Relatório estimava em US$ 32,3 bilhões, incluindo juros, os pagamentos da dívida em moeda estrangeira do país previstos para 2027, ano em que Milei deve tentar a reeleição como presidente A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, chega à Argentina nesta segunda-feira, em um momento em que cresce a confiança dos investidores nas reformas do presidente Javier Milei, apesar das preocupações com o cronograma apertado de pagamento da dívida do país, que pode coincidir com a campanha pela reeleição no próximo ano. As exportações argentinas estão em alta, as reservas internacionais aumentaram e a inflação, que estava em alta, desacelerou. Na semana passada, a Moody's elevou a nota de crédito soberano do país, após revisões positivas anteriores da S&P Global e da Fitch, reforçando o otimismo dos mercados em relação aos esforços de Milei para estabilizar uma economia historicamente marcada por ciclos de expansão e crise. Ainda assim, os investidores acompanham atentamente os desafios à frente. Um relatório do FMI estimava em US$ 32,3 bilhões, incluindo juros, os pagamentos da dívida em moeda estrangeira do país previstos para 2027, antes de o Banco Central da Argentina adiar para 2028 US$ 6 bilhões em operações de financiamento via recompra (repo) no início deste mês. O governo afirma que pretende cumprir essas obrigações por meio de uma combinação de financiamento multilateral, privatizações e emissão de dívida no mercado doméstico, evitando recorrer novamente aos mercados internacionais de capitais. O momento é delicado porque esses pagamentos vencerão justamente quando Milei estará em campanha para um segundo mandato. Qualquer percepção de que o atual presidente possa enfrentar dificuldades para se reeleger, ou de que um sucessor possa mudar o rumo da política econômica, poderá abalar a confiança dos investidores e dificultar o financiamento. A viagem de Kristalina Georgieva, a primeira à Argentina como diretora-gerente do FMI, inclui encontros com Milei e o ministro da Economia, Luis Caputo, além de uma visita à formação de xisto de Vaca Muerta, na Patagônia, considerada um dos pilares da estratégia do governo para ampliar as exportações de energia e gerar os dólares necessários para fortalecer as contas do país. A visita de dois dias ocorre antes da terceira revisão do programa de US$ 20 bilhões firmado entre a Argentina e o FMI. Desde que Milei assumiu a Presidência, no fim de 2023, o Fundo tem apoiado de forma consistente a disciplina fiscal, as reformas legais e os esforços do governo para reduzir a inflação mensal, que caiu para 1,9% em junho. Ainda assim, o mais recente relatório técnico do FMI alertou para "riscos excepcionais", afirmando que, embora a dívida da Argentina seja sustentável, não há elevada probabilidade de que continue sendo Javier Milei, presidente da Argentina, Kristalina Georgieva, diretora do FMI, em evento do G7 em 2024 — Foto: AP Photo/Andrew Medichini Teste eleitoral O próximo ano desponta como um teste crucial não apenas para a agenda legislativa de Milei, mas também para o FMI, que tem apoiado fortemente a recuperação econômica da Argentina. A Argentina continua sendo o maior devedor do Fundo, e a relação entre as duas partes é marcada por um histórico complexo, após uma sucessão de programas que não conseguiu evitar repetidas crises econômicas. Segundo analistas, o foco dos investidores está deixando de ser o sucesso de Milei na estabilização da economia e passando para a capacidade de sustentar a recuperação. O desafio agora é gerar dólares, investimentos e apoio popular suficientes para manter suas reformas de austeridade além da fase inicial da recuperação. Exportações mais fortes e indicadores financeiros melhores, por si só, não garantirão sucesso eleitoral se muitos argentinos continuarem enfrentando elevado endividamento das famílias e empregos precários, afirmam analistas. "O problema de Milei já não é mais se a narrativa macroeconômica convence no exterior. A questão é se os eleitores conseguem senti-la no dia a dia", afirmou Mariano Machado, da consultoria de risco Verisk Maplecroft. Aldo Abram, diretor da Fundación Libertad y Progreso, afirmou que as políticas do governo de flexibilização das restrições às importações provocaram fortes perdas de empregos em setores industriais pouco competitivos. A Moody's, ao elevar a nota de crédito da Argentina neste mês, advertiu que os riscos políticos continuam sendo uma limitação importante e que qualquer reversão das reformas poderá comprometer os avanços recentes. Isso faz com que a eleição de 2027 seja quase tão importante quanto os próprios pagamentos da dívida. "O grande desafio é que esse processo de reorganização, que aos olhos dos investidores e da macroeconomia é muito satisfatório, precisa ser validado nas urnas", afirmou o economista Gustavo Ber.