— Foto: Ilustração: Daniel Caballero Quanto maior o risco, maior a necessidade de proteção. Essa equação ajuda a explicar por que seguradoras e resseguradoras brasileiras chegaram a 2026 otimistas com as possibilidades de expansão, mesmo diante de um ambiente econômico e regulatório desafiador. Mudanças climáticas, ataques cibernéticos, expansão de data centers, investimentos em infraestrutura, transição energética e novas tecnologias multiplicam as exposições de empresas e famílias e criam demanda por coberturas mais sofisticadas. Ao mesmo tempo, o Brasil continua subsegurado, abrindo uma avenida de crescimento para a indústria. O paradoxo é que essa oportunidade surge quando a participação do setor na economia pode recuar. Em 2026, pela primeira vez desde o início da pandemia, o mercado segurador deverá ficar abaixo de 6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), com projeção de 5,8%. Para o ano, a entidade estima crescimento da arrecadação de 2,9%, sem considerar saúde. O desempenho em 2025 e 2026 foi afetado pelo Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre grandes aportes nos planos de previdência do tipo VGBL, tributação que deixa de existir em 2027. Barreda, da Fenaber: severidade de eventos climáticos demanda mais conhecimento técnico — Foto: Divulgação “Estamos otimistas com 2027, pois a massa salarial tem ganho acima da inflação, os aspectos regulatórios já estarão absorvidos e o ganho de eficiência com o uso da tecnologia, especialmente da inteligência artificial, está num processo muito acelerado”, afirma Dyogo Oliveira, presidente da CNseg. O desafio continua sendo reduzir a lacuna de proteção, em um ambiente no qual educação financeira e endividamento das famílias também influenciam a capacidade de contratar seguros. No conjunto, seguros, previdência, capitalização e saúde movimentaram R$ 764,5 bilhões em 2025, avanço de 1,8%, enquanto R$ 548,4 bilhões retornaram à sociedade na forma de indenizações, benefícios, resgates, sorteios e eventos indenizáveis, alta de 8,8%. Nos seguros de bens e responsabilidade, automóvel arrecadou R$ 61,5 bilhões, alta de 6,8%, e patrimoniais cresceram 12,8%, para R$ 35,7 bilhões. Transporte avançou 8,05%, para R$ 6,61 bilhões. Na contramão, o seguro rural recuou 8,8%, para R$ 12,9 bilhões. — Foto: Arte/Valor No campo regulatório, Alessandro Octaviani, titular da Superintendência de Seguros Privados (Susep), afirma que a prioridade em 2026 é concluir a regulamentação administrativa da maior reforma legal do setor em seis décadas, envolvendo o novo Marco Legal do Seguro e a Lei Complementar nº 213/2025. A agenda inclui ainda seguro contra catástrofes, open insurance, sandbox regulatório e revisão das normas de capitalização. Entre as propostas em discussão está transformar municípios em segurados em larga escala, ampliando a proteção diante dos eventos extremos. A autarquia também acompanhará os efeitos das novas regras sobre preços, oferta de coberturas, concorrência, capital e solvência. No resseguro, a Resolução nº 494/2026 do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), com vigência a partir de janeiro de 2027, atualiza as regras de resseguro e retrocessão, cosseguro, operações em moeda estrangeira e contratação de seguro no exterior. Kakinoff, da Porto: nova tecnologia de precificação — Foto: Gabriel Reis/Valor Esse conjunto de oportunidades e desafios ajuda a explicar as estratégias de empresas como Bradesco Seguros, SulAmérica, Porto e Brasilseg. A escala continuará importante nesse setor, mas a tecnologia, a capacidade de precificar riscos e a qualidade da experiência do consumidor passam a determinar quem consegue crescer preservando rentabilidade. Na Bradesco Seguros, que se manteve em primeiro lugar em 2025, os números de 2026 mostram continuidade do avanço. O grupo registrou lucro líquido de R$ 5,7 bilhões no primeiro semestre, alta de 20,4% sobre igual