A frente de rajada, uma espécie de vendaval turbinado que atingiu regiões do Sudeste e do Sul do país nesta quarta-feira, pode ser considerado um sinal — no máximo — indireto da influência do El Niño no clima da América do Sul. O fenômeno em si já começa a dar "as caras", com elevação da temperatura do Oceano Pacífico, entre outros fatores, mas especialistas em clima consideram que ainda é cedo para conectá-lo a um evento extremo isolado, como o vendaval desta semana. Nesta quarta, de acordo com meteorologistas, houve um "gradiente de pressão" muito forte em um curto espaço territorial. Isto é, uma frente fria veio acompanhada por uma mudança muito brusca da pressão atmosférica, o que criou uma força intensa empurrando o ar da região de maior pressão para a de menor pressão — o deslocamento do ar resultou nos ventos. O abrupto choque da frente fria com o calor das cidades, numa curta distância, propiciou a formação de rajadas. Antes da chegada desse "combo", o Sudeste estava sob influência de ar quente, relativamente seco. O ar frio avançou e gerou o contraste de temperatura e pressão, o que acelerou os ventos. No litoral e nas regiões serranas, a topografia e a exposição ao fluxo de sul e sudoeste ainda intensificaram localmente essas rajadas. Para o coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Marengo, o fenômeno desta quarta decorreu justamente dessa frente fria acompanhada de uma linha de estabilidade — a mesma frente fria, ele diz, que levou temporais ao Rio Grande do Sul dias antes e que, ao avançar, gerou as linhas de rajada que passaram de 100 km/h em alguns lugares. O especialista aponta que as chuvas intensas recentes no Sul brasileiro — elas, sim — podem "talvez" indicar que o El Niño "está começando mais cedo que o previsto". Mas não há evidências para atestar isso, até agora. — Os extremos sempre acontecem, com ou sem El Niño. O que pode acontecer é que, durante o El Niño, por exemplo, possamos ter mais ondas de calor, e algumas delas mais intensas, ou episódios de chuva mais intensa, como aconteceu no Rio Grande do Sul em setembro de 2023 e maio de 2024. Mas atribuir um fenômeno isolado de menos de meia hora de duração a um fenômeno El Niño, que nós chamamos de interanual, que dura um ano, não temos evidências para isso — destacou. Marengo afirmou que o El Niño está, sim, começando no Oceano Pacífico e que pode aparecer algum efeito especialmente no Sul do país. O que se esperaria, segundo análise de "Niños" do passado, é que as chuvas por lá começassem em setembro — e já houve precipitações intensas na região. Mas esse possível indicador do fenômeno se refere a chuvas, não ventos fortes. — Agora, aquele vendaval, ventos fortes, é difícil atribuir a um fenômeno de longo prazo. É como se você atribuísse, por exemplo, a morte de uma pessoa que caiu da janela de um prédio à pandemia de Covid-19. A Covid-19 não matou a pessoa, a pessoa caiu do prédio por algum motivo. Neste caso, tem que ter muito cuidado em atribuir um extremo a um fenômeno de escala sazonal. Já tem pessoas me ligando para perguntar se os terremotos na Venezuela são consequências do El Niño. Atribuir todo evento extremo a ele é perigoso. Porque aí demonizam, e os tomadores de decisões perdem a seriedade, acham que os meteorologistas estão brincando. O especialista ressalta a importância de reforçar sistemas de alerta para dirimir riscos e evitar o pânico da população no futuro. Influência se mistura à sazonalidade Já a meteorologista Andrea Ramos ressalta que uma atualização do Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) em 27 de julho mostrou que o El Niño "já está estabelecido". Além do aquecimento do Oceano Pacífico, foram observadas mudanças nos ventos e na convecção tropical compatíveis com o fenômeno. — Portanto, já não se trata apenas de uma previsão: o El Niño está influenciando a circulação atmosférica global. A influência já começou, mas ainda se mistura à sazonalidade. As rajadas registradas em São Paulo e no Rio de Janeiro em 29 de julho foram provocadas principalmente pela aproximação e passagem de uma frente fria, associada a uma área de baixa pressão e a um forte gradiente de pressão atmosférica — explicou. Tampouco é possível atribuir diretamente o vendaval, segundo a especialista, às mudanças climáticas de modo geral antes de um estudo mais amplo. Isso porque, no momento, ainda há baixa confiança nas tendências observadas de tornados, granizo e rajadas convectivas extremas, especialmente em regiões com séries históricas e redes de observação limitadas. O El Niño, por sua vez, é por ora um "pano de fundo climático", com alteração gradual de padrões de circulação, transporte de umidade e distribuição das chuvas, sem atribuição direta com os episódios de vendavais, chuvas intensas ou estiagem registrados em junho e julho. — A causa imediata de uma tempestade continua sendo a passagem de uma frente fria, um ciclone, um cavado, uma