Gerando resumoFoto: MAC/DivulgaçãoKatia AraujoArtista nacional da MAC no BrasilOferecer quase 70 cores diferentes de base para um País conhecido pela diversidade de tons de pele de seus habitantes não é nenhum desafio para a empresa norte-americana de maquiagem MAC Cosmetics. Com o lema “todas as idades, todas as raças, todos os gêneros”, a empresa chegou ao Brasil em 2002, e encontrou uma demanda pelos seus produtos que fez do local um dos seus mercados mais importantes em nível global — e fez a marca estabelecer presença hoje em 20 Estados.Para Katia Araujo, artista nacional e porta-voz de beleza da empresa no Brasil, a chegada da marca ao País, em um contexto no qual havia poucas referências de produtos de maquiagem para pessoas negras, foi uma virada de chave. Na MAC há mais de duas décadas, ela avalia, em entrevista ao Estadão, que o momento era de uma indústria nacional que, tanto não enquadrava o negro em uma ideia de beleza, quanto não considerava seu poder de compra. “No Brasil, havia poucas marcas de maquiagem, há 25 anos, e essas marcas atendiam um público muito específico, porque nós (negros) nem éramos vistos como consumidores em potencial. São várias nuances. Tem o padrão de beleza propriamente dito, que é bastante eurocentrado no Brasil, e também tem uma questão socioeconômica que nos exclui enquanto consumidores.”PublicidadeMarca tem quase 70 tons de base em pontos de venda no Brasil Foto: MAC/DivulgaçãoEla considera que, desde então, houve também mudanças com o advento de movimentos negros e redes sociais que remodelaram o consumidor e o mercado no Brasil nos últimos anos. “Foi algo que impactou diretamente no reconhecimento da população negra enquanto beleza. O consumidor passou a exigir também coisas específicas para ele e a indústria também precisou se movimentar. A indústria começou a perceber que esse grupo consome. Se são 56% da população brasileira, em algum ponteiro da economia essa parte da população mexe.” Leia também‘Streaming antirracista’: empresas financiam plataforma brasileira de conteúdos com temática racialAtender diversidade de tons de pele é corrigir um erro antigo do mercado, diz CEO da Boca RosaNo Brasil, desde então, o portfólio da MAC com dezenas de cores se mantém ampliado e não tem ficado só nas bases. Opções de corretivo (44 tons) e de blush (29 tons) foram ao mercado em abril e maio deste ano, respectivamente. “São muitos anos fazendo isso. Nós colocamos (no mercado) porque tem que colocar. Não é só uma questão de performance de venda. É sobre não existir ponto de negociação”, diz Araujo. “Quanto mais tecnologia nós tivermos, mais vamos tentar ser específico para mais pessoas.” Leia os principais trechos da entrevista com Araujo: PublicidadeNessas duas décadas na MAC, o que a senhora percebeu sobre mudanças em relação aos padrões de beleza no mercado?Vejo que as mudanças foram muitas, o que não quer dizer que ainda não haja muitas mudanças a serem feitas. Primeiro que, no Brasil, havia poucas marcas de maquiagem há 25 anos, e essas marcas atendiam a um público muito específico, porque nós (negros) nem éramos vistos como consumidores em potencial. São várias nuances. Tem o padrão de beleza propriamente dito, que é bastante eurocentrado no Brasil. Um padrão estabelecido pela branquitude. Tanto é que, quanto mais o negro for próximo desse padrão, mais passabilidade tem. Ainda é assim que as coisas funcionam no nosso País. E também tem uma questão socioeconômica que nos exclui enquanto consumidores. Vejo que as coisas foram mudando e várias situações contribuíram para essa mudança. Dentro do Brasil existiu um engajamento fortíssimo de movimentos negros, embora não tivesse muita visibilidade, mas eu vejo que o advento das redes sociais foi algo que impactou diretamente no reconhecimento da população negra enquanto beleza. E aí, o consumidor passou a exigir também coisas específicas para ele, para sua subjetividade, e a indústria também precisou se movimentar. A indústria começou a perceber que esse grupo consome. Se é 56% da população brasileira, em algum ponteiro da economia essa parte