período de 2025, com retorno sobre o patrimônio líquido médio de 22,1%. Ney Dias, presidente da seguradora, atribui o desempenho à experiência do cliente, parceria com corretores, disciplina técnica, diversificação e inovação. Inteligência artificial (IA) e análise avançada de dados estão sendo incorporadas à subscrição e à precificação. Mudanças climáticas, economia digital, riscos cibernéticos e grandes projetos de infraestrutura deverão, segundo ele, exigir soluções mais especializadas e ampliar a demanda por capacidade técnica. O corretor permanece no centro da estratégia de distribuição, apoiado por automação, dados e IA. — Foto: Arte/Valor A SulAmérica encerrou 2025 com receita operacional líquida de R$ 33,2 bilhões, alta de 10,5%, e Ebitda de R$ 2,3 bilhões, avanço de 75,7%. A trajetória continuou em 2026: no segundo trimestre, a companhia alcançou 6,61 milhões de beneficiários, crescimento de 9,7% em 12 meses, e receita líquida de R$ 8,7 bilhões. O Ebitda trimestral avançou 53,4%, para R$ 612,1 milhões. “Seguiremos priorizando o uso de tecnologia e dados para qualificar decisões, aprimorar a experiência dos clientes e tornar a operação cada vez mais eficiente, sempre preservando a qualidade assistencial e o acolhimento”, afirma Jefferson Klock, vice-presidente de operações da SulAmérica Saúde e Odonto. Para os próximos anos, a SulAmérica vê na alta dos custos assistenciais um dos principais desafios e aposta em gestão de sinistros, combate a fraudes, coordenação do cuidado e produtos mais adequados aos diferentes perfis de clientes. Pequenas e médias empresas e a expansão regional estão entre as oportunidades de crescimento. Tecnologia, IA e uso de dados também ganham espaço na gestão de riscos, eficiência operacional e personalização do atendimento. — Foto: Arte/Valor Na Porto, tecnologia de precificação tornou-se uma das principais apostas para crescer sem entrar em guerra de preços. A companhia começou a testar novos modelos em grupos de controle e ampliou sua utilização diante dos resultados. A ferramenta permite identificar com maior precisão o preço adequado ao risco e também as coberturas e serviços mais aderentes ao perfil do consumidor, elevando as taxas de conversão. Paulo Kakinoff, presidente da Porto, ressalta que a recuperação de participação não está sendo obtida por meio de descontos agressivos. Para ele, a manutenção de retornos elevados sobre o patrimônio indica que a expansão ocorre preservando a disciplina de precificação. Vida está entre as carteiras com maior potencial. A Porto concluiu uma mudança de sistemas e processos para melhorar operação, qualidade dos serviços, prazos e jornada do cliente. Automóvel também tem espaço para avançar com segmentação das marcas e novas ofertas. Em residencial, Kakinoff considera que a maior percepção dos riscos, inclusive climáticos, tende a estimular a procura por proteção. Para 2027, mantém uma visão positiva para o mercado. — Foto: Arte/Valor Felipe Nascimento, presidente da Mapfre no Brasil, vê oportunidades em automóvel, rural e seguros empresariais, mas pretende preservar a disciplina de subscrição diante do aumento da frequência e severidade dos sinistros. “Crescer não significa assumir risco a qualquer preço”, afirma. Ele cita aumento da demanda por seguros em transmissão e distribuição de energia, mobilidade urbana, aeroportos e saneamento, além dos investimentos em data centers associados à IA. Os eventos climáticos, porém, tornam essas exposições mais complexas — por isso a seguradora vem apostando em equipes especializadas em gerenciamento de riscos, modelagem catastrófica e capacidade de resseguro do próprio grupo para suportar exposições de maior porte. Na BB Seguridade, o resultado de 2025 foi recorde. A companhia encerrou o ano com lucro de R$ 9,1 bilhões (sendo R$ 5 bilhões da Brasilseg), avanço de 11,4%, e registrou R$ 4,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 