Em três anos, despesa pública do país caiu de 19,5% do PIB para 14,3% do PIB 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Javier Milei — Foto: Tomas F. Cuesta/Bloomberg O governo argentino tem promovido um duro ajuste fiscal desde o início do mandato de Javier Milei. A despesa primária do Executivo federal, medida em 12 meses como proporção do PIB, caiu de 19,5% em maio de 2023 para 14,3% em maio deste ano, segundo cálculos da consultoria Analytica com base em dados oficiais. Além disso, promoveu mudanças no mercado cambial — removendo controles para a compra de dólares —, recebeu apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e voltou a captar recursos no mercado externo. Analistas avaliam, porém, que 2027 será o grande teste para as reformas de Milei. A campanha para as eleições presidenciais de outubro do ano que vem testará a disposição do governo de seguir o ajuste fiscal com seus possíveis efeitos negativos na popularidade de Milei. Além disso, o país tem US$ 25 bilhões em dívidas em dólar vencendo em 2027, e pode não se repetir o cenário externo favorável deste ano, com a guerra no Irã turbinando os ganhos com petróleo e os juros americanos baixos facilitando captações. Para Fabio Giambiagi, do FGV Ibre, a situação fiscal está em ordem e as contas externas têm melhorado, mas a dúvida é se isso é suficiente para um longo processo virtuoso. Os gastos públicos do governo federal já foram comprimidos de tal forma que o espaço para novas reduções agora é bem mais limitado, diz Giambiagi: — Há serviços que deixam de ser executados. O custo social e político de repetir isso é cada vez maior. À medida que se aproximam as eleições, surgem as dúvidas: o que acontecerá? É verdade que Milei hoje reina absoluto, mas porque ainda faltam 15 meses para as eleições. Conforme ela se aproximar, a oposição terá uma cara mais visível. O esforço fiscal argentino — Foto: Criação / O Globo Pressão eleitoral O ajuste fiscal e o superávit comercial têm ajudado o país a honrar os vencimentos de dívida externa e a se financiar no exterior. Mas Tito Nolazco, gerente de Assuntos Públicos para a América Latina da consultoria Prospectiva, diz que o país depende muito de condições externas favoráveis. A disparada do petróleo tem elevado as receitas de exportação de Vaca Muerta, reserva gigante de petróleo e gás não convencional localizada na Patagônia. Mas o El Niño deve trazer mais chuvas e temperaturas mais altas ao país no fim do ano, o que aumenta o risco hídrico sobre o agronegócio, motor histórico das exportações argentinas, diz Nolazco: — O governo depende de um marco de estabilidade e confiança na região, taxas baixas do Tesouro americano e um risco-país em queda que ajude no refinanciamento, caso seja necessário. Também depende de uma economia global em ascensão que demande mais insumos de energia e proteínas animais. Na visão de Nolazco, o fato de o ministro da Economia, Luis Caputo, ter dito ao mercado recentemente que conseguirá cumprir os vencimentos de dívida até o fim do mandato de Milei é uma forma de tentar oferecer confiança e previsibilidade aos investidores. É também o principal trunfo do governo para 2027, evitando uma situação semelhante à de 2025, quando o governo precisou de um apoio inédito e explícito dos Estados Unidos. Para o economista Hernán Letcher, diretor do Centro de Economía Política Cepa), a compra de dólares pelo Banco Central e o uso de depósitos do próprio Tesouro devem pressionar as reservas do BC em até US$ 12 bilhões entre o restante deste ano e 2027. Ele diz que Caputo pretende captar US$ 5 bilhões no ano que vem, um valor semelhante ao captado em 2026, porém terá um ambiente mais desafiador e altamente dependente das condições financeiras e das tensões pré-eleitorais. De acordo com o Cepa, o governo teve déficit primário de 696,8 bilhões de pesos (cerca de R$ 2,3 bilhões) em junho, o primeiro resultado negativo da gestão de Milei. Com isso, o resultado fiscal acumulado no primeiro semestre foi menor que o esperado, um superávit de 6,2 trilhões de pesos (R$ 21,2 bilhões). — A meta é fechar o ano com superávit acumulado de 16,3 trilhões de pesos (R$ 55,8 bilhões), o que significa que o governo precisaria acumular quase 10 trilhões de pesos (R$ 34,6 bilhões) em superávit primário entre julho e dezembro para atingir a meta anual — explica Letcher, destacando que o segundo semestre costuma representar só um terço do resultado fiscal anual, o que torna extremamente difícil atingir a meta de dezembro. — E nada indica que 2027 será mais fácil. A inflação despencou de 211,4% em 2023 para 31,5% no fim de 2025, e a previsão é de fechar em 30% este ano. Do lado das empresas, os setores de energia (petróleo e gás), mineração, agronegócio e financeiro vão bem, mas o desempenho do restante da economia é pífio, segundo analistas. Dos 16 macrossetores da economia argentina, metade encolheu no acumulado de 2024 e 2025. O gasto total do governo federal, incluindo juros, está em queda constante como proporção do PIB. Passou de 16,8% em 2024 para 15,9% em 2025 e 15,5% em 2026. Desafio eleitoral Nolazco acredita que Milei deve seguir com o ajuste fiscal no ano eleitoral. A aposta do governo, segundo ele, será de que a queda contínua da inflação e o aumento da atividade e das exportações se traduzam em melhora da percepção do eleitorado e, por consequência, da intenção de voto. Giambiagi diz que, na prática, a Argentina já está fazendo um shutdown. A contenção de gastos públicos é de tal magnitude que já há calotes pontuais, com o governo deixando de pagar fornecedores. Há setores privados reclamando que o governo não está cumprindo seus compromissos: — É difícil imaginar um governo com chances eleitorais fazendo cortes sucessivos. A imagem (da motosserra) que foi claramente bem-sucedida em 2023 estará desgastada se Milei só tiver feito isso em quatro anos — afirmou.
Milei reduz gasto público da Argentina com ajuste fiscal, apoiado por conjuntura externa
Em três anos, despesa pública do país caiu de 19,5% do PIB para 14,3% do PIB









