Por Anna Luiza Santiago 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 João Velho — Foto: Arquivo pessoal Conhecido pelo grande público principalmente por ter vivido Catraca, em "Malhação", João Velho está dirigindo uma nova montagem do clássico "Eles não usam black-tie", de Gianfrancesco Guarnieri. A peça estreia em temporada no próximo dia 7, no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), na Cinelândia, no Centro do Rio. — Esse trabalho começou lá em 2018, quando eu dava aulas no Nós do Morro. Decidi estudar a peça, que se passa em uma comunidade, e caiu como uma luva para os alunos periféricos. Fizemos uma montagem em 2019 e, em 2022, estreamos profissionalmente. Hoje, a nossa companhia (Única Companhia de Teatro) é formada por atores múltiplos, de vários lugares — comenta Velho. Ele destaca como a peça ainda soa atual, quase 70 anos após a estreia original: — O debate entre o coletivo e o individual, o operário versus o patrão, está muito vivo. Depois da ditadura militar, caiu um pouco a vontade de fazer teatro panfletário no Brasil. Mas hoje, com a necessidade de explicar o óbvio e dizer coisas como “o fascismo não é legal”, ele voltou com força. A peça parece ter sido escrita ontem. João conta que sua aproximação com a direção começou há alguns anos, quando trabalhou com a mãe, Cissa Guimarães: — Fiz assistência de direção em duas peças da minha mãe: "Pelo amor de Deus, não fala assim comigo" e "Doidas e santas". Ali comecei a elaborar um vocabulário para falar com os atores. A passagem pelo Nós do Morro foi crucial para eu poder errar e aprender. Eu trato o cargo de diretor com muito respeito. Muita gente fala: "Ah, dirige aí, João". E eu respondo que não é assim que funciona. Não é só chegar e ver como fica. Eu estou fazendo esse trabalho há anos com a mesma peça, então está tudo bem para mim agora. Mas, se eu for dirigir um novo trabalho, te garanto que vou ficar com muito medo. Outro projeto em que ele está envolvido no momento é o "Leituras afetivas", parte da exposição “Peréio – Semana que vem eu me organizo”, em homenagem ao pai, o ator Paulo César Pereio, que morreu em 2024 após passar os últimos anos de vida no Retiro dos Artistas: — Esse projeto vem de um cuidado da nossa irmã, a Lara. Ela é a idealizadora e catalogou cada guardanapo que meu pai desenhou, cada bilhetinho, com uma paciência incrível. O meu pai tem um trabalho estabelecido como o grande ator que era, mas a exposição mostra o lado dele mais íntimo, familiar e de artista visual, que era um lugar que ele não apresentava publicamente. Ele fazia desenhos por prazer, e víamos isso. Eu dirijo a parte performática e teatral. Pego textos de peças que ele fez, textos dele mesmo, e faço uma performance-homenagem com atores. É um orgulho poder trazer o meu pai para gente nova que talvez não o conheça. Ator com mais de 60 filmes no currículo, Pereio acabou se tornando ele próprio um personagem à parte, com seu comportamento imprevisível e sua rebeldia. João conta como era a relação de pai e filho entre eles: — Ele era uma personalidade performática. É quase como se o Clark Kent tivesse colocado a capa do Super-Homem e nunca mais tirado. Mas tinha um Clark Kent ali atrás. Ele era um cara muito tímido, que gostava da solidão dele, lia muito, sabia poesia de cor e tinha um intelecto altíssimo. Como pai, ele não ficava querendo que eu tirasse dez na escola, mas nunca deixou dúvida sobre o amor por nós. Ao mesmo tempo que ele não tinha essa “missão” tradicional de pai, ele adorou ter filhos. Mas, se não fosse a minha mãe, eu estava ferrado. Ele me visitava sem aviso, tocava