3%. Delano Valentim de Andrade, presidente da seguradora, aponta como vetores para os próximos anos aprofundar o relacionamento com a base atual, integrar canais digitais e uso de dados e alcançar segmentos da população ainda pouco protegidos. A combinação da rede física com aplicativos e jornadas digitais deverá sustentar a estratégia de distribuição. — Foto: Arte/Valor Outro grupo que chegou a 2026 após uma profunda transformação é a HDI. Depois das aquisições e da integração das operações, a companhia superou R$ 15 bilhões em vendas em 2025. Vida e ramos elementares, que representavam cerca de 10% das vendas em 2022, passaram a responder por mais de 30%, enquanto grandes riscos representam aproximadamente 19% dos prêmios emitidos. “A primeira fase foi integrar; a próxima é potencializar os ganhos dessa escala”, afirma o presidente da seguradora, Eduardo Dal Ri. A Tokio Marine também projeta expansão, mas ressalta que o desafio é crescer com resultado. A seguradora encerrou 2025 com faturamento de R$ 14,6 bilhões e lucro líquido de R$ 1,5 bilhão. No primeiro semestre deste ano, alcançou R$ 7,4 bilhões em prêmios emitidos e índice combinado de 92,9%. Para 2026, a expectativa é terminar o ano com crescimento entre 5% e 10%. — Foto: Arte/Valor José Adalberto Ferrara, presidente da Tokio Marine, aponta pessoas, garantia, riscos de engenharia e habitacional entre as frentes de expansão. Infraestrutura e transformação digital também deverão estimular seguros empresariais especializados. O aumento da frequência e severidade dos eventos climáticos, as ameaças cibernéticas e a maior complexidade das operações reforçam, segundo ele, a necessidade de rigor na subscrição e precificação. Dados, tecnologia e modelos analíticos baseados em IA estão sendo usados para seleção dos riscos e gestão da carteira. O aumento da complexidade dos riscos amplia a importância do resseguro. O IRB(Re) se prepara para uma nova fase. Marcos Falcão, presidente da companhia, afirma que a estratégia é transformar o grupo em um ecossistema de proteção e soluções de risco, reunindo resseguro, seguros, gestão de ativos, acesso a capital e tecnologia. A expansão inclui projetos internacionais, mas Falcão ressalta que a companhia continuará priorizando disciplina de subscrição e rigor na alocação de capital. Na Austral Re, Bruno Freire, presidente da resseguradora, destaca mudanças climáticas, transformação tecnológica, regulação e riscos geopolíticos entre os desafios. “Estamos empenhados em uma transformação com inteligência artificial na companhia”, afirma. Para Rafaela Barreda, presidente da Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber), a maior frequência e severidade dos eventos climáticos exigirá mais capacidade e conhecimento técnico. A oferta internacional continuará relevante para riscos complexos e concentrados, mas o desenvolvimento do mercado dependerá também do fortalecimento da capacidade das próprias seguradoras. Já no setor de capitalização, a expectativa é crescer por meio da ampliação do uso dos títulos para além do varejo. Alguns dos usos seriam a garantia em contratos, concessões, infraestrutura e crédito. Estudo da Federação Nacional de Capitalização (FenaCap) estima que a arrecadação possa chegar a R$ 91 bilhões nos próximos anos e as reservas técnicas, a R$ 111,4 bilhões. As maiores do setor são a Bradesco Capitalização e a Brasilcap — esta mantém a liderança de mercado em reservas, com R$ 11,5 bilhões em maio, equivalentes a 25,7% do total. O negócio de capitalização da BB Seguridade registrou lucro líquido de R$ 179,3 milhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 40,5% sobre igual período do ano anterior. — Foto: Arte/Valor
Valor 1000: Novos riscos abrem espaço para expansão dos seguros
Mudanças climáticas, tecnologia e infraestrutura ampliam a demanda por proteção e estimulam investimentos em inovação






