Projeto fotográfico original de 1966, realizado por Flávio Damm, havia sido engavetado pela repressão da ditadura militar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fotografia de Flávio Damm retrata a cena do trabalho sexual em Salvador na década de 1960 — Foto: Flávio Damm/Divulgação/Cândido Damm RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O projeto fotográfico original de 1966, idealizado por Jorge Amado, acabou engavetado pela ditadura militar. As imagens só foram reveladas ao público em 2018. O romance de estreia 'Ressalga' acompanha três gerações de mulheres na Bahia. A narrativa mistura ficção com fatos históricos marcantes do século XX. A autora resgata a memória da Ladeira da Montanha após constatar o apagamento feminino na historiografia oficial. Ela divide mesa na Flip com Nathacha Appanah. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A escritora Bethânia Pires Amaro apresenta em sua mesa na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta sexta-feira (24), às 17h, um resgate de fotos históricas feitas a pedido de Jorge Amado. Em 1966, o fotógrafo Flávio Damm retratou cabarés e mulheres que trabalhavam na prostituição numa região boêmia de Salvador. A ideia era que as imagens integrassem o livro “Mulher-dama”, projeto do escritor baiano que acabou engavetado por causa da repressão da ditadura militar. — Essas fotografias são o único registro existente dessas mulheres e conversam diretamente com meu livro — conta Bethânia. Em “Ressalga”, seu romance de estreia, a autora pernambucana criada na Bahia dá voz a essas mulheres ao criar a saga de três gerações marcadas por violências e decepções amorosas. Cabe a Flora, narradora do livro, fazer o resgate do passado, contando as desventuras da avó no interior da Bahia e da mãe, uma mulher que fascinava homens com sua beleza e talento para contar histórias. Na obra ficcional, os dotes e a audácia de Graça a fazem comandar seu próprio cabaré em uma das emblemáticas ladeiras que ligam a Cidade Alta e Baixa de Salvador. Fotografia de Flávio Damm retrata a cena do trabalho sexual em Salvador na década de 1960 — Foto: Flávio Damm/Divulgação/Cândido Damm No AI-5, projeto suspenso Segundo Bethânia, Jorge Amado precisou pedir pessoalmente acesso a cafetinas para que as fotografias fossem feitas por Damm. No entanto, logo depois veio o AI-5 e, por conta da repressão, ele acabou abandonando o projeto do livro. As fotografias foram engavetadas e passaram décadas na obscuridade, até que, em 2018, foi organizada uma mostra fotográfica com elas em Salvador. — A curadora, Silvana Olivieri, queria resgatar a memória de espaços considerados incômodos e por isso invisibilizados — diