Dólar se impõe como principal risco no 2º semestre, diz economista-chefe da ÁgoraCâmbio tende a se sobrepor a fiscal e eleições, em meio a juros elevados no Brasil e incertezas nos EUA, observa Dalton Gardimam. Crédito: Marilia AlmeidaGerando resumoFoto: Reprodução Via Youtube/Reprodução via youtube/@BrettonWoodsCommitteeWilliam DudleyEx-presidente do Federal Reserve (Fed) de NYO ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de Nova York William Dudley afirmou que elevaria os juros dos Estados Unidos já na reunião desta quarta-feira, 29, por considerar que a política monetária ainda não dá sinais suficientes de restrição e que o banco central americano está falhando mais em seu mandato de inflação do que no de emprego. Para ele, o maior risco hoje é não agir e comprometer a credibilidade da autoridade monetária.Dudley também fez ressalvas, em entrevista ao Estadão/Broadcast, à estratégia de comunicação adotada pelo atual presidente do Fed, Kevin Warsh, indicado por Donald Trump. Embora apoie o abandono do forward guidance (orientação sobre os próximos passos da política monetária), afirmou que a entidade continua precisando explicar sua função de reação aos mercados. O ex-dirigente também comentou os impactos da guerra no Oriente Médio, da deterioração fiscal dos EUA, das tarifas de Donald Trump e dos investimentos em inteligência artificial (IA) sobre a economia americana. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:PublicidadeQuando Kevin Warsh assumiu o Fed, prometeu reduzir o forward guidance e criticou o que chamou de “sabedoria convencional” por trás dos dados oficiais. Isso é um avanço ou um risco para a previsibilidade da política monetária?Acho que é um passo em direção a menos transparência. Concordo com a ideia de abandonar o forward guidance, ou seja, deixar de assumir um compromisso de fazer algo no futuro. Mas discordo de Warsh quando ele amplia essa ideia para também deixar de explicar qual é a função de reação da política monetária do Fed, ou seja, como pretende agir à medida que as condições econômicas mudarem. Acho que, especialmente nos EUA, é importante que os participantes do mercado consigam antecipar como o Fed vai reagir às mudanças na economia. Isso faz com que os mercados sejam mais precisos ao prever o que o Fed fará e também torna a política monetária mais eficiente e mais rápida, porque as condições financeiras se ajustam antes mesmo de o Fed agir.Warsh descreveu as divergências dentro do Comitê como uma “briga de família”. Isso é saudável para o processo decisório?Acho que o que ele quer dizer é que deseja que as pessoas defendam seus pontos de vista e que o melhor argumento prevaleça. Acho que ele não quer pensamento de grupo. Não quer que todos simplesmente reforcem o que os outros disseram, porque isso pode levar o Comitê a ficar preso a uma política que depois se mostre inadequada diante do desempenho da economia. Não tenho nenhum problema com isso.Leia tambémFed deve manter juros em reunião com pelo menos dois dissidentes, preveem analistasFed: Warsh reitera em 1ª audiência no Congresso promessa de reduzir inflação, mas sem indicar comoAlgumas pessoas alertaram para riscos à independência do Fed sob pressão política. Qual sua avaliação dos primeiros meses de Warsh?Acho que ele tem comunicado bem que pretende preservar a independência do Fed, que não vai necessariamente seguir os desejos do presidente e que está comprometido com a estabilidade de preços e em trazer a inflação de volta à meta de 2%. Toda essa comunicação está correta. Mas isso precisa se traduzir em ações. A inflação está acima da meta do Fed há mais de cinco anos. A economia cresce em ritmo razoável. Estamos em pleno emprego, ou muito perto disso. Há um argumento muito consistente de que a política monetária hoje não é restritiva e precisa se tornar restritiva.PublicidadeComo o sr. agiria nesta reunião?Eu provavelmente elevaria os juros. Primeiro, porque não acho que a política monetária esteja mostrando muitos sinais de ser restritiva. Segundo, porque o Fed está descumprindo muito mais o mandato de inflação do que o de emprego. E, terceiro, porque os riscos de um erro me parecem assimétricos. Se você elevar os juros e depois concluir que não era necessário, pode reverter essa decisão com relativa facilidade. Mas, se não elevar e depois descobrir que deveria ter feito isso, poderá perder muita credibilidade e as expectativas de inflação poderão deixar de ficar bem ancoradas. Minha expectativa é que o Fed não eleve os juros nesta reunião, porque os dados recentes de inflação vieram um pouco melhores e o mercado de trabalho ficou um pouco mais fraco. Mas eu não ficaria surpreso se uma alta ocorresse, porque o argumento para apertar a política monetária me parece bastante convincente.Essa perda de credibilidade já começou a aparecer nas expectativas de inflação?As expectativas