o telefone, subia e ficava na minha casa uma semana inteira vendo televisão comigo. O meu pai tinha uma presença muito forte e agregadora. Sempre que ele aparecia, juntava todo mundo. É muito louco pensar como aquele velho, que era tão sardônico, era capaz de sensibilidades imensas. Todo mundo que passou pela vida do meu pai sofreu com ele, mas, no final, o que fica mesmo é a loucura de amor que tínhamos por ele, e ele por nós. Apesar de ser filho de duas pessoas públicas, o ator conta que se surpreendeu com a fama quando começou a fazer "Malhação": — Quando fui fazer "Malhação", eu pensei que sabia o que era a fama, mas não sabia. Fui completamente surpreendido. Eu ia de ônibus gravar. Quando a novela entrou no ar, fui entrar e o trocador falou: "O que você está fazendo aqui? Você é rico!" (risos). Foi um choque. As pessoas ficavam perturbadas com a minha presença no transporte público. Não é normal. Foi uma coisa nova que eu tive que aprender a lidar. Depois, eu acabei comprando um Fusquinha. Hoje em dia, já está bem mais calmo, claro. Eu continuo andando de ônibus e metrô. Na novela, Velho integrou a fictícia Vagabanda, que também tinha como membros os personagens de Marjorie Estiano e Guilherme Berenguer. Ele fala da relação do trio nos dias de hoje: — Eu não falo há muito tempo com a Marjorie, mas, sempre que nos encontramos, é uma risadaria total. O Guilherme também é um grande amigo. Mas a vida adulta tem disso. Os caminhos foram para lados diferentes, e é normal. No teatro e na televisão, nos juntamos e formamos uma família. Aí o projeto acaba e cada um vai para um canto. Mas sempre existe essa memória e esse carinho. Foi um momento importantíssimo da nossa vida. Esse afeto sempre vai existir. No ano passado, o ator foi visto na sexta temporada de "Impuros", do Globoplay. Ele fala sobre o trabalho: — Sempre tive mais predileção pelo teatro, ou talvez o teatro tenha me escolhido mais. Mas agora, fazendo "Impuros", é a primeira vez que as pessoas me param na rua para falar de um trabalho que não seja "Malhação". Isso está tendo um sabor diferente, que estou achando lindo. Quero muito poder fazer mais televisão. Veja as casas de Sônia Zagury, Claire Digonn e Jaime Leibovitch no Retiro dos Artistas 1 de 12 Detalhe da casa de Sônia Zagury no Retiro dos Artistas — Foto: Guito Moreto 2 de 12 Detalhe da casa de Sônia Zagury no Retiro dos Artistas — Foto: Guito Moretto X de 12 Publicidade 12 fotos 3 de 12 Claire Digonn em casa no Retiro dos Artistas - exclusivo Play — Foto: Ana Branco 4 de 12 Jaime Leibovitch na sala de casa — Foto: Ana Branco X de 12 Publicidade 5 de 12 Atriz mostra fotos de trabalhos antigos — Foto: Ana Branco 6 de 12 A atriz Claire Digonn em sua casa no Retiro dos Artistas — Foto: Ana Branco X de 12 Publicidade 7 de 12 Claire completou 70 anos de carreira — Foto: Ana Branco 8 de 12 Uma das paredes da casa da atriz Claire Digonn no Retiro dos Artistas tem recordações de seus trabalhos — Foto: Ana Branco X de 12 Publicidade 9 de 12 Jaime Leibovitch participa de leituras de livros on-line e está escrevendo uma peça — Foto: Ana Branco 10 de 12 Leibovitch mora no Retiro desde a pandemia. O ator aponta a leitura como uma das suas atividades favoritas — Foto: Ana Branco X de 12 Publicidade 11 de 12 Jaime Leibovitch é vizinho de Claire Digonn no Retiro dos Artistas — Foto: Ana Branco 12 de 12 Jaime Leibovitch em foto com o filho, que morreu num acidente. O ator está aprendendo a tocar flauta no Retiro dos Artistas — Foto: Ana Branco X de 12 Publicidade . João Velho e, ao lado, ele com o pai, Paulo César Pereio — Foto: Reprodução/Instagram