O desempenho das principais empresas de tecnologia nesta semana acalmou os ânimos de investidores e analistas diante de resultados com ganhos elevados de receita com nuvem e inteligência artificial (IA). A leitura predominante é a de que as empresas têm conseguido transformar os investimentos em lucro concreto, mas, como diz o ditado, "o diabo mora nos detalhes". Embora os ganhos bilionários não cessem, o fluxo de caixa das gigantes de tecnologia continua pressionado pelos gastos necessários para atender à demanda crescente por IA. Os principais destaques foram os resultados de Alphabet, Microsoft e Amazon. Esta última, que divulgou seu balanço ontem, registrou receita de US$ 42,2 bilhões no segmento da Amazon Web Services (AWS), com salto de 37% no trimestre. Foi o maior ritmo de crescimento desde o quarto trimestre de 2021. Para William Castro Alves, economista-chefe da Avenue, a temporada de resultados deixou claroo retorno que as empresas já estão conseguindo realizar com IA. Houve forte crescimento de receita, alta demanda por nuvem, avanços de dois dígitos em praticamente todas as linhas de negócio e lucros, de modo geral, surpreendentes, segundo ele. — Os grandes destaques foram Alphabet, Microsoft e Amazon. E, em menor medida, Meta e Apple. Aquelas empresas que estão mais ligadas à IA e nuvem mostraram resiliência, confirmando que tem muita demanda, seja de empresas e consumidores. Isso está muito forte — observa Alves. A Microsoft, que divulgou seus resultados no dia 29, apontou que as vendas do Azure, sua unidade de computação em nuvem, saltaram 43% no período entre abril e junho. Foi o maior avanço desde o início de 2022, superando a estimativa média dos analistas, de cerca de 40%. As vendas do Azure ultrapassaram US$ 100 bilhões pela primeira vez. A receita total da companhia cresceu 18%, para US$ 90 bilhões, superando a estimativa média de US$ 87,7 bilhões. O lucro por ação foi de US$ 4,81, ante uma projeção de US$ 4,25. O bom desempenho das ações da Microsoft impulsionou a recuperação das empresas de tecnologia e levou as bolsas de Nova York a fecharem em forte alta. O Nasdaq, mais sensível ao desempenho do setor, avançou 2,78%. O bom humor também chegou ao mercado brasileiro: o Ibovespa subiu 1,88%, aos 177.519 pontos, favorecido pela retomada do apetite por risco. Demanda já se comprova e afasta temor de bolha de IA Os resultados também sinalizaram aos investidores que o temor de uma bolha de inteligência artificial (IA), em meio aos elevados investimentos em data centers, nuvem e ferramentas de IA, está mais distante, já que as empresas e consumidores estão dispostos a pagar para ter acesso a essas ferramentas. A aceleração dos ganhos de receita do Google Cloud foi o que mais chamou atenção dos investidores, segundo Alves, da Avenue. O braço de nuvem da Alphabet já fatura US$ 25 bilhões por trimestre. Ainda assim, o mercado segue de olho no Capex (sigla em inglês para capital expenditure) isto é, o gasto da empresa para construir e equipar data centers, comprar chips e ampliar sua infraestrutura de nuvem e IA. — É preciso muito investimento, e aí o fluxo de caixa se deteriora muito. É o que se imagina que vai acontecer ainda este ano e até 2027 — afirma Alves. As vendas na região somaram US$ 18,8 bilhões no terceiro trimestre fiscal, bem abaixo dos US$ 19,6 bilhões projetados. Já a receita com serviços foi de US$ 30,7 bilhões, frente a uma projeção de US$ 31,4 bilhões. As ações caíram 3% após divulgação dos resultados. Já o balanço da Meta foi mal recebido pelo mercado. As ações chegaram a recuar mais de 6% após o fechamento do mercado em Nova York, mesmo com receita de US$ 60,8 bilhões acima das projeções. O lucro líquido caiu 14% na comparação anual, o que fez o fluxo de caixa livre da empresa despencar. Uma mentalidade de 'nós contra eles' surgiu entre a equipe de inteligência artificial recém-contratada e generosamente remunerada da Meta e os antigos assessores de Zuckerberg — Foto: Jason Henry/The New York Times A companhia de Mark Zuckerberg informou que já comprometeu quase US$ 700 bilhões em gastos futuros - por meio de acordos de curto e longo prazo - relacionados a IA, data centers, computação em nuvem e outras áreas. E a empresa planeja investir entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões em capex neste ano. Só que, ao contrário de suas rivais (Microsoft, Alphabet e Amazon), a Meta normalmente não vende seu poder computacional a clientes. Por isso, um investimento excessivo em data centers representa um risco maior. — Foi a empresa que mais sofreu. E trouxe um guidance (projeção de resultados que a própria empresa divulga ao mercado para o próximo trimestre) que decepcionou — analisa Alves. Durante a teleconferência de resultados na quarta-feira, investidores pressionaram Zuckerberg repetidamente por detalhes sobre um possível negócio de nuvem, mas ele não apresentou planos concretos.