Kristalina Georgieva vai conferir de perto a recuperação econômica promovida pelo presidente argentino. País inicia quitação da dívida com a instituição em poucos meses 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI — Foto: José Sarmento Matos/Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/07/2026 - 10:38 Visita de Georgieva à Argentina destaca desafios econômicos e reformas de Milei Kristalina Georgieva, diretora do FMI, visita a Argentina pela primeira vez desde que assumiu o cargo, para avaliar a recuperação econômica sob Javier Milei. A relação entre o FMI e a Argentina, seu maior devedor, evoluiu, mas o desafio do pagamento da dívida persiste. As reformas econômicas de Milei e o boom do petróleo são destaques, mas o futuro financeiro do país ainda é incerto, com pagamentos programados até 2042. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Oito anos, três acordos e US$ 57 bilhões depois da última visita de um diretor do Fundo Monetário Internacional à Argentina, Kristalina Georgieva desembarca nesta segunda-feira em Buenos Aires para conferir de perto a recuperação econômica promovida pelo presidente Javier Milei. Os tempos mudaram para melhor na relação entre o FMI e seu maior devedor. No entanto, o verdadeiro teste — o pagamento da dívida — está prestes a começar. Isso levanta dúvidas sobre se o Fundo conseguirá algum dia encerrar sua longa relação com a Argentina, ou vice-versa, e se Georgieva poderá transformar um histórico de fracassos em uma de suas maiores conquistas. Georgieva fará uma visita institucional de dois dias. A agenda inclui reuniões com Milei, o ministro da Economia, Luis Caputo, e o presidente do Banco Central da Argentina, Santiago Bausili, além de um jantar com empresários e uma visita à região de Vaca Muerta. Esta será sua primeira visita à Argentina desde que assumiu o comando do FMI, em 2019, e a primeira vez em oito anos que a principal autoridade do Fundo vai a Buenos Aires. A última visita desse nível ocorreu em julho de 2018, quando a então diretora-gerente, Christine Lagarde, esteve no país durante o governo de Mauricio Macri, poucas semanas após a assinatura do acordo de US$ 45 bilhões entre a Argentina e o FMI. A diretora-gerente do FMI visita Milei em um momento particularmente favorável para o governo argentino, e sua primeira viagem ao país desde que assumiu o comando da instituição reflete esse cenário. Os títulos da dívida argentina estão em alta, a inflação está em queda e o banco central vem recompondo suas reservas internacionais, essenciais para honrar os compromissos com o FMI. A economia voltou a crescer, ainda que de forma desigual, e Georgieva verá de perto uma das principais histórias de sucesso do país: o boom da produção de petróleo na Patagônia, que vem atraindo bilhões de dólares em investimentos. — O governo fez um progresso extraordinário — afirmou Martin Mühleisen, ex-funcionário do FMI e pesquisador sênior do Atlantic Council. — Agora existe, pelo menos, a perspectiva de que a Argentina consiga, no futuro, quitar sua enorme exposição ao FMI. A visita de Georgieva seria difícil de imaginar apenas três anos atrás, quando técnicos do Fundo viam uma “crise em plena escalada” às vésperas da eleição presidencial argentina, com a inflação acima de 100% e o país mergulhado em uma profunda recessão. Após 23 programas de assistência ao longo de quase 70 anos, o FMI continua sendo amplamente rejeitado na Argentina e é visto por muitos cidadãos como um dos responsáveis — ou um bode expiatório — pelas sucessivas crises econômicas em que a instituição esteve envolvida. Kristalina Georgieva herdou a dívida da Argentina com o FMI ao assumir o comando da instituição, depois que sua antecessora, Christine Lagarde, fracassou na tentativa de resgatar o governo argentino anterior por meio de um pacote de ajuda financeira recorde concedido no ano anterior e, em seguida, assumiu a presidência do Banco Central Europeu. Em setembro, a Argentina começará a amortizar o principal da dívida, elevando os pagamentos totais — incluindo juros — para US$ 3 bilhões no restante de 2026. Esse valor mais do que dobrará no próximo ano, e a administração que suceder Milei terá de desembolsar pelo menos US$ 9,5 bilhões por ano entre 2028 e 2031, segundo o FMI. Pagamentos até 2042 Atualmente, os pagamentos estão programados para se estender até 2042, e o governo argentino afirma que não pretende refinanciar a dívida, pelo menos no próximo ano, quando termina o atual mandato de Milei. Ex-funcionários do FMI afirmam que praticamente tudo precisará dar certo para Javier Milei caso ele pretenda, em algum momento, encerrar a dependência da Argentina em relação ao Fundo. — Se a Argentina conseguir gerar os dólares necessários para pagar o FMI, os detentores de títulos da dívida e outros credores, e se Milei sair vitorioso nas eleições do próximo ano, o ciclo será rompido — afirmou Douglas Rediker, ex-representante dos Estados Unidos no FMI, acrescentando: —Se qualquer um desses fatores não se concretizar, o país precisará de mais tolerância por parte do FMI — incluindo um novo programa para ajudar a pagar os anteriores —, poderá entrar em moratória com outros credores ou recorrer a soluções de engenharia financeira do tipo que Milei prometeu desmontar quando assumiu o governo. O elemento que ainda falta é o retorno da Argentina aos mercados internacionais de capitais — um passo que Georgieva considera importante, mas que Milei, por enquanto, não pretende dar. O acesso aos mercados ajudaria a garantir que o FMI receba os recursos emprestados de volta e substituiria a atual estratégia gradual de administração da dívida, baseada no mercado doméstico argentino, que tem funcionado até agora, mas cuja sustentabilidade é limitada diante do forte aumento dos pagamentos previstos para os próximos anos. Milei tem evitado recorrer a Wall Street, demonstrando frustração com o fato de que os prêmios de risco dos títulos argentinos refletem mais o temor de uma nova mudança de rumo político nas eleições do próximo ano do que os resultados alcançados por sua política econômica. O ceticismo dos investidores em relação à continuidade das políticas econômicas na Argentina tem fundamento. Desde 2018, ao longo de três programas firmados com o FMI, o país teve três presidentes, seis ministros da Economia e cinco presidentes do Banco Central. Durante a maior parte desse período, a economia permaneceu em recessão, enquanto a inflação — hoje em 34% — chegou a se aproximar dos 300% logo após a posse de Javier Milei. Embora Milei e Kristalina Georgieva demonstrem apoio mútuo em público, a relação entre ambos nem sempre transcorreu sem atritos. Milei criticou duramente Rodrigo Valdés, alto funcionário do FMI nomeado por Georgieva, até que ele deixou de participar das negociações com a Argentina. Georgieva também precisou recuar após declarações feitas no ano passado, antes das eleições legislativas de meio de mandato, quando afirmou que “é muito importante que os eleitores não interrompam a vontade de mudança” — comentário que foi interpretado em Buenos Aires como uma interferência no processo eleitoral. Desta vez, Georgieva procura manter distância da política argentina ao visitar o país mais de um ano antes da eleição presidencial de 2027. O FMI também deixou de ser um alvo tão frequente de críticas desde que Milei passou a empunhar uma motosserra como símbolo de sua campanha de austeridade, invertendo a percepção histórica de que era o Fundo quem obrigava governos argentinos relutantes a cortar gastos públicos. Apesar de todos os resultados alcançados até agora por Milei, ainda não está claro se o atual programa com o FMI será o último da Argentina. — O país pode estar começando a sair desse ciclo — afirma Kezia McKeague, diretora-gerente da consultoria McLarty Associates, sediada em Washington. — Mas ainda não conseguiu se libertar dele.