O ministro afastado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marco Buzzi decidiu reforçar a equipe de defesa antes do julgamento marcado para o dia 6 de agosto que pode lhe punir com a aposentadoria compulsória e tirá-lo definitivamente do cargo por conta de duas acusações de assédio e importunação sexual. Na última sexta-feira (24), a advogada criminalista Maíra Fernandes, conhecida pela defesa dos direitos das mulheres, passou a defender Buzzi no caso. Em 2019, Maíra ganhou notoriedade por atuar na defesa do jogador de futebol Neymar, alvo de uma acusação de estupro em um hotel de Paris, apresentada por uma modelo. O processo contra Neymar acabou arquivado por falta de provas. À época, Maíra foi expulsa da seção brasileira do Comitê da América Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem) por defender o jogador. Em 2019, ao comentar o processo de Neymar, Maíra escreveu em seu perfil no Facebook: “Pedi para analisar os autos e me convenci, absolutamente, de que se trata de uma falsa acusação de estupro. De modo geral, a advocacia criminal prescinde desse tipo de análise, por amor ao direito de defesa. Mas, no meu caso, pela minha trajetória como feminista, na defesa dos direitos das mulheres, essa análise era importante”. Procurada pelo blog, a defesa de Buzzi informou que Maíra vai atuar no processo administrativo disciplinar instaurado contra o ministro, ao lado dos advogados Paulo Catta Preta e Maria Fernanda Saad Ávila, que já integravam a defesa. “A advogada avalia que há fartas provas de inocência e acredita nas teses de defesa já apresentadas nos autos”, afirmou a assessoria de Buzzi. Disparo de mensagens Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, a defesa de Buzzi já começou a peregrinação nos gabinetes dos ministros antes do julgamento. Um dos pontos que têm incomodado os magistrados, além da gravidade das acusações, foi um disparo de mensagem a integrantes da Corte sobre o caso, falando numa possível “reviravolta” nas investigações. Uma investigação interna do STJ aberta para apurar o disparo de mensagens a magistrados associou a operação digital a uma ex-assessora do gabinete de Buzzi. A equipe da coluna teve acesso a trechos da apuração, que atribui o número do celular à jornalista Iara Rebelo de Souza, que atuou como assessora de Buzzi por três meses em 2018. Iara chegou a ser apontada como uma das testemunhas de defesa pelos advogados do magistrado na sindicância interna do STJ, que pode levar à expulsão de Buzzi. Ela, no entanto, acabou não prestando depoimento, já que a defesa do magistrado desistiu da oitiva. Disfunção erétil Maíra entra no time jurídico de Buzzi após o ministro ter encaminhado ao STJ uma defesa de 262 páginas em que tenta colocar em xeque os depoimentos das vítimas e de testemunhas, inclusive funcionários do seu gabinete, chamando de “telefone sem fio” o que classifica como “fofocas” sobre o seu comportamento. O ministro também recorreu a um laudo de disfunção erétil e às suas “severas limitações físicas”, com histórico de cirurgias nos braços e nas pernas e dificuldade de locomoção, para negar as acusações. A tese, no entanto, já foi rechaçada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que defende a aposentadoria compulsória do magistrado, a pena máxima prevista na Lei Orgânica da Magistratura. Buzzi foi afastado temporariamente do cargo em fevereiro deste ano após virem à tona as acusações. O plenário do STJ, o segundo tribunal mais importante do país, se reúne no próximo dia 6 para julgar numa sessão secreta, fechada à imprensa, o processo administrativo disciplinar instaurado contra o magistrado. No parecer encaminhado ao STJ no início deste mês, a PGR endossou as acusações de duas mulheres contra Buzzi: uma jovem de 18 anos, que o acusa de tentar agarrá-la numa praia de Balneário Camboriú (SC), em janeiro deste ano, durante férias com a família do próprio ministro; e uma ex-funcionária que trabalhou no gabinete de Buzzi como secretária e relatou sete episódios de assédio e importunação sexual ocorridos entre 2023 e 2025. Em suas alegações finais, obtidas pela equipe do blog, Buzzi se diz alvo de um “conluio”, que estaria relacionado a “grandes causas” em que atuou. Indicado ao cargo por Dilma Rousseff em 2011, o ministro integra a Quarta Turma do STJ, especializada em questões do direito privado, o que inclui disputas empresariais. De acordo com o argumento do ministro, a mãe de uma das vítimas, que é advogada, teria forjado uma denúncia contra ele por vingança contra decisões desfavoráveis a clientes dela em causas no STJ. “A utilização das duas denúncias simultâneas serviu ao propósito de constranger publicamente o magistrado, que ostenta 44 anos de ilibada carreira, conhecido por suas decisões duras a bem dos consumidores em conflitos nos quais [o escritório da mãe de uma das vítimas] litigam contra bancos”, afirma a equipe de defesa do magistrado. Geni Os episódios de assédio incluem abordagens de Buzzi com toques físicos nas nádegas da ex-funcionária em ambientes como o corredor do gabinete e na própria sala do ministro, onde ela tentou ajudá-lo a colocar um pendrive no computador. O relato da vítima foi corroborado por familiares, um namorado, assessores e até a chefe de gabinete de Buzzi. A defesa do ministro, no entanto, tenta colocar em dúvida a credibilidade dos depoimentos, recorrendo até à figura marginalizada da Geni, do clássico de Chico Buarque nos anos 1970. “A questão repousa notadamente em definir qual será o valor probatório do disse-me-disse, da fofoca de gabinete, do burburinho dos corredores, do zum zum zum, que sendo comum em todos os ambientes corporativos e institucionais – a voz da cidade que ora apedreja ora exalta a Geni de Chico Buarque – se qualificam pela volatilidade e imprecisão e, ingressados na seara judiciária, colocam em xeque a própria possibilidade de contraditório e testa os limites do exercício da defesa forense”, argumentam os advogados de Buzzi. Valor dos depoimentos Segundo a defesa de Buzzi, as testemunhas que corroboraram o relato da ex-funcionária não presenciaram nenhum dos sete episódios de assédio relatados pela vítima, o que invalidaria o valor de seus depoimentos como prova. “Não há testemunhas diretas ou presenciais acerca dos eventos imputados pela denunciante. Os relatos dos servidores, sobre os episódios, são meras repetições do que ouviram da representante configurando fofocas e boatos de gabinete. Não deve ser reconhecido valor probatório a tais relatos indiretos, na medida em que apenas ecoam o relato vitimário”, sustenta a defesa. Já sobre os depoimentos do pai da jovem de 18 anos, o time jurídico de Buzzi alega que eles “nada mais apontam do que o relato que – supõe-se – terem ouvido da própria vítima, o que se mostra absolutamente insuficiente para o grau de certeza que se exige para a condenação – e não apenas a criminal, mas também a que se afigura nos autos como verdadeira morte civil do acusado”. Esse argumento, no entanto, já foi rebatido pelos próprios colegas de Buzzi, na sessão secreta em que se decidiu abrir o processo administrativo disciplinar, em abril deste ano. “Em situações como as analisadas neste expediente, os fatos são cometidos, via de regra, de forma clandestina e sem a presença de testemunhas, razão pela qual o valor dos depoimentos das vítimas é aquilatado de forma preponderante”, frisou a ministra Nancy Andrighi.