulinho, adoro dançar, adoro festa, e achei que foi bonito ali esse encontro com Marisa cantando essa música que Xande (de Pilares) regravou divinamente em pagode. Tenho uma memória bonita desse período, dessa canção — derrete-se. — E fiquei feliz, porque com Paulinho eu tenho alguma intimidade. Então eu falei: “vem dançar comigo, essa música merece”. Ele estava de sapato de sola de borracha, então era ruim de deslizar. Mas ele é tão cavalheiro, tão nobre, tão lindo... adoro Paulinho. Bravo, Paulinho! Por fim, cabe a recorrente pergunta ao compositor de tantos clássicos do samba: e aquele álbum de inéditas? Ele diz que não dá para garantir (o seu último, “Bebadosamba”, completa em 2026 seus 30 anos de idade). Mas há novidades: enfim, Paulinho entregou a letra de uma parceria com Marcos Valle, ainda sem título. — Os meus parceiros sofrem, porque eu levo muito tempo para fazer uma letra. Uma delas, para o (Eduardo) Gudin, eu levei 10 anos para escrever! — orgulha-se. — Com o Marcos, devem ter sido uns três ou quatro anos. Um dia fui ver um show dele no Blue Note e, quando acabou, fui dar um abraço, comecei a cantar a melodia, e ele: “pô, você ainda lembra dela!” Como músico, eu tenho uma boa memória, de coisas antigas, coisas da minha infância, aquilo não desaparece. Posso até esquecer uma letra minha, que eu já não cantava há muito tempo, mas a melodia, não. Naquela noite, brinquei com o Marcos: “ó, essa letra ainda vai sair!”. E aí a letra ficou pronta. Agora a gente vai se encontrar para ver o que sai.
Como Paulinho da Viola e Maria Bethânia estão se preparando para o reencontro no palco
Sambista terá participação especial de cantora em show no Doce Maravilha, no próximo sábado (8)







