Diretora acompanha meninas do interior do Piauí que recriam histórias de suas mães em encenações que misturam realidade, imaginação e sonhos sobre o futuro, em um 'cinema imaginário'; Bonequinho aplaude 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 'A fabulosa máquina do tempo', de Eliza Capai — Foto: Divulgação Meninas moradoras de Guaribas, no interior do Piauí, conversam com as mães sobre fatos do passado e do presente: a escassez de recursos, o alcoolismo dos homens, a difícil situação das mulheres que interromperam os estudos por causa da vida ao lado dos maridos. Mais conscientes em relação à posição desfavorável destinada às mulheres, as meninas criam cenas a partir de circunstâncias como essas e representam numa espécie de cinema imaginário. Nem tudo, porém, é dura realidade. Há espaço para o sonho nas projeções sobre o futuro, repleto de anseios profissionais, desejos muito diferentes do cotidiano doméstico. Como se pode perceber, as crianças mesclam distintas camadas de tempo nesse singelo e cativante documentário de Eliza Capai. O cinema de brincadeira das meninas, mas levado a sério por todas, é bastante próximo do teatro, devido à sua natureza artesanal. As garotas ressignificam objetos do dia a dia (vassoura, espelho, controle remoto) e se cobrem com panos —elementos suficientes para viabilizar a experiência artística. Além das encenações, são estimuladas a falar sobre histórias de família e o que esperam da transição da infância para a adolescência. Demonstram surpreendente naturalidade. Com apreciável noção de síntese, a cineasta aborda diversas questões importantes e contrastes eventuais, como a discrepância entre os momentos ligados à educação religiosa e a letra maliciosa do funk que as meninas dançam, ainda que não entendam o duplo sentido envolvido. Cotação: Bonequinho aplaude.