Ninguém sabe ao certo aonde a IA levará a humanidade, mas essa dificuldade não deve impedir os países de tentar mitigar possíveis riscos e, ao mesmo tempo, favorecer o avanço das aplicações benéficas A inteligência artificial (IA) transformará o mundo. Todos nós, indivíduos, empresas e governos, seremos afetados. Esse processo está apenas começando. Ninguém sabe ao certo aonde ele levará a humanidade. Há visões otimistas, de que as máquinas nos libertarão das atividades mais duras e arriscadas. Mas há também visões distópicas, de que a nova tecnologia poderá até extinguir o ser humano. É muito difícil se preparar para esse choque em meio a tantas incertezas. Mas essa dificuldade não deve impedir os países de tentar mitigar possíveis riscos, ao mesmo tempo em que favorecem o avanço das aplicações benéficas. Um dos primeiros impactos da IA tende a ser no trabalho. Os EUA vivem uma onda de anúncios de demissões relacionadas à introdução da IA. O objetivo das empresas é tanto desligar mão de obra que se tornou desnecessária como abrir espaço financeiro para os investimentos na nova tecnologia. Segundo a plataforma de empregos TrueUp, mais de 170 mil pessoas já foram dispensadas por empresas de tecnologia nos EUA desde o início do ano. A estimativa é que chegue a 370 mil até o fim do ano. Há ainda o risco de achatamento salarial, caso o desemprego aumente e o poder de barganha dos trabalhadores caia. Isso poderia causar uma concentração de riqueza numa elite ligada à IA e um forte aumento da desigualdade social. Ao longo da história, várias novas tecnologias foram tradicionalmente vistas com desconfiança pelos trabalhadores. No começo do século XIX, o movimento ludista, formado principalmente por pequenos artesãos, destruiu teares mecânicos na Inglaterra, pelo temor de que causariam perda generalizada de trabalho. A experiência sugere, porém, que a introdução de novas tecnologias eleva a produtividade e gera riqueza, o que, por sua vez, aumenta a demanda por bens e serviços e resulta na criação de novos empregos. Muitos, no entanto, temem que desta vez será diferente, pois as mudanças trazidas pela IA no mundo do trabalho parecem ser mais amplas e mais rápidas do que foram as disrupções geradas por ciclos de inovação anteriores. Ou seja, não se sabe ainda qual será o balanço dessa nova tecnologia sobre o nível de emprego. Em maio, o CEO do Standard Chartered, Bill Winters, divulgou que o banco britânico cortará 8 mil postos de trabalho nos próximos quatro anos. E cometeu um sincericídio. Afirmou que esse processo não visa apenas a reduzir custos, mas também, “em alguns casos, substituir capital humano de baixo valor”. A frase é infeliz e insensível. Winters foi muito criticado e recebeu pedidos de esclarecimento de autoridades de Hong Kong e Singapura (importantes centros bancários). Mas é realidade que em muitos casos, a IA não só nos ajudará a fazer melhor o nosso trabalho, como vai nos substituir. Pela primeira vez na história, uma tecnologia substituirá também o cognitivo. Isso é transformador. O risco é que um apocalipse no emprego chegue antes de que os benefícios econômicos do uso da IA se disseminem. Isso pode ter impactos importantes na sociedade e, consequentemente, na política. Os indicadores de emprego, no entanto, ainda não refletem esse temor de demissões em massa. Nos EUA, onde o uso de IA no ambiente de trabalho está avançando com rapidez, o desemprego continua no nível historicamente baixo, de 4,2% em junho. Mas vem em constante aumento desde os 3,4% de abril de 2023, o ponto mais baixo do ciclo atual. Na Índia, país considerado o paciente zero para perda de empregos pela IA, devido à relevância do setor de software na sua economia, o desemprego vem aumentando há sete meses, dos 4,7% de novembro para os 5,5% em junho, mas esses patamares também são baixos. Caso realmente comece a se configurar uma perda maciça de empregos causada pela IA, isso pode criar “desafios civis”, nas palavras do CEO da Cisco, Chuck Robbins. E essa demanda por respostas para a ansiedade causada pela IA já começou. Em maio, por exemplo, uma corte chinesa decidiu que uma empresa de tecnologia não podia demitir um funcionário alegando que a sua função havia sido automatizada por uma ferramenta de IA. Há um intenso debate mundo afora sobre como reagir à ameaça de desemprego em massa causado pela IA. As propostas vão desde os tradicionais programas de educação e requalificação profissional a regulações mais severas para limitar a possibilidade de as empresas de demitirem (como fez a corte chinesa) e programas de integração e/ou distribuição de renda. Até o papa Leão XIV entrou nesse debate, com sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, em maio. A utilização da IA tem o potencial de melhorar dramaticamente a vida das pessoas. Por isso, é importante que qualquer regulação ou taxação com objetivo de favorecer o emprego não desencoraje essas aplicações desejáveis. Esse é um equilíbrio fino, difícil de se obter. Para atingi-lo, é importante que as empresas estejam sensíveis ao problema do desemprego e que ajudem as autoridades a navegar na gestação desse mundo novo. Se as melhores soluções tardarem, uma sociedade acuada e amedrontada poderá apoiar propostas populistas mais imediatas, porém menos adequadas.