Levantamento do GLOBO mostra que, em dez meses, operações de órgãos estaduais e federais colocaram sob investigação ao menos R$ 40,09 bilhões em movimentações financeiras suspeitas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A Sefaz reforçou a fiscalização nas barreiras das divisas do Rio com São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, obrigando caminhões de combustíveis a passar por inspeção presencial de auditores fiscais. — Foto: Divulgação/Sefaz-RJ RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/07/2026 - 21:05 Crime Organizado Lava R$ 40 Bi em Postos de Combustíveis no RJ O crime organizado transformou postos de combustíveis em uma máquina de lavar dinheiro no Rio de Janeiro, com investigações revelando movimentações suspeitas de R$ 40 bilhões. Facções criminosas, milícias e até agentes públicos estão envolvidos em esquemas que incluem sonegação fiscal e fraudes operacionais. A fiscalização insuficiente facilitou a infiltração do crime, exigindo ação conjunta de órgãos estaduais e federais para combater o problema. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A circulação intensa de dinheiro em espécie, a diversidade da cadeia produtiva e o faturamento bilionário tornaram o setor de combustíveis um dos principais alvos do crime organizado no Rio. Segundo investigações das polícias Civil e Federal e do Ministério Público, esquemas envolvem facções criminosas, milícias, integrantes do jogo do bicho e agentes públicos interessados em dar aparência de legalidade a valores obtidos por corrupção e outras atividades criminosas. Levantamento do GLOBO aponta que, só nos últimos dez meses, nove operações colocaram sob suspeita mais de R$ 40 bilhões movimentados por redes de postos de combustível no estado. A lista de crimes é extensa, da lavagem de dinheiro à abertura de empresas fantasmas em nome de “laranjas”. Ao todo, as ações cumpriram 109 mandados de busca e apreensão e 25 de prisão. Numa outra frente, com o objetivo de estancar a sonegação de impostos — outro problema grave e que pode acobertar mais condutas criminosas —, a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) identificou que 2.100 (95%) dos 2.205 postos do Rio apresentavam algum tipo de irregularidade. Só os que não cumpriam exigências do registro obrigatório sobre movimentação de combustíveis e volume de vendas eram 1.744, sobretudo na capital (636 postos), em Campos dos Goytacazes (86) e em São Gonçalo (81). — É o setor que movimenta maior volume de recursos e o que tem a maior carga tributária. Se uma empresa não presta as informações de movimentação de entrada e saída de combustíveis, fica difícil rastrear o caminho do dinheiro — diz o titular da Sefaz, Guilherme Mercês. A máfia instalada nos postos — Foto: Editoria de Arte Mais rentável que Droga No domingo, O GLOBO já havia mostrado como tráfico e milícia no Rio sequestraram setores da economia popular, cobrando taxas e controlando a venda de produtos básicos, como o ovo e o tijolo, em áreas dominadas ou sob influência do crime. No caso dos combustíveis, operações como a Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, revelaram os tentáculos da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) em esquemas bilionários de importações fraudulentas e de venda em postos espalhados pelo país. No Rio, as investigações desvendaram que grupos como o Comando Vermelho (CV) se infiltraram nesse filão, enquanto quadrilhas se especializaram em perfurar oleodutos e roubar cargas de combustíveis e lubrificantes. — É um segmento que ainda movimenta quantidade significativa de dinheiro em espécie, o que dificulta o controle pelos órgãos de fiscalização. Além disso, existem diferentes formas de fraude, como adulteração das bombas, entrega de quantidade inferior à paga pelo consumidor e a venda de combustíveis adulterados por preços mais baixos — afirma Renan Mello, titular da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro. A questão levou o Ministério da Justiça e Segurança Pública a se reunir este mês com órgãos estaduais a fim de discutir estratégias conjuntas de enfrentamento no âmbito do Escritório Nacional Antifacção (ENA). Veja os alvos da nova fase da Operação Unha e Carne 1 de 8 Na foto, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Rodrigo Bacellar, um dos alvos de mandados de prisão, chega a sede da PF. Ela vai ser transferido para um presídio federal — Foto: Márcia Foletto 2 de 8 Na foto, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Rodrigo Bacellar, um dos alvos de mandados de prisão, chega a sede da PF. Ela vai ser transferido para um presídio federal — Foto: Márcia Foletto X de 8 Publicidade 8 fotos 3 de 8 Na foto, movimentação no pátio da PF — Foto: Márcia Foletto 4 de 8 Rodrigo Bacellar chega a unidade da Polícia Federal — Foto: Márcia Foletto X de 8 Publicidade 5 de 8 Outro alvo da operação é Márcio Poncio, pastor e