A cobertura da mídia sobre a eficácia do uso comunitário de máscaras na pandemia de Covid-19 frequentemente transmitiu a impressão de que a questão científica estaria encerrada e que os poucos discordantes seriam "negacionistas".
No entanto, muita gente ficaria surpresa ao descobrir que a melhor evidência disponível, sintetizada na prestigiada metanálise da Cochrane Library de estudos randomizados, encontra uma estimativa próxima de zero para o efeito de máscaras cirúrgicas, com margem de erro compatível, no máximo, com um benefício modesto.Eu, juntamente com meu colega Beny Spira (Instituto de Ciências Biomédicas da USP), sou autor de um estudo publicado em 2025 na BMC Public Health que encontrou uma associação entre maior uso de máscaras e maior mortalidade em excesso em países europeus. Essa associação permanece mesmo após o ajuste para diversos outros fatores que influenciam a mortalidade.
Por ser observacional e usar dados agregados de países, a análise passa longe de estabelecer uma relação causal. Essas limitações são conhecidas em estudos desse tipo. O problema é que, no debate público, elas acabaram sendo tratadas como suficientes para descartar um resultado no mínimo intrigante, ignorando também o contexto fornecido pelas melhores evidências disponíveis.






