Sem a previsão do tempo exata, Defesa Civil demorou a avisar a população sobre ventania 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 RI Rio de Janeiro (RJ) 29/07/2026 Ventania provoca estragos e apagão no RJ - Árvore caída na Rua do Riachuelo - Foto Domingos Peixoto / Agência O Globo — Foto: Domingos Peixoto O vendaval que atingiu o Rio na tarde de quarta-feira pegou milhares de pessoas de surpresa e deixou um rastro de destruição. Diante da intensidade do fenômeno, uma pergunta passou a mobilizar a população: por que as autoridades não divulgaram um alerta mais contundente antes da chegada dos ventos? A dúvida ganha força porque, cerca de seis horas antes, meteorologistas independentes já acompanhavam o sistema pelo litoral de São Paulo e advertiam, em vídeos publicados nas redes sociais, que as rajadas avançariam em direção ao Estado do Rio. Na capital, celulares cadastrados receberam um alerta da Defesa Civil por SMS às 16h43, quando cadeiras e guarda-sóis já voavam nas praias da cidade. Às 14h15, o Alerta Rio, sistema meteorológico da prefeitura, publicou nas redes sociais um boletim de rotina em que informava sobre a “atuação de uma massa de ar seco” e “a umidade relativa do ar entre 21% e 30%”. Num card que acompanhava a publicação, havia a previsão de “vento moderado a forte”, com “rajadas entre 40 km/h e 75,9 km/h”. Poucos radares A falta de mais radares de monitoramento climático e as características específicas do fenômeno de quarta-feira também ajudam a explicar, segundo especialistas, por que a previsão da gravidade do evento falhou. O Rio foi atingido por uma frente de rajada, fenômeno raro e difícil de se prever com muitas horas de antecedência, mas que poderia ser detectado por sistemas de nowcasting (previsão de curto prazo). Autoridades da prefeitura e do estado afirmam que, baseadas nas previsões disponíveis, não havia indicação técnica para emitir avisos como o Cell Broadcast, em que todos os celulares na área atingida recebem uma mensagem com som. Na capital, essa transmissão ocorreu duas vezes apenas, e uma delas foi um erro. O meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explicou que o país tem 40 radares de alta precisão, sendo três no Rio, mas que seria necessário ter o dobro. Além dos equipamentos, explica, os órgãos envolvidos precisam de equipes treinadas e experientes para analisar os dados. De acordo com ele, o Cemaden é responsável pelos alertas de riscos de inundações e deslizamentos, enquanto o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) faz a previsão das condições meteorológicas. — O Brasil carece de um sistema mais complexo que identifique rajadas de vento como a de quarta-feira, que não tinha nuvem ou chuva associada. Seria necessário ter uma rede muito maior de estações medindo essas condições de forma constante — afirma. Onze estações O prefeito Eduardo Cavaliere afirmou que o Rio conta com 11 estações de monitoramento das condições meteorológicas, sendo três da própria prefeitura e as demais operadas por órgãos como o Inmet e a Aeronáutica, em razão dos aeroportos. Ele disse que o vendaval desta quarta-feira surpreendeu até os meteorologistas e que, por isso, não foi emitido um alerta mais contundente. — São órgãos diferentes, com estações diferentes, e é a partir dessas informações que tomamos as decisões. Esses órgãos emitiram um alerta para ventos moderados e fortes, com previsão de rajadas de até 70km/h. O que tivemos, no entanto, foi um verdadeiro vendaval, com ventos acima de 100km/h, que não correspondia ao que havia sido indicado pelas estações — afirmou o prefeito à TV Globo. Mesmo sem a previsão exata, a ventania “deu sinais” antes de chegar à capital. No domingo, o meteorologista e doutor em Meteorologia Giovanni Dolif, que reúne mais de 100 mil seguidores no Instagram, já havia alertado que a ocorrência de ventos fortes no Rio era uma possibilidade. Ele voltou às redes logo depois do meio-dia de quarta-feira para reforçar a previsão. — É um vento mais desafiador de prever. Os modelos costumam subestimar esse tipo de fenômeno. Se o meteorologista acompanha essa linha de cisalhamento (mudança rápida na velocidade ou na direção do vento), quando ela já estava sobre São Paulo, era possível perceber que havia potencial para um evento forte no Rio. Mesmo sem ter certeza absoluta da intensidade, talvez já fosse o caso de fazer uma comunicação de risco mais cedo, alertando a população para essa possibilidade — explicou Dolif ontem ao GLOBO. Pouco antes, às 10h, o capitão Guilherme Kodja, especialista em inteligência náutica com 35 anos de experiência no mar e mais de 70 mil seguidores nas redes sociais, também publicou um vídeo informando que os modelos meteorológicos indicavam a possibilidade de rajadas intensas no Rio. Na gravação, Kodja mostra a projeção da linha de vento avançando pelo litoral paulista e afirma que o sistema chegaria à região da Baía da Ilha Grande e de Angra dos Reis. E chegou. A Defesa Civil enviou alerta por SMS e WhatsApp para moradores da Costa Verde às 15h30, quando o vento já era muito forte na região. O aviso também foi para celulares do Sul Fluminense, da Baixada Fluminense, das Baixadas Litorâneas e do Norte Fluminense. De acordo com a Secretaria de Estado de Defesa Civil, o sistema Cell Broadcast só é acionado quando a previsão aponta para o “risco muito alto” de ventos com velocidade acima de 76km/h. Em São Paulo, o mecanismo foi adotado anteontem seis vezes: duas especificamente sobre ventos. O tenente-coronel Fábio Contreiras, porta-voz da Defesa Civil do Estado do Rio, informou que nenhuma das previsões meteorológicas analisadas pelo corpo técnico indicava um cenário de ventos com potencial para causar impactos severos: — Fomos informados sobre a aproximação de uma frente fria e, como consequência, da ocorrência de ventos. Mas não havia previsão da intensidade que vimos. A expectativa era que o sistema perdesse força ao chegar ao Rio, como costuma acontecer. Só por volta das 15h30 recebemos a informação de que as rajadas haviam atingido 60km/h, e foi isso que embasou a decisão de enviar os alertas por SMS. Depois disso, porém, o fenômeno ganhou uma proporção muito maior, algo que não estava previsto. ‘Melhor prevenir’ Ele também informou que a Prefeitura do Rio, assim como outros 44 municípios fluminenses, tem autonomia para enviar alertas à população por SMS. Por isso, o alerta das 15h30 foi apenas para as cidades ligadas à Defesa Civil estadual. Segundo Contreiras, Petrópolis, Angra dos Reis e a capital também têm autorização para acionar, de forma independente, o Cell Broadcast. A Prefeitura do Rio informou que, “a partir do momento em que foram identificadas rajadas intensas de vento, os avisos foram emitidos via SMS e WhatsApp para todos os moradores cadastrados no Sistema de Avisos”, e que o aviso via Cell Broadcast “é uma tecnologia a ser utilizada em situações de gravidade extrema”. Para o engenheiro Gerardo Portela, doutor em Gerenciamento de Riscos e Segurança pela UFRJ, o episódio evidencia a necessidade de aperfeiçoar os protocolos de emissão de alertas. — É muito melhor a gente se preparar para um evento de vendaval e ele não acontecer do que deixar de avisar e ele acontecer — afirma Portela.