Enquanto remo, não melhoro o mundo. Nem sequer me torno uma pessoa melhor. Apenas existo melhor 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Caiaques perto da ilha de Strombolicchio, próxima à ilha de Stromboli, ao norte da Sicília — Foto: Marco Bertorello/AFP Comprei um caiaque. Agora entro no mar todas as manhãs. Mal o casco se desprende da areia e a água me aceita, deixo de ser a pessoa que, em terra, responde a mensagens, emite recibos, paga contas e se preocupa com o futuro dos filhos ou com as infiltrações da casa. Durante meia hora sou apenas um homem que avança lentamente sobre uma superfície azul, acompanhado por peixes minúsculos e por esplêndidas aves marinhas. Há dias em que o mar me parece um dispositivo de desmemória, capaz de reiniciar o mundo. Durante aqueles minutos abdico, com uma felicidade clandestina, da minha rígida condição de adulto. Escrevi “adulto” e logo me ocorreu uma palavra mais rigorosa: adultidade. Fui conferir no dicionário. Acreditem: existe! É “o período que, no indivíduo, corresponde à fase adulta”. Os dicionários oferecem até um sinônimo, adultícia, vocábulo tão desgraçado que parece designar uma doença tropical. — Fulano contraiu adultícia. — Coitado. É grave? — Gravíssimo. O prognóstico é reservado. A ciência conhece os sintomas, mas ignora a cura. Acredito que exista tratamento. Não uma remissão total — isso seria exigir demais —, mas algum alívio. Ajuda muito ler um bom romance deitado numa rede. Observar o voo das aves num lento céu de verão. Amar alguém até a amnésia. Rir demoradamente com um amigo. Ou remar. Remar é uma forma superior de irresponsabilidade. Não porque nos afaste da realidade, mas porque nos restitui a um tempo anterior às preocupações. Ao abandonarmos a terra, onde tudo exige um propósito, passamos a deslizar sobre uma superfície líquida, instável, misteriosa, que ignora serventias e utilidades. Os peixinhos não têm profissão conhecida. As garças não se preocupam com horários. As nuvens não são obrigadas a apresentar um plano de voo. O mar não conhece a moral da eficiência; apenas cumpre a obrigação das marés. Adoecemos de adultícia em algum momento entre os 16 e os 30 anos. Não há febre nem dor. Apenas uma lenta substituição da vida pelo seu inventário. Deixamos de passear e passamos a fazer exercício. Já não lemos porque um romance nos chama, nos diverte, nos apaixona, mas porque “ler é instrutivo”. Descansar transforma-se em recuperar energias. Até a felicidade passa a ser administrada como uma obrigação. Talvez o maior triunfo da adultícia consista em nos convencer de que tudo deve servir para alguma coisa — o ócio precisa produzir descanso, e é obrigatório que a alegria apresente bons resultados terapêuticos. Nesse contexto, um pequeno caiaque adquire a dignidade de um navio rebelde. Enquanto remo, não melhoro o mundo. Nem sequer me torno uma pessoa melhor. Apenas existo melhor. E essa simplicidade assume, sobre a água, a grandeza das proclamações essenciais. O remo entra no mar. O mar responde. Uma ave cruza o céu. O vento muda de direção. Nada acontece. Contudo, tudo acontece. Talvez a infância não seja uma idade. Prefiro pensar nela como a capacidade de viver durante alguns minutos sem pedir explicações ao universo. Assim, todas as manhãs, durante meia hora, volto a ser menino. E isso é tão bom.