de inflação de curto prazo estão um pouco mais elevadas, principalmente por causa da guerra contra o Irã e do impacto sobre os preços da energia. As expectativas de longo prazo continuam relativamente bem ancoradas. Mas isso não me traz muito conforto, pois elas estão ancoradas justamente porque as pessoas acreditam que o Fed fará a coisa certa. Para continuarem ancoradas, o Fed precisa fazer a coisa certa. Se elas se desancorarem, ficará muito mais difícil trazer a inflação de volta para a meta.Muitos analistas dizem que setembro será o verdadeiro teste para saber se a inflação está melhorando de forma duradoura. O sr. concorda?Quando chegarmos a setembro, teremos mais informações para avaliar se os dados benignos de inflação de junho foram uma exceção ou o início de uma tendência mais favorável. Mas não acho que as evidências para apertar a política monetária em setembro serão muito mais convincentes do que já são agora. Uma coisa em que discordo de Warsh é a ideia de deixar que o mercado determine a política monetária. Isso não é um modelo viável. O mercado não está prevendo o que o Fed deveria fazer, está prevendo o que acha que o Fed vai fazer. Não dá para os mercados olharem para o Fed e o Fed olhar para os mercados para decidir a política monetária. No fim das contas, quem precisa determinar a política monetária é o Comitê.PublicidadeComo o conflito entre Irã e EUA e a alta do petróleo influenciam essa avaliação?Hoje o Fed está descumprindo o lado da inflação do seu mandato, e não o lado do emprego. A guerra no Oriente Médio aumenta justamente os riscos do lado da inflação. Se os preços do petróleo continuarem subindo, a preocupação deixa de ser apenas a energia e passa também para alimentos e outros preços. Há três razões para isso. Primeiro, não há muita evidência de que a política monetária seja restritiva. Segundo, o Fed está errando no lado da inflação, não no do emprego. E, terceiro, os riscos de não apertar a política monetária quando deveria são muito mais relevantes.Como o Fed deve conduzir a política monetária diante da deterioração fiscal dos EUA?O Fed precisa lidar com o mundo como ele é, não como gostaria que fosse. Se a política fiscal segue um caminho insustentável, isso torna o trabalho do Fed mais difícil. Mas, no fim das contas, o banco central precisa definir sua política monetária de forma consistente com seu mandato duplo. O pior cenário seria subordinar a política monetária ao financiamento do déficit. Isso é dominância fiscal. Se isso acontecer, as expectativas de inflação se desancoram e os rendimentos dos títulos públicos sobem significativamente. É muito importante que o Fed deixe claro que considera a trajetória fiscal um dado da realidade, mas não vai definir os juros para facilitar o financiamento de grandes déficits.Kevin Warsh abandonou o forward guidance, ou seja, a orientação sobre os próximos passos da política monetária do Fed Foto: Jose Luis Magana/AP Photo/Jose Luis MaganaAs tarifas de Donald Trump dificultam o trabalho do Fed?As tarifas foram mal concebidas. Não terão sucesso em reconstruir a indústria americana nem em reduzir o déficit comercial dos Estados Unidos. E elevaram a inflação. A boa notícia é que a carga tarifária parece não estar aumentando mais. Provavelmente, a maior parte do repasse das tarifas para os preços já aconteceu.PublicidadeSe tivesse de escolher apenas um tema para acompanhar nos próximos meses, qual seria?CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEEu juntaria duas coisas. A credibilidade do Fed no combate à inflação é fundamental para sua credibilidade como instituição independente. Diante dos apelos de Trump por cortes de juros e dos ataques ao ex-presidente do Fed Jerome Powell, é muito importante que o Fed faça a coisa certa e demonstre sua independência.Há algo que o mercado está subestimando hoje?Acho que o mercado de ações americano não está precificando totalmente os efeitos das medidas de Trump sobre o desempenho de longo prazo da economia dos EUA. Estamos reduzindo a capacidade do país de atrair imigrantes qualificados, prejudicando a pesquisa nas universidades e deteriorando relações com antigos aliados. No curto prazo, parecem mudanças pequenas, mas seus efeitos tendem a crescer ao longo do tempo. Também existe o risco de que a IA gere ganhos de produtividade, mas que o boom de investimentos acabe se transformando em um colapso. A questão não é se a IA será importante para elevar a produtividade, mas se as empresas conseguirão monetizar seus investimentos e obter um retorno adequado sobre o capital.
Entrevista | Fed está descumprindo mandato de inflação e deveria elevar os juros, diz ex-presidente do Fed de NY
Segundo William Dudley, mercado de ações americano não está precificando totalmente os efeitos das medidas de Trump sobre o desempenho de longo prazo da economia americana










