Terra, da LJ Tech, em frente a robô pulverizador que trabalha em pomares e cafezais — Foto: Divulgação Do tamanho de um carro SUV, o robô borrifa calda em pomares e cafezais. O percurso pré-gravado tem precisão de 2,5 centímetros. A integração de dados enviados em tempo real por GPS, sensor LIDAR, radar de ondas milimétricas e câmera acoplados ao equipamento permite decisões autônomas, como desviar de um obstáculo. O sistema vem junto do equipamento da chinesa Jiangsu Lanjiang Intelligent Technology Co., mais conhecida como LJ Tech, fornecedora de soluções agrorrobóticas verticalizada que chegou ao país há três anos e tem 15 máquinas rodando no Brasil, com custo em torno de R$ 400 mil para o modelo de 500 litros. “Já há protótipo com braço robótico para colheita e capacidade de acoplar outros implementos para assumir papel similar a trator autônomo”, diz o engenheiro agrônomo Filipe Terra, gerente de vendas da empresa no Brasil. O exemplo ilustra tendências em torno da expansão das máquinas e equipamentos agrícolas chineses no país. As marcas se multiplicam com a atuação de empresas de médio porte, que acompanham a presença de gigantes do mercado e ganham espaço entre as líderes de mercado tradicionais, com tecnologia e planos de produção local. No ano passado, a China assumiu o segundo lugar no ranking de importação de máquinas e implementos agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). “A participação no mercado brasileiro ainda é pequena, 1,5% do faturamento total, mas o crescimento é rápido e não vai parar”, diz Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da entidade. — Foto: Arte/Valor Entre 2020 e 2025, o salto foi de 400%, de US$ 41 milhões para US$ 212,9 milhões, com US$ 75 milhões entre janeiro e abril deste ano. De janeiro a maio, a expansão foi de 17% sobre o mesmo período do ano anterior. Para Bastos, o movimento ainda enfrenta fragilidades em áreas como pós-venda e disponibilidade de peças de reposição, mas teve como porta de entrada as compras públicas com apoio da nova Lei de Licitações (Lei nº 13.133/21), que flexibilizou a participação de empresas e produtos importados com propostas mais vantajosas. Por outro lado, a dificuldade em absorver fatias de mercado apoiadas por financiamentos públicos, como o Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota), operado no Plano Safra, e Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), está estimulando planos de estabelecimento mais estruturado no país, inclusive com fabricação local, dada a exigência de pelo menos 50% de conteúdo local. O movimento amplia a concorrência em momento desfavorável para o setor como um todo. Em 2025, as vendas de 49,8 mil máquinas agrícolas representaram queda, pelo quarto ano consecutivo, de 3,6%, devido ao impacto dos juros elevados, conforme dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O tombo deve ser ainda maior neste ano, com recuo de 6,2%. Mas as importações atingiram patamar recorde, com 11 mil unidades, 17% mais que em 2024. Conforme a entidade, estudo em parceria com o Boston Consulting Group (BGC) indica que produtos chineses e indianos apresentam vantagens em relação aos nacionais em escala, preço do aço e mão de obra, reduzindo o custo de produção em até 27%. Para Claudia Trevisan, diretora-executiva do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), a chegada das chinesas é estimulada não só por preços, mas por tecnologia de ponta, como eletrificação e plataformas digitais, e domínio do segmento de agricultura familiar. “O tamanho das propriedades na China em geral é pequeno”, diz. No ano passado, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) firmou Memorando de Entendimento (MOU) com a China com foco em agricultura familiar e mecanização agrícola. Em nota, o MDA aponta que várias empresas chinesas têm demonstrado interesse em ampliar presença no Brasil, entre elas YTO, Lovol e World Group. Trevisan, do CEBD: chegada dos chineses é estimulada por preços, tecnologia de ponta e domínio do segmento de agricultura familiar — Foto: Divulgação A YTO, subsidiária da Sinomach, atua por aqui por meio da BDG Máquinas, distribuidora master com mais de 30 parceiros e três centros de distribuição de peças e montagem de tratores em Ribeirão Preto (SP), Uberlândia (MG) e Linhares (ES). A operação teve início em 2024 com importação de 350 unidades, saltou para 600 no ano passado e já superou mil no primeiro semestre deste ano. O portfólio inclui tratores de 24 a 240 cavalos (cv). “Em média, custam 30% menos que os fabricados no Brasil”, diz Ubiratan Sousa, diretor de operações e importação da empresa. A marca é uma das bem posicionadas em licitações públicas — só para o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) são 540 tratores de 105 cv, dos quais 85 já entregues. A Lovol é uma das 11 empresas do grupo Shandong Heavy Industry Group (SDHI Group) — outra é a Weichai, que já fabrica motores no Brasil em parceria com a Stemac, em Goiás. Possui tratores de 25 a 340 cv, tem a produção verticalizada a gosto da indústria chinesa e preço baseado em escala — são mais de 200 mil tratores fabricados ao ano. Chegou ao Brasil em 2024 para participar de licitações públicas por meio de importadores independentes e se estabeleceu por conta própria no ano passado, montando rede de distribuição, hoje com 19 credenciados. A marca já tem mais de dois mil equipamentos rodando no país, com adaptações como preparação para biodiesel. “Estamos trabalhando para definir a localização da empresa e acessar linhas de financiamento públicas com montagem local”, explica André Rorato, diretor de operações, sem divulgar detalhes. Já a Zoomlion, que também fornece equipamentos para construção, começou a estruturar uma rede de distribuição para o agro em 2024 e já tem grupos como Mantomac e Alfa atendendo as principais regiões do país. “Depois de estabelecer a rede, o próximo passo é uma fábrica no país”, diz Marco Melo, gestor nacional de operação para o agro. A marca já vendeu mais de 300 equipamentos por aqui, oferece tratores de 75 a 700 cv e traz inovações como motorização híbrida (combustão e elétrica) em modelos acima de 220 cv. Nos próximos dois anos deve trazer colheitadeiras de grãos de duplo rotor e está tropicalizando colhedora de cana eletrificada, com meta de alcançar 10% de participação de mercado até 2029. O Pronaf também estimula planos de produção ou montagem local. A Sinomach, por meio de subsidiárias como Sinomach Digital e China Automobile, firmou parceria com a Prefeitura de Maricá, a brasileira OZ Earth e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) para instalação de fábrica com previsão de investimento de R$ 200 milhões para produzir cinco mil tratores ao ano, de 25 e 50 cv, com processo gradual de nacionalização, que pode chegar a 65% de componentes produzidos no Brasil em até três anos. Já a brasileira LiveFARM formalizou joint venture com a Hans Machineries para adaptar equipamentos como plantadeira adubadora de aço inox ao mercado brasileiro. “Estamos estruturando uma planta na Bahia e negociando financiamento com o BNDES e bancos parceiros”, diz o CEO da LiveFARM, Joélcio Carvalho. As grandes não são as únicas. João Luiz Ricardo de Souza Filho, associado da consultoria Iest, especializada em apoiar empresas estrangeiras, destaca movimento em motores (com Weichai), peças (como Hamli) e robotização, a exemplo da LJ Tech e XAG, de drones autônomos. Outra representante do middle market, a FM World está implantando showroom em Sinop (MT) para oferecer tratores, colhedeiras e implementos, além de secadores de grãos. A marca tem 15 tratores em operação no Brasil, além de duas colhedoras de algodão de grande porte — que também enfardam o produto — e está lançando colhedora de arroz, detalha Gustavo Kiguti, gerente-geral da empresa no país.