Quem escreveu sobre computadores nos tempos de ouro conhece o real legado de Dvorak, que deixa o gosto pela provocação e a coragem de assinar o que pensava 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Coleção de computadores da marca americana Apple — Foto: Frederic J. Brown/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O jornalista John C. Dvorak, pioneiro do colunismo de tecnologia, faleceu aos 80 anos. Ele revolucionou o setor ao misturar humor, polêmica e opinião pessoal em seus textos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando os primeiros computadores pessoais apareceram, no início dos anos 1980, o mundo não estava preparado para recebê-los. Ninguém fez fila diante das lojas à meia-noite, ninguém correu para contar a novidade aos vizinhos. Na verdade, ninguém sabia sequer como falar daquilo. Até então, o mundo só conhecia computadores de grande e médio porte, e o noticiário a seu respeito, fora de revistas impenetráveis para a vasta maioria da Humanidade, restringia-se às páginas de economia. Era preciso inventar um jeito de descrever aquelas máquinas novas e encontrar um tom que fizesse sentido para a tribo que crescia à sua volta. As revistas superespecializadas não davam conta da extensão do fenômeno; o jornalismo econômico carecia de emoção e não conseguia transmitir o estado de empolgação permanente que tomava conta dos primeiros micreiros. Sim, era assim que éramos chamados naqueles tempos — uma palavra que mais parecia descrever uma aflição dermatológica do que um grupo de pessoas fascinadas por uma tela verde e um teclado. Foi então que um camarada chamado John C. Dvorak, antigo colunista de vinhos, entrou em cena. Não era engenheiro nem profeta; em matéria de previsões, aliás, pouca gente errou tanto e tão publicamente. Mas foi um dos primeiros a entender que havia ali um assunto que não cabia nem nos artigos acadêmicos nem nos balanços e notas sobre trocas de acionistas majoritários. Escreveu na InfoWorld e na PC Week. Quando chegou à PC Magazine, consolidou um mix de hardware e software, de máquinas e de gente que, em breve, estaria por toda parte — e não só nas colunas que ele próprio assinava aos montes. Houve uma época em que era impossível abrir uma revista — qualquer revista, inclusive nos aviões das mais variadas companhias aéreas — e não encontrar coisa sua. Escrevia com humor e arrogância, com implicância e brilho. Não tinha medo de dar opinião; ao contrário, usava a sua, sempre polêmica, para provocar e para gerar engajamento, numa época em que ninguém sonhava em gerar engajamento: a expressão nem existia. Dvorak encontrou o tom certo para o que viria a ser o jornalismo de tecnologia ao se incluir nos textos, quando a maioria das matérias não era sequer assinada. Com isso, conseguia transmitir a sensação de que participávamos de algo inédito. Ele escrevia como se o leitor já pertencesse ao clube — ou precisasse entrar depressa. Em vez de explicar o computador como um eletrodoméstico caro, tratava-o como parte de uma disputa cheia de vaidades, apostas, falhas ridículas e promessas grandiosas. Ele foi inacreditavelmente popular, influenciou colegas, leitores e a própria indústria. Fez programas de rádio e de televisão e foi presença importante nos primeiros podcasts de tecnologia. John C. Dvorak morreu na semana passada, aos 80 anos. De uns dez anos para cá, foi abduzido por um ecossistema político conspiratório e malsão, e não faltou quem preferisse ficar só com isso. É tentador reduzir um personagem tão complexo a essa última fase; mas quem escreveu sobre computadores nos tempos de ouro conhece o seu real legado. Ele foi um dos primeiros a dar voz a um assunto que ainda nem tinha nome direito. Dvorak nos deixa o gosto pela provocação, a coragem de assinar o que pensava, e a certeza, hoje meio esquecida, de que escrever sobre tecnologia era uma grande aventura.
O primeiro influenciador
Quem escreveu sobre computadores nos tempos de ouro conhece o real legado de Dvorak, que deixa o gosto pela provocação e a coragem de assinar o que pensava