da população mexe. Tem um movimento de consumo muito forte, de a indústria entender isso como potencial, de o negro se ver enquanto beleza, de a comunidade entender esse movimento como um movimento individual, mas coletivo, e aí as coisas foram caminhando. E quanto à participação da MAC?A abertura do mercado e a vinda de marcas estrangeiras para o Brasil foram muito importantes. Creio que a MAC no Brasil é uma grande contribuidora. Tenho 23 anos de empresa e não sei contar nos dedos o número de mulheres e homens negros que vieram até mim e me disseram que só usaram um “produto X” depois que conseguiram comprar o primeiro produto da MAC, seja porque economizou e comprou, seja porque tinha poder aquisitivo para comprar. Mas, durante muito tempo, a marca foi a única opção para esse público no Brasil. Então, vejo que ela abriu um mercado potencial para um consumidor que até então não consumia produtos de maquiagem. E sobre a questão do acesso, uma vez que os produtos da MAC têm um valor que não contempla, em muitos casos, aquelas classes econômicas nas quais a maioria da população é negra?Tem essa questão, sim, que é o que falei sobre questões socioeconômicas. Sabemos que existe uma problemática aí. Sabemos a cara que tem a classe média baixa e a pobreza no Brasil. Ela tem uma característica física, tem um fenótipo. E, sim, a MAC não tem o produto mais acessível, mas quando se percebe que, de alguma maneira, pode-se ter um acesso (a maquiagens para peles negras), a pessoa começa a se ver um pouco mais, começa a prestar atenção em coisas que não notava, economiza para comprar já que essa é a única possibilidade. Serve de pioneirismo e referência para outras marcas entenderem que aquele é um mercado que pode dar certo dentro de outros recortes. E, no final das contas, eu traço um paralelo de quando a MAC chegou no Brasil. O momento em que o País estava passando (era) de uma abertura econômica para determinado tipo de população. A MAC chegou em 2002, então tínhamos uma oportunidade de compra. Foi quando a oportunidade de crédito se abriu. E eu creio que isso facilitou também um pouco (o acesso aos produtos). PublicidadeÉ uma questão de enxergar no Brasil um potencial consumidor, visto que todo movimento de negócio precisa render para a companhia…Exato. A MAC é uma marca que, pensando no mercado de consumo brasileiro de beleza e na diversidade, foi importantíssima para que as pessoas vissem que existia alguém que fazia aquilo para elas. Também (foi importante) como um pioneirismo e um espelho para que outras marcas seguissem esse caminho.O que o Brasil representa para a MAC em termos de mercado?O Brasil sempre foi muito bem visto, é uma grande potência. Nós somos muitos, então, nenhum número aqui é pouco. A MAC é líder dentro do mercado de prestígio da beleza no Brasil. (O escritório no País) acabou de receber uma visita de grandes líderes da companhia, e eles estão super interessados, porque o Brasil é a bola da vez em termos de cultura, é um caldeirão cultural muito interessante. E a MAC é uma marca que tem esse legado porque sempre pensou em cultura, arte e individualidade. Ela nasceu do backstage da moda, do que era controverso, da necessidade de maquiadores em expandir portfólio para que a maquiagem possibilitasse mais coisas. É uma marca que sempre caminhou com a cultura pop. O Brasil sempre foi um mercado escutado. O que eu sinto hoje é que estamos em um momento mais único, de aproveitar as oportunidades, porque tem muita gente falando de nós.Como o lema “todas as idades, todas as raças, todos os gêneros”, adotado publicamente pela empresa, dialoga com os seus negócios e produtos?