baixa pressão ou a formação de áreas de instabilidade. Episódios meteorológicos individuais podem produzir inundações, enxurradas, alagamentos, movimentos de massa e danos por tempestades. O Cemaden ressalta, porém, que o El Niño não provoca o desastre isoladamente: ele eleva a probabilidade de condições favoráveis, enquanto a gravidade depende da chuva efetivamente observada, da situação hidrológica e da exposição das áreas atingidas. A leitura mais adequada é que o El Niño já começou a influenciar o Brasil, mas seus sinais ainda convivem com a variabilidade do inverno e com a atuação dos sistemas meteorológicos regionais — resumiu Andrea. A influência do El Niño deve ser vista com mais clareza entre agosto e a primavera, com maior propensão a chuva acima da média no Sul e condições mais quentes e secas no centro-norte do país. Ainda não é possível saber se o fenômeno deste ano terá impactos semelhantes aos registrados em 2015/2016 ou 2023/2024, já que o clima brasileiro é modulado também por frentes frias, umidade do solo, entre outros fatores. 'Ponta do dedo do longo braço' do El Niño Como disse ao GLOBO nesta quinta-feira Marcelo Seluchi, coordenador de operação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o vendaval desta quarta pode ser considerado um sinal da influência do El Niño no clima da América do Sul. Raro no inverno, seria como "a ponta do dedo do longo braço" do fenômeno, porque está associado, neste caso, à frente fria estacionária que gerou as fortes chuvas no Rio Grande do Sul. Seluchi explica que os fortes ventos eram a vanguarda de um sistema de tempestades, e foi dessas tempestades do Sul que se desprendeu uma linha de instabilidade, uma faixa contínua de nuvens de tormentas. A frente de rajada, por sua vez, deriva da linha de instabilidade. É a dianteira dela e avança mais depressa ainda. As fortes chuvas no Sul, na faixa de 300 mm em cinco dias, estão relacionadas com o El Niño, segundo o especialista. O Niño tem alterado e aumentado os ventos em parte da América do Sul. E resultado disso, por exemplo, é a frente estacionária que passou dias fazendo chover no Rio Grande do Sul. — Se já está chovendo tanto em julho, que é um mês seco, o que vai acontecer na primavera, quando o El Niño ficará mais intenso? Não sabemos, mas não parece estar começando bem — acrescentou Seluchi. El Niño fornece 'adicional' de calor, gatilho de tudo O meteorologista Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), reforça que o El Niño, por si só, não provoca desastres — ou seja, sempre influencia de forma indireta os eventos extremos. Ele defende que o primeiro fator a se analisar para entender cenários incomuns para determinadas épocas do ano na atmosfera tropical é o calor. — O calor é a forma mais direta de se entender o que está acontecendo na atmosfera tropical. É o gatilho de tudo o que está acontecendo em termos de eventos extremos em várias partes do globo, direta ou indiretamente. O El Niño é o mecanismo na região central do Pacífico que gera energia que ativa alguma circulação. Ele coloca um excesso de calor. É subjetivo atribuir, depende de metodologia, modelo, mas é claro que a gente tem recentemente um excesso de calor disponível para essa época do ano em várias regiões dos trópicos, e tem esse adicional do El Niño — analise. O que é o El Niño O El Niño é uma oscilação natural do clima, caracterizada pela elevação da temperatura média da água do Oceano Pacífico Equatorial em pelo menos 0,5 graus Celsius por três meses consecutivos. Ele vai de fraco, neste aumento próximo de 0,5 grau Celsius, até um Super El Niño, quando as águas aquecem a 2,5 graus Celsius. A partir deste ponto, o Pacífico vira uma "piscina de água quente" do tamanho da Amazônia brasileira, com grande quantidade de energia acumulada. Como o oceano interage o tempo todo com a atmosfera, tamanho calor muda o regime de ventos. E dá-se início a alterações climáticas em escala global, com eventos extremos. O aquecimento ocorre no oceano, mas acaba influenciando também a atmosfera. O Oceano Pacífico é a região da Terra que mais recebe radiação solar, e esta energia é estocada em forma de calor, que evapora. Em tempos normais, os ventos alísios ajudam a distribuir este calor, empurrando a água quente em direção à Ásia, dando origem às monções, por exemplo. Quando a temperatura do oceano sobe acima de 0,5 graus Celsius, o regime de ventos é alterado. Os ventos alísios ficam mais fracos. Sem o empurrão dos ventos alísios, a água quente fica concentrada no Centro e no Leste do Pacífico, mudando a forma como o calor é distribuído na atmosfera terrestre. Este desequilíbrio desencadeia eventos extremos, como chuvas torrenciais na América do Sul e secas na Ásia e na Oceania. As projeções indicam 81% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro, novembro e dezembro, com possibilidade de seus efeitos se estenderem pelo verão do Hemisfério Sul.