[RESUMO] Autor americano põe em perspectiva as heranças da escravidão nos EUA e no Brasil, destacando o racismo e a violência nos baculejos promovidos pela polícia em Salvador e nas mortes cometidas por agentes do ICE do governo Trump. Iniciativas de valorização da memória negra na capital baiana e em Nova Orleans, por outro lado, lembram que o curso da história pode ser transformado.

Em Salvador, a capital do Brasil negro, chamam de baculejo. Quando a polícia para uma pessoa sem motivo justificado para interrogar, revistar, assediar ou fazer algo pior, é um baculejo.

Em um sábado há não muito tempo, presenciei um baculejo acontecer do outro lado da rua do principal museu de história da cidade, a Casa das Histórias de Salvador. Com submetralhadoras no peito, cinco policiais de cara fechada, com boinas pretas e coletes à prova de balas, cercaram um homem negro de meia-idade. Com as mãos atrás da cabeça e os cotovelos abertos, o homem permanecia absolutamente imóvel e a sua expressão facial revelava uma mistura de preocupação, exasperação e resignação diante de uma experiência nitidamente familiar.

Pablo Lemos, então mediador cultural da Casa das Histórias, observava pelas janelas do térreo do museu. Jovem negro criado por uma mãe solteira em um barraco de madeira sobre palafitas à beira de águas poluídas, Pablo também conhecia muito bem os baculejos. Normalmente rápido em brincar e rir com os colegas, ele fervia de ressentimento agora.