É interessante marcar que a MAC fala sobre o tema muito antes de isso “se tornar marqueteiro” (no mercado). Isso é um ponto de muito orgulho para nós. A marca foi lançada com esse lema desde o início, quando falar sobre questões de responsabilidade social nem era bem visto. Sobre esse lema em específico, eu vejo que ele é a cultura da marca, não é algo construído baseado em uma tendência de mercado. Tanto que ele é sólido até hoje, após 43 anos. Não existiu um rebranding (reposicionamento de marca) no qual foi mudado esse lema, porque isso é cultura, é DNA. Os produtos são criados em volta disso, a tecnologia em pesquisa é colocada pensando em todas as raças, todos os gêneros e todas as idades. Não estamos falando só de ter uma extensão em número de cores. Pensamos no subtom, no tipo de pele, na cobertura, no acabamento, nas especificidades daquele público. A comunicação fala sobre isso. O que é visto nas campanhas é sobre isso. PublicidadePUBLICIDADETemos visto um movimento global de dissociação da ideia de diversidade em que, se a agenda não está na cultura, a tendência é retroceder nesse sentido…Vejo que sempre (o mercado) elege pautas minoritárias. Uma hora, os grupos racializados negros. Daqui a pouco, o meio ambiente ou grupos LGBT+. E, não são nichos. Não podemos tratar como como nicho. Eu vejo que a MAC é muito pioneira e ela conseguiu ser usada como exemplo para algumas marcas seguirem nesse caminho. Mas também existe uma quantidade de rebranding absurda hoje. Uma marca entra no mercado e, em um ano e meio, muda tudo: muda a embalagem, muda a proposta, muda o nome da marca, às vezes. (Há) uma velocidade insana para se adequar ao mercado e não para construir um legado que dialogue com questões que sejam válidas e fortes o suficiente para perdurarem. Eu vejo que isso a MAC fez com excelência. MAC Cosmetics mantém linhas de maquiagem para variados tons de pele no Brasil Foto: Alex Black/MACEm relação à ampliação da cartela de cores no Brasil, há uma demanda ou está sendo colocada no mercado para sentir a temperatura?CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEVejo que não sentimos mais a temperatura. São muitos anos fazendo isso. Nós colocamos (no mercado) porque tem que colocar. Não é só uma questão de performance de venda. É sobre não existir ponto de negociação. É isso. E quanto mais tecnologia nós tivermos, mais vamos fazer, mais vamos tentar ser específicos para mais pessoas, que é o que a MAC fez agora, quando reformulou a base Studio Fix Fluid. Até o seu consumidor encontrar sua nova cor, passar por esse processo de transformação, é um risco que se está correndo. E vejo que esse risco está atrelado a você ser fiel a um propósito de marca. Por vezes, fala-se como é necessário que as marcas invistam em cartelas diversas de cor para ganho de escala. A MAC, sendo uma referência, ainda anda sozinha hoje com algumas poucas marcas?Quando pensamos na diversidade e colocamos tudo dentro de um bloco, é um problema. Pensar a diversidade é entender que existem especificidades dentro daquele grupo diverso. Esse é o primeiro ponto. Não é só sobre criar uma cartela com (muitos) tons. É sobre qual é a mentalidade por trás de se criar uma cartela com (muitos) tons. Eu estou, de verdade, entendendo as especificidades desse grupo? Quando falamos de um grupo racial negro, por exemplo, não somos iguais por vários motivos: pelas nossas vivências, pela miscigenação, pelos gostos, por como vemos a nossa beleza — um direito que nos foi roubado entre tantas outras coisas que nos foram roubadas. Vejo que o primeiro ponto mais importante é não entender a diversidade como um bloco, como um nicho. O diverso é diverso dentro dos seus grupos. Não acho que andamos só sozinhos. O mercado está andando bem.De que maneira?Há marcas que se destacam por isso. Há marcas que se destacam genuinamente por isso, como é o caso da Fenty, por exemplo, que é uma marca que criou uma identificação real com o público negro, mas que isso também tem a ver com ter uma persona real por detrás dessa marca: a cantora Rihanna, que é uma imagem fortíssima e que bebeu dessa fonte. Então, não acho que a MAC anda sozinha. Mas eu vejo que ainda falta um pensamento mais profundo sobre essa diversidade. Porque, senão, essas marcas vão lançar produtos, não vão vender e vão tirá-los do mercado. Essas marcas não vão ter força para entrar em grandes centros comerciais e dizer que quer 100% da cartela na gôndola, pois elas não têm lojas próprias. Então, é preciso ter toda uma construção de marca real.Publicidade