"Por que será que Deus fez a mulher assim? Será que a mulher seria diferente se fosse feita direto do barro?", questiona uma garotinha logo no começo do documentário "A Fabulosa Máquina do Tempo". Vestindo uma túnica, como se fosse Jesus, ela estranha a passagem da Bíblia sobre como Eva foi criada a partir da costela de Adão. É um faz-de-conta, mas sua pergunta é genuína.

Foi por meio de brincadeiras que a diretora Eliza Capai conseguiu contar as histórias reais das meninas de Guaribas, cidade no interior do Piauí, e das mulheres de suas famílias, marcadas pela miséria há gerações. Agora, o filme está nos cinemas do país após ter passado pelo Festival de Berlim, em fevereiro, e pelo É Tudo Verdade, em abril.

"A Fabulosa Máquina do Tempo" é um documentário híbrido, ou uma docuficção, unindo trechos roteirizados às entrevistas, pesquisas e registros do ambiente. É um gênero que remete ainda às origens do cinema —caso dos trabalhos de Robert Flaherty—e que segue se desdobrando até hoje, com títulos mais recentes como "Juízo", de Maria Augusta Ramos, e "Quatro Filhas de Olfa", indicado ao Oscar em 2023.

No caso de Capai, a narrativa tem camadas. Ora, as meninas são gravadas brincando de casinha, com latas de alumínio, embalagens vazias de shampoo e um pedaço de papelão —e, sem perceber, dão pistas de sua realidade com algum movimento ou diálogo.