EUA anunciam novo tarifaço sobre o BrasilNova taxa é resultado de investigação norte-americana sobre trabalho forçado. Crédito: Edição: Júlia PereiraGerando resumoFoto: Helvio Romero/EstadãoLivio RibeiroPesquisador da FGV/Ibre e sócio da consultoria BRCGApesar da alta alíquota estabelecida para o Brasil na nova fase do tarifaço do presidente americano, Donald Trump, os impactos efetivos para a economia tendem a continuar baixos, defende Livio Ribeiro, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre). Mesmo com o tarifaço, promovido pelos Estados Unidos, afetando o País desde o ano passado, as exportações alcançaram um patamar recorde no primeiro semestre de 2026, com crescimento nos negócios com a China e a Europa. O acordo celebrado entre o Mercosul e a União Europeia também promete ajudar no futuro.A tarifa americana de 12,5% sobre produtos importados de dezenas de países, incluindo o Brasil, anunciada na quinta-feira, 23, chegou um dia depois de entrar em vigor outra taxa, de 25%, estabelecida especificamente ao País.A justificativa para a nova taxa foi de que o Brasil e mais 59 economias não combatem de forma efetiva a importação de produtos feitos em países que usam trabalho forçado. A anterior tratava de investigação da seção 301 pelo Escritório do Representante do Comércio dos EUA, com a alegação de prejuízos causados aos Estados Unidos pelo Brasil por conta de práticas comerciais e regulação de comércio digital, Pix, etanol e propriedade intelectual.PublicidadeSegundo Ribeiro, que também é sócio da consultoria BRCG, as negociações entre os dois países devem ficar em segundo plano, devido às dinâmicas eleitorais dominando o segundo semestre deste ano e uma vez que até agora as tarifas resultaram em impacto reduzido para o Brasil. A busca de um acordo comercial, então, não deve ser prioridade no momento.Leia tambémTarifa deixa mercado americano mais distante, mas empresas defendem negociações em vez de retaliaçãoGoverno Lula rechaça nova tarifa, diz que EUA ‘manipulam tema caro’ e fala em acionar reciprocidadeA seguir, a entrevista concedida ao Estadão. Com o anúncio da nova tarifa de 12,5% que afeta produtos brasileiros, somada à de 25% anunciada semana passada especificamente ao País, como ficam as exportações aos EUA?Pelas minhas contas, essa tarifa efetiva de mais de 37% cumulativa para alguns produtos, além do setor de aço e alumínio, que recebeu alíquota de 50%, leva a uma tarifa efetiva chegando a 18% para os produtos brasileiros que vão para os EUA. São muitas as exceções de produtos para as duas tarifas anunciadas. Contabilizadas, chegam a mais de 3 mil. Alguns poucos estão sendo taxados na investigação de trabalho forçado que tinham escapado da tarifa de 25%, anunciada na semana passada, como pescados, café e celulose. É preciso descer ao nível micro para entender quem é impactado. De pronto, ninguém sabe o que entra ou não. A discussão está em cada linha de item comercial.PublicidadeO pesquisador Livio Ribeiro, do FGV-Ibre, considera que dinâmicas eleitorais prejudicam fechamento de um acordo comercial entre Brasil e EUA no momento Foto: Helvio Romero/EstadãoEntão, os efeitos maiores serão específicos em alguns setores?O impacto do tarifaço do ano passado se provou razoável. A balança comercial do primeiro semestre mostrou exportações brasileiras ainda crescendo. O impacto efetivo na economia é muito pequeno, mas o peso grande é o setorial.Qual deve ser o trabalho feito pelo Brasil frente a isso?A briga é para mais produtos entrarem nas exceções. O governo fala de aplicar reciprocidade aos EUA, mas isso parece ser mais discurso do que algo que será realmente adotado. O interesse de acelerar isso é de ninguém. Também discutir tecnicamente não parece o caminho. Tanto a investigação pela seção 301 de trabalho forçado quanto a investigação específica para o Brasil trouxeram um debate que não foi necessariamente técnico. Vale mais continuar usando deliberadamente o varejo e o consumidor industrial americano para defender o nosso ponto, de que é prejudicial para eles o aumento de custos do produto brasileiro.Muitas análises dizem que o desejo do governo Trump é celebrar um acordo comercial com o Brasil, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, também comentou que o tarifaço só vai acabar quando houver um acordo. Ele pode ser negociado agora?Agora, entra uma consideração política e de política econômica. Existe o componente eleitoral aqui e lá. Com efeito mais aqui (nas eleições presidenciais) do que lá (nas eleições para o Parlamento, de meio de mandato presidencial). É o mais relevante na dinâmica eleitoral de tentar fazer pressão aqui por meio das tarifas. Este é o ponto mais central para a economia local. Já para a economia americana, faz mais sentido se preocupar com a tarifa de até 50% anunciada para o Canadá, que é mais relevante para eles, do que com o comércio com o Brasil, que é menor.PublicidadeA partir dos documentos vazados do que seria a proposta americana de acordo com o Brasil, há o pedido de abertura de setores bem protegidos, como o de etanol e industrial, sem contrapartidas da parte dele. Pode fazer mais sentido, também por conta disso, para o governo brasileiro absorver o tarifaço do que fechar um acordo, e apostar na diversificação de mercados para os produtos afetados?Infelizmente, é isso. O que vamos dizer? A discussão vai ficar mais no micro. Existe margem de manobra para mudar a lista de exceções. E as conversas devem se concentrar por aí.
Entrevista | Tarifaço do Trump: impacto efetivo na economia é muito pequeno, diz pesquisador
Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV/Ibre, não acredita que um acordo comercial entre Brasil e EUA seja finalizado para evitar as tarifas tão cedo; setores específicos vão absorver os efeitos das taxas











