Plataformas baseadas em dados e inteligência artificial impulsionam o crédito privado, tornando o financiamento mais ágil, preciso e diversificado Marques, da TerraMagna: com a ajuda da IA, volume de crédito concedido cresceu 4.700% em cinco anos — Foto: Divulgação O crédito rural brasileiro passa por uma mudança estrutural. Impulsionadas pela inteligência artificial (IA), monitoramento remoto e digitalização de processos, plataformas especializadas deixaram de atuar apenas na análise de risco para estruturar operações completas de financiamento. O movimento ganha força em um ambiente de juros elevados, maior seletividade dos bancos e expansão do mercado privado. Apenas na safra 2024/2025, as emissões da Cédula de Produto Rural (CPR) alcançaram cerca de R$ 410 bilhões, alta de 52% em relação à safra anterior, enquanto o patrimônio dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros) já chega a aproximadamente R$ 37 bilhões. Durante décadas, a concessão de crédito ao agronegócio esteve baseada sobretudo em patrimônio, histórico do produtor e processos documentais. Agora, passa a incorporar informações sobre produtividade, clima, comportamento financeiro e monitoramento contínuo da atividade agrícola para precificar o risco das operações. “Estamos saindo de um modelo ancorado em garantias e relacionamento para um formato baseado na capacidade produtiva e no risco real da operação”, afirma Mayra Theis, sócia e líder do setor de agronegócios da PwC Brasil. “O dado da operação produtiva passa a ser tão ou mais relevante que o colateral tradicional”, completa. Na avaliação da consultoria, essa mudança é estrutural e vem sendo impulsionada pela maior maturidade tecnológica das propriedades, pela expansão do crédito privado e do mercado de capitais — por meio de instrumentos como Fiagros, Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e operações de barter, nas quais o produtor recebe insumos e faz o pagamento com parte da safra após a colheita —, além da entrada de fintechs, tradings e indústrias de insumos na oferta de financiamento. Os ganhos mais evidentes, segundo Theis, estão na redução da burocracia, na melhoria da análise de risco e na precificação das operações. “Neste primeiro momento, a tecnologia melhora mais a seletividade e a precificação do que propriamente amplia o acesso para perfis historicamente excluídos”, afirma. A visão é compartilhada por Guilherme Bastos, coordenador do FGVAgro: “Descrevemos o momento como estrutural no sistema financeiro do agro e ainda promissor, mas não consolidado, na inclusão do produtor”. Na prática, a digitalização tornou o sistema mais eficiente, mas seus benefícios ainda se concentram nos produtores já inseridos no mercado formal de crédito. Theis, da PwC: dados das operações hoje são tão ou mais relevantes que as garantias tradicionais — Foto: Divulgação Segundo Bastos, a Lei do Agro, que tornou obrigatório o registro eletrônico da CPR — principal título de financiamento privado do setor —, modernizou a infraestrutura do crédito rural, mas a digitalização ainda esbarra em gargalos, como baixa conectividade, informações financeiras fragmentadas e limitações de gestão. Os impactos da transformação digital já aparecem na operação das empresas. Assinaturas eletrônicas, consultas automáticas a bases públicas, cruzamento de dados agronômicos e monitoramento remoto das lavouras reduziram o tempo necessário para analisar operações e acompanhar garantias, além de permitir avaliações de risco mais individualizadas. A TerraMagna é um dos exemplos dessa transformação. A empresa ampliou o volume de crédito concedido de R$ 50 milhões em 2020 para mais de R$ 2,4 bilhões em 2025, crescimento de 4.700%. Segundo Rodrigo Marques, cofundador da empresa, a IA permite incorporar características individuais de cada produtor aos modelos de risco, reduzindo decisões baseadas apenas em regras padronizadas. “Recebemos uma carteira pela manhã e o dinheiro chega no mesmo dia na conta do cliente”, afirma. A maior eficiência também abriu espaço para novos financiadores em um momento em que bancos tradicionais reduziram limites diante da alta dos juros e do aumento da inadimplência. É o caso da Agrolend, cuja carteira cresceu 179% entre 2024 e 2025, atingindo R$ 976 milhões, com expectativa de alcançar cerca de US$ 450 milhões neste ano. Hoje, a companhia reúne mais de 50 mil investidores pessoas físicas e captou mais de R$ 1,1 bilhão por meio de LCAs e CDBs. Segundo André Glezer, co-CEO da empresa, a maior parte da jornada do crédito já foi digitalizada. O principal gargalo continua sendo o registro das garantias em cartórios, etapa que ainda depende de procedimentos pouco padronizados. “Mais do que atender um público novo, estamos ocupando um espaço que ficou descoberto”, afirma. Esse movimento também impulsiona plataformas voltadas à conexão entre empresas do agro e investidores privados. É nesse segmento que atua a Arara Seed, que já mobilizou mais de R$ 100 milhões em ofertas públicas e rodadas privadas voltadas ao agro, tecnologia e ativos reais. Para Henrique Galvani, CEO da empresa, a tendência é que o setor passe a contar com uma estrutura de financiamento cada vez mais diversificada, mas essa transformação também exigirá uma mudança de postura das empresas e dos produtores: “Quem tiver gestão, números organizados e governança vai acessar capital em melhores condições”.