Livro da jornalista Karla Monteiro mostra que Fidel estava disposto a mandar Che Guevara para comandar luta armada no país 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Leonel Brizola usa o rádio para articular Cadeia da Legalidade e garantir a posse de João Goulart — Foto: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa A jornalista Karla Monteiro já chamara o elevador quando Almino Affonso pediu que ela aguardasse mais um minuto. O ex-ministro do Trabalho de João Goulart, após três longas sessões de entrevistas, queria lhe dar uma dica: “Fale com o Raulito.” Ele se referia a Raúl Roa Khoury, o jovem embaixador de Cuba no Brasil em 1964, filho do então chanceler Raúl Roa García. É dele uma das principais revelações de “Brizola, volume 1: lobisomem contra o império”, o primeiro tomo de alentada biografia de um dos protagonistas da política brasileira do século XX. Raulito revelou à biógrafa que, diante do recrudescimento nos dois lados do tabuleiro político do pré-golpe, o cunhado do presidente dera um passo ousado. E o procurara para saber se, em caso de tomada de poder à força pela direita, “poderíamos contar com Havana”. O encontro se deu numa residência insuspeita perto da embaixada, com a presença de Almino. E, afirma o ex-diplomata, Brizola foi direto. “Ele pediu US$ 500 mil da época (cerca de US$ 5,3 milhões hoje, ou R$ 26,5 milhões) para o seu movimento. Solicitei imediatamente viajar a Cuba para falar pessoalmente com o primeiro-ministro.” Assim foi feito e, após a repercussão do Comício da Central do Brasil, em que Jango moveu seu governo decididamente à esquerda, Fidel avaliou que “ou bem ele tem tudo amarrado com militares, dirigentes sindicais e políticos, ou Goulart não dura mais um mês no poder”. E determinou que seu embaixador regressasse imediatamente com a resposta a Brizola. Os militares, no entanto, moveriam as peças do tabuleiro bem mais rapidamente, e em oito dias o presidente seria deposto. Leonel Brizola abraça João Goulart após a Campanha da Legalidade — Foto: Fundo Correio da Manhã/ Arquivo Nacional Não houve tempo para Brizola receber a notícia de que a ilha não só entregaria de bate-pronto metade da ajuda pedida, como incluiria a oferta pessoal de Che Guevara para comandar uma eventual resistência armada. “Como Brizola estava no Rio Grande do Sul, não pude vê-lo para entregar a mensagem de Fidel, com a ajuda prometida e a proposta de Che”, contou Raulito. 'Che poderia ter vindo' Almino confirmou a história e disse que jamais a revelara anteriormente por contingências que incluíam a própria reinvenção política de Brizola durante o exílio e inevitáveis questionamentos relacionados à soberania nacional, parte central de seu apelo. — Se Roa tivesse voltado ao Brasil a tempo, Che poderia ter vindo organizar a resistência com Brizola e morrido aqui. Ou não. De qualquer forma, teria mudado a história da América Latina — diz Karla Monteiro. O restante é História. E é ela que serve de guia para a jornalista, que destrincha a trajetória de Leonel de Moura Brizola (1922-2004), da infância pobre no interior gaúcho e sua preocupação com a educação pública até o retorno ao Brasil, em 1978, uma década e meia após o exílio forçado pelos militares. Ficarão para o segundo tomo a fundação do PDT, as duas passagens pelo governo do Rio de Janeiro, a candidatura à Presidência da República em 1989 e a ascensão à esquerda do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Antes de retornar quatro décadas, para destrinchar os primeiros passos de Brizola e as raízes do trabalhismo, o livro começa em 1962, com a encampação, pelo então governador gaúcho, da subsidiária da americana International Telephone & Telegraph (ITT), por ele incorporada à recém-criada Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações (CRT). Ato que o governo de John F. Kennedy equipararia às estatizações de empresas de seu país em Havana após a Revolução Cubana, três anos antes, no auge da Guerra Fria. O lobisomem do título do livro é referência à alcunha dada ao político por conta do programa que comandava na Rádio Farroupilha. Inicialmente com o objetivo declarado de prestar contas de seus governos na Prefeitura de Porto Alegre e no Palácio Piratini, se revelaria peça central para a Cadeia da Legalidade. A mobilização comandada por Brizola garantiu, em 1961, a posse do então vice-presidente João Goulart, irmão de sua mulher, Neusa, em missão oficial na China, quando da renúncia de Jânio Quadros. O resultado imediato seria o único e curto experimento parlamentarista da República no Brasil. Após o rompimento com o inimigo íntimo Jango, especialmente pelo presidente deposto não ter optado pela repetição de 1961 três anos depois, cioso em evitar uma guerra civil, Brizola foge para o Uruguai. Outros pontos altos do livro são a recuperação da única entrevista dada pelo político na clandestinidade antes de cruzar a fronteira, a um jovem Eduardo Galeano, mais tarde autor de "As veias abertas da América Latina", e o passo a passo das ações do ex-governador no país vizinho, incluindo as tentativas frustradas de iniciar o combate armado à ditadura no Brasil e seu envolvimento com os Tupamaros. Em Washington Também há uma análise do abrigo do governo de Jimmy Carter ao político após a expulsão de Brizola do Uruguai. Em Nova York, o brasileiro se torna símbolo da nova política de defesa dos direitos humanos de Washington, com a denúncia dos arbítrios das ditaduras do Cone Sul. O gaúcho, por sua vez, migra da pregação da revolução latino-americana para a social-democracia do outro lado do Atlântico, afinado com Mario Soares, François Mitterrand e Willy Brandt. O livro termina com uma reflexão sobre o efeito direto do processo de radicalização de Brizola a partir do suicídio de Getúlio Vargas em 1954, que pode ter retardado ou involuntariamente acelerado o golpe dez anos depois. Serviço: 'Brizola Vol. 1: Lobisomem contra o império' Autor: Karla Monteiro. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 456. Preço: R$ 99,90.
Biografia revela que Brizola procurou Cuba para tentar evitar golpe de 1964
Livro da jornalista Karla Monteiro mostra que Fidel estava disposto a mandar Che Guevara para comandar luta armada no país