empresário do ramo do tabaco — Foto: Reprodução Instagram 6 de 8 Outro alvo é Marco Antônio Cabral, advogado, ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Esporte do Rio de Janeiro durante o governo de Luiz Fernando Pezão — Foto: Reprodução / Instagram @marcoantoniocabral X de 8 Publicidade 7 de 8 Marco Antônio ao lado do pai, Sérgio Cabral — Foto: Reprodução / Instagram 8 de 8 Já Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, é um bicheiro conhecido das autoridades de segurança cariocas — Foto: Editoria de Arte X de 8 Publicidade Os agentes cumprem três mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), participou do encontro e conta que cerca de mil postos do estado estão sob suspeita de envolvimento com organizações criminosas — quase metade dos estabelecimentos registrados no Rio. Segundo ele, o setor passou por uma profunda transformação nos últimos anos em razão da entrada desses grupos: — A situação se agravou muito. Antes, o principal problema era a sonegação fiscal. Hoje, há diversas modalidades de adulteração e fraudes operacionais, que vão do poço ao posto. É um setor que atrai não só pela possibilidade de lavar dinheiro, mas também pelo alto potencial de lucro. O crime obtém um retorno maior com combustíveis do que com o tráfico de cocaína. Kapaz relata que a falta de fiscalização criou um ambiente favorável às facções: — Por muito tempo, o problema não recebeu a devida atenção dos órgãos fiscalizadores, o que criou um ambiente de permissividade. No caso do Rio, ainda vemos operações que revelam a participação de agentes públicos. É urgente fortalecer a fiscalização e ampliar o monitoramento das brechas por onde esse dinheiro circula no sistema financeiro. PF deflagra operação contra grupo do setor de combustíveis — Foto: Polícia Federal Operações recentes evidenciam que essa apropriação do setor pelo crime vai além das quadrilhas de ladrões de carga, do tráfico e da milícia. Este mês, a sexta fase da Unha e Carne, da Polícia Federal, mirou uma organização criminosa suspeita de usar mais de 80 postos da Região Metropolitana do Rio, em cidades como Niterói e São Gonçalo, para lavar dinheiro, com participação de agentes públicos. As investigações indicaram que o esquema movimentou R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, conforme relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Entre os alvos de busca e apreensão estavam o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União), e o delegado da Polícia Civil e ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Amim, que negaram envolvimento no caso. Dois meses antes, em maio, a quarta fase da mesma Unha e Carne prendeu o deputado estadual Thiago Rangel (Avante), sob a acusação de utilizar uma rede de postos de combustível para lavar dinheiro proveniente de um esquema de direcionamento de licitações e contratos públicos na área da Educação do estado. Com reduto eleitoral em Campos dos Goytacazes, ele é dono de ao menos 18 postos de combustíveis e de GNV. Foi o parlamentar que tentou instalar, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), uma CPI do Gás, sob o argumento de investigar a prestação do serviço de distribuição de gás canalizado da empresa Naturgy no Rio. Deputados afirmam, porém, que a proposta tinha intuito diferente: pressionar a concessionária para impedir a instalação de medidores de GNV protegidos pelas chamadas “caixas verdes”, sistema que dificulta fraudes no consumo de gás. A proposição acabou arquivada. O GLOBO tentou contato com representantes de Rangel e não teve retorno. Barreiras fiscais Já no âmbito fiscal, a Sefaz afirma que as diferentes medidas de combate à sonegação contribuíram para aumento de 77% da receita de ICMS do setor de combustíveis no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025. O montante foi de cerca de R$ 2,4 bilhões agora, contra R$ 1,3 bilhão de abril a junho do ano passado. Uma das iniciativas reforçou a fiscalização nas barreiras das divisas do Rio com São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, obrigando caminhões de combustíveis a passarem por inspeção presencial de auditores. Em junho, segundo a secretaria, a medida resultou em R$ 1,8 milhão em autos de infração, alta de 482% em relação ao mesmo período de 2025. Além disso, em entrevista ao GLOBO este mês, o governador interino Ricardo Couto afirmou que Ricardo Magro, à frente do Grupo Refit (antiga Refinaria de Manguinhos), é o “empresário mais nocivo” do estado. Magro é considerado um dos maiores devedores de ICMS do Rio, e a Refit foi alvo este ano da Operação Sem Refino, feita pela PF.
Setor de combustíveis do Rio é alvo de facções, milícias e corruptos: R$ 40 bi estão sob investigação
Levantamento do GLOBO mostra que, em dez meses, operações de órgãos estaduais e federais colocaram sob investigação ao menos R$ 40,09 bilhões em movimentações financeiras suspeitas






