No Rio, alertas só chegaram aos cidadãos quando o vento já castigava as ruas — e imperava a confusão 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Estabelecimento sem luz na Rua Mário Barreto, na Tijuca, em consequência do vendaval — Foto: Ana Branco /O Globo/30/07/2026 A julgar pela situação caótica instalada pelo vendaval de quarta-feira em municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo, as autoridades dos três níveis de governo não passaram no teste do Super El Niño. Segundo meteorologistas, as rajadas de mais de 100km/h estão relacionadas ao fenômeno climático de forte intensidade previsto para este ano. À população, foi mostra preocupante do que está por vir. Ao governo, serve de alerta. Chamam a atenção as falhas nos sistemas de informação. Em São Paulo, a Defesa Civil emitiu alertas severos a partir das 13h (para cidades do litoral) e das 13h30 (para a Região Metropolitana), cerca de meia hora antes do vendaval. No Rio, o aviso só começou a chegar às 16h41, quando os ventos já varriam o estado furiosamente. E nada de alerta severo, como aquele estridente que acordou milhões de brasileiros depois de uma invasão nos sistemas de disparo semanas atrás. O alerta de quarta-feira não dava a real dimensão do problema. Milhares de cariocas foram apanhados de surpresa nas praias. Ainda que meteorologistas digam que o fenômeno é raro no inverno e é difícil prevê-lo com antecedência, é de pouca utilidade um alerta que chega quando o cidadão já está em plena ventania. Diante do transtorno provocado pela força dos ventos — com queda de árvores, esquadrias, telhas e painéis de publicidade —, a resposta à população precisaria ter sido rápida. Na Região Metropolitana do Rio, imperou a confusão. Inúmeros bairros ficaram sem luz, serviços de trem e metrô foram interrompidos, sinais de trânsito pararam de funcionar, a circulação de veículos tornou-se caótica, sem agentes para desbloquear cruzamentos. Moradores ficaram presos em elevadores. Em áreas da Zona Sul, a luz voltou rapidamente, mostrando ser possível agir com celeridade. Mas outras regiões enfrentaram um longo apagão. Na manhã seguinte, ainda havia 500 mil sem luz no estado, contingente equivalente à população de Niterói (RJ). Claro que ventos repentinos excepcionais representam um desafio, e é razoável supor que qualquer metrópole do mundo enfrentaria problemas. Tampouco se pode afirmar que as cinco mortes provocadas pela ventania (duas no Rio e três em São Paulo) poderiam ter sido evitadas. Mas é tarefa do governo estabelecer procedimentos para minimizar efeitos danosos de vendavais e tempestades, além de oferecer respostas eficazes para contorná-los. Alegar severidade dos fenômenos climáticos é justo. Mas esse virou um álibi para justificar a deficiência das políticas públicas. É verdade que, por vezes, chove num único dia a média prevista para o mês. Diante de situações assim, danos são previsíveis. Mas conformar-se não é uma resposta razoável. A frequência de desastres em determinadas áreas deveria nortear ações de prevenção. Não há como evitar as rajadas, mas é possível acionar protocolos para remover árvores caídas, gerir o trânsito para facilitar o deslocamento e restabelecer rapidamente a energia. Meteorologistas estimam em mais de 80% a probabilidade de El Niño “muito forte”, especialmente entre outubro e dezembro. Tempestades arrasadoras são um dos efeitos esperados. Não é improvável haver novas surpresas climáticas nos próximos meses. Isso demanda das autoridades mais eficiência para deflagrar planos de contingência. Quanto mais bem preparadas estiverem, melhores respostas oferecerão aos cidadãos.