Masferrer, da Allianz: o seguro precisa ser incorporado à estratégia financeira das propriedades rurais — Foto: Divulgação O Brasil se consolidou nas últimas décadas como uma das maiores potências agrícolas do planeta, mas, quando o assunto é proteção financeira contra perdas, o país continua distante dos principais concorrentes globais. As alternativas para aumentar a cobertura do seguro rural incluem o uso da tecnologia para mensurar riscos, uma reformulação da política agrícola que integre o seguro ao crédito e dê maior previsibilidade ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), além da criação de mecanismos de proteção contra perdas climáticas catastróficas. Estudo divulgado em junho pelo Observatório do Crédito e Seguro Rural do FGVAgro mostra que a penetração do seguro rural no Brasil continua muito inferior à de países como Estados Unidos, Canadá, Espanha e China. Segundo Pedro Loyola, coordenador do observatório, a principal diferença entre o Brasil e esses mercados não está apenas no volume de recursos destinados ao seguro, mas na forma como esses países estruturaram suas políticas agrícolas. “Nos Estados Unidos, Canadá, Espanha e China, o seguro é tratado como infraestrutura da política agrícola, integrado ao crédito, à renda do produtor, ao resseguro e à segurança alimentar. No Brasil, a política permanece fragmentada e dependente de recursos anuais de subvenção.” Enquanto o crédito rural movimenta centenas de bilhões de reais por safra, apenas uma pequena parcela desse risco está protegida. No primeiro trimestre deste ano, o seguro rural arrecadou R$ 3,3 bilhões, queda de 2,7% sobre o mesmo período de 2025. O número de apólices também vem caindo. De 212,7 mil em 2021 para 61,6 mil em 2025. Resultado: aumento da inadimplência, renegociações de dívidas e crescimento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio. “O Brasil financia a produção, mas protege pouco a renda que deverá pagar esse financiamento”, resume Loyola. O cenário se torna ainda mais desafiador diante das mudanças climáticas. Eventos extremos mais frequentes e abrangentes reduzem a capacidade de diversificação dos riscos, elevam a sinistralidade e pressionam seguradoras e resseguradoras. Para Loyola, o país precisará avançar para um modelo de proteção em camadas, combinando prevenção, seguro privado, mecanismos financeiros de resposta e estruturas específicas para perdas catastróficas. Hoje, estima-se que apenas 2,3% da produção agrícola conte com seguro rural. “Isso demonstra um enorme equívoco de política agrícola, um enorme equívoco na percepção de risco dos produtores e também uma incapacidade nossa, como setor segurador, de chegar a esses produtores com a informação adequada”, diz Dyogo Oliveira, presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). Entre os modelos internacionais mais observados pelo mercado está o da Espanha, resultado de uma parceria público-privada construída ao longo de quase cinco décadas. Ele reúne governo central, governos regionais, produtores rurais, resseguradores e um pool de 15 seguradoras que compartilham riscos sob uma estrutura única de gestão. — Foto: Arte/Valor Atualmente, cerca de 50% do valor dos prêmios é subsidiado pelo poder público. O sistema também conta com reservas de estabilização e mecanismos públicos de resseguro capazes de garantir capacidade financeira mesmo em anos de elevada sinistralidade. “Aconteça o que acontecer, os agricultores receberão as indenizações correspondentes às suas perdas”, afirmou Silvia Marques dos Santos, diretora de produção e marketing da Agroseguro, durante o Fórum Brasil Lisboa, realizado pela CNseg em parceria com a seguradora Fidelidade, a maior de Portugal, em maio deste ano. Nem mesmo a experiência espanhola, porém, vem escapando dos impactos das mudanças climáticas, que se tornaram mais frequentes e intensas e menos previsíveis, obrigando o mercado a abandonar gradualmente modelos uniformes de cobertura para avançar em soluções mais individualizadas. Para Fabio Damasceno, diretor de seguro rural da seguradora espanhola Mapfre no Brasil, a pequena área segurada no país reduz a escala do mercado, dificulta o desenvolvimento de produtos mais sofisticados e limita a capacidade de expansão da cobertura. A seguradora vem investindo em modelos mais detalhados de avaliação de risco, incorporando histórico de produtividade, práticas de manejo, tecnologia empregada, imagens de satélite e dados climáticos para diferenciar melhor os riscos entre propriedades rurais. Para ele, o crescimento da cobertura dependerá da combinação entre estabilidade da política de subvenção do seguro rural, aumento da escala do mercado e evolução da capacidade técnica de análise dos riscos. Para Raphael Juliace Magalhães, superintendente de agro da consultoria e corretora de seguros Marsh Risk, a principal preocupação do mercado deixou de estar associada a uma cultura específica e passou a ser a crescente correlação dos eventos climáticos. Historicamente, seguradoras e resseguradoras conseguiam diversificar suas exposições porque as perdas estavam distribuídas em diferentes regiões e períodos. Hoje, secas, enchentes, ondas de calor e chuvas severas podem atingir simultaneamente grandes áreas produtoras. Mauricio Masferrer, diretor-executivo de negócios corporativos da Allianz Seguros, avalia que o seguro precisa ser incorporado à estratégia financeira das propriedades rurais. “Ajudar o cliente final a entender o seu risco e como transferi-lo é uma medida fundamental para reduzir o gap de proteção”, afirma. Segundo ele, ferramentas como inteligência artificial, análise de dados e imagens de satélite vêm tornando a avaliação de riscos mais precisa e contribuindo para ampliar a confiança dos produtores no sistema. Damasceno, da Mapfre, diz que a seguradora vem investindo em modelos mais detalhados de avaliação de risco — Foto: Divulgação Na mesma linha, Guilherme Perondi, CEO da Swiss Re Corporate Solutions, destaca que a indústria já dispõe de capacidade de seguro e resseguro suficiente para atender ao agronegócio brasileiro, inclusive por meio de soluções inovadoras, como coberturas paramétricas. Para ele, o principal gargalo continua sendo a previsibilidade dos recursos destinados ao PSR: “A indústria está preparada para atender às necessidades do agronegócio brasileiro. Para reduzir a lacuna de proteção será essencial garantir maior previsibilidade no financiamento do PSR”. Por enquanto, o governo mostra que o seguro rural não é prioridade. No atual Plano Safra (2026/2027), o programa de subvenção ao prêmio do seguro rural (PSR) sofreu cortes de mais de R$ 518 milhões, com orçamento reduzido para R$ 474 milhões. Com isso, a área coberta deve atingir o menor patamar da última década, em um cenário de riscos agravados pelo fenômeno El Niño. O Ministério da Agricultura e Pecuária atribuiu os bloqueios no orçamento do PSR à necessidade de cumprimento das regras fiscais, mas evitou descartar a possibilidade de reversão total ou parcial do contingenciamento. No entanto, o setor está animado. O Projeto de Lei 2.951/2024, já aprovado pela Câmara e em nova análise pelo Senado, promove uma ampla reformulação do marco legal do seguro rural. Ele propõe transformar os recursos da subvenção em despesa obrigatória do orçamento, criar incentivos para operações de crédito vinculadas ao seguro e fortalecer o chamado Fundo Catástrofe. A proposta também abre espaço para maior integração entre seguro rural, crédito e mecanismos públicos de proteção. A Superintendência de Seguros Privados (Susep) afirma que vem atuando para ampliar a capacidade do mercado de seguro rural por meio do aperfeiçoamento regulatório. Entre as iniciativas, estão o estímulo ao desenvolvimento de seguros paramétricos, baseados em índices objetivos para caracterização de perdas, a regulamentação da Lei Complementar nº 213/2025, que permitiu a atuação de cooperativas de seguros no segmento rural, e a revisão das regras de resseguro e retrocessão atualmente em discussão por meio da Consulta Pública nº 14/2025. Segundo a autarquia, essas medidas podem ampliar a oferta de produtos, fortalecer a concorrência e aumentar a capacidade de absorção de riscos, especialmente aqueles relacionados a eventos climáticos extremos. Para os especialistas, num cenário de eventos climáticos cada vez mais frequentes e perdas potencialmente mais severas, a expansão do seguro rural deixou de ser apenas uma questão de mercado. “Tornou-se uma condição estratégica para a sustentabilidade financeira do agronegócio brasileiro”, sentencia o presidente da CNseg.