Usuários das redes vêm gravando vídeos em que imaginam estar prestes a participar de uma produção do streaming sobre suas próprias vidas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sophia Barchenkova na trend de gravar o próprio documentário — Foto: Reprodução TikTok Uma música orquestral dramática começa a tocar enquanto uma mulher entra em cena e se senta numa poltrona confortável, numa sala de estar bem iluminada, elegante, mas sem características marcantes. Ela ajeita alguns fios de cabelo atrás das orelhas, ajusta o microfone preso à lapela e se acomoda na cadeira. “Você está pronta?”, pergunta uma voz fora de cena. É uma sequência familiar para os fãs de documentários contemporâneos — uma introdução que sugere que o entrevistado está prestes a abrir o coração e compartilhar suas lembranças mais profundas e dolorosas. Também é a base de uma nova tendência nas redes sociais. Desde o fim de junho, usuários de plataformas como TikTok e Instagram Reels vêm gravando vídeos em que imaginam estar prestes a participar de um documentário da Netflix sobre suas próprias vidas: microdramas no ambiente de trabalho, conversas de grupo vazadas, ou o desafio de sobreviver à era do Four Loko. Os vídeos usam uma música que fez parte do trailer de um documentário real da Netflix sobre Aaron Hernandez, ex-jogador de futebol americano profissional e assassino condenado. Sophia Barchenkova, de 30 anos, que recentemente deixou um emprego no mercado de banco de investimentos, gravou sua versão imaginando o momento em que a Netflix finalmente produzirá uma série documental “sobre aquele lugar onde eu trabalhava”. O vídeo já foi visto 13 milhões de vezes. Ela acredita que justamente esses clichês tão conhecidos tornam o meme engraçado. “Adoro assistir aos documentários da Netflix. Sou completamente viciada em histórias de crimes reais”, disse Barchenkova, que mora em Londres. “O formato de muitos desses documentários é bastante reconhecível. A pessoa sentando para a entrevista, os violinos... É algo que todos nós já vimos mil vezes.” Esse elemento imediatamente familiar pode ser muito poderoso. “O público realmente se sente atraído por esse momento, usado em muitos documentários, em que o personagem se prepara para o início da entrevista”, afirmou Adam Del Deo, vice-presidente de documentários da Netflix. “Acho que isso dá ao público uma noção da relação entre o entrevistado e o diretor, além da equipe de filmagem ao redor.” Em seu perfil oficial no Instagram, a Netflix entrou na brincadeira ao publicar a foto de uma cadeira vazia com a legenda: “prestes a sentar e assistir a todos esses documentários”. Del Deo citou o documentarista Errol Morris, que utilizou uma técnica semelhante em seu aclamado filme "Sob a Névoa da Guerra" (2003), como um dos precursores do estilo de filmagem que inspirou a tendência nas redes sociais. Jenna Bush Hager, apresentadora do programa "Today" e filha do ex-presidente americano George W. Bush, publicou um vídeo simulando um documentário sobre a ocasião em que foi flagrada bebendo antes da idade legal. O ator Morris Chestnut fez o mesmo sobre a morte trágica de seu personagem em "Os Donos da Rua" (1991), aparentemente unindo duas tendências relacionadas ao filme. Rufus Wainwright apareceu pensativo ao se sentar para falar sobre como “moldou discretamente o desenvolvimento emocional de toda uma geração por meio de "Shrek" (2001) e "A Família do Futuro" (2007)”, cujas trilhas sonoras contam com músicas suas. Já Vanessa Hudgens disse que estava pronta para revelar tudo sobre seu período na East High, a escola fictícia de "High School Musical" (2006). Stephon Crawford, de 27 anos, gravou sua versão fingindo participar de um documentário sobre cigarros eletrônicos. “Eu quando a Netflix estiver entrevistando as poucas pessoas que nunca encostaram em um vape e sobreviveram até 2045”, escreveu na legenda. Segundo Crawford, os documentários da era do streaming deixaram de seguir um modelo puramente educativo e passaram a se aproximar do chamado infotainment, que mistura informação e entretenimento. “Quem é que não gosta de uma fofoca ou de uma confusão de vez em quando?”, brincou, rindo. Mas talvez haja algo mais por trás desses vídeos virais. Embora muitos sejam apresentados como piadas, seus protagonistas parecem estar mais do que dispostos a participar de documentários reais sobre suas vidas e aceitar a fama, ou a notoriedade, que isso poderia trazer. Crawford, que sonha em ser criador de conteúdo, trabalha com atendimento ao cliente e mora em Atlanta, disse que está constantemente pensando em como sua vida poderia ser transformada em conteúdo para uma audiência. “Eu vivo como se qualquer momento pudesse virar conteúdo”, afirmou. “Tento gravar tudo.” Barchenkova, a ex-banqueira de investimentos, teve a mesma percepção ao assistir recentemente ao documentário da Netflix "Casar com um assassino?", que utiliza conteúdos do Snapchat como recurso narrativo. “As pessoas querem ser famosas”, disse. “As pessoas querem falar. Elas adoram falar sobre si mesmas e sobre suas experiências.” Brooke Erin Duffy, professora de Comunicação da Universidade Cornell e pesquisadora de redes sociais e cultura digital, afirma que essa tendência é resultado de anos de condicionamento promovido pelas próprias plataformas. “A ascensão da cultura dos influenciadores foi impulsionada de baixo para cima, por pessoas que queriam viver da criação de conteúdo e compartilhar suas vidas”, disse Duffy. “Mas as empresas das plataformas também vêm nos incentivando, de cima para baixo, a nos expor cada vez mais.” Ela acrescentou que a tendência representa uma “reflexão metalinguística transformada em meme” sobre a mídia e a cultura contemporâneas. “Estamos fingindo que nossas vidas são um documentário”, concluiu, “porque as plataformas vêm nos dizendo há anos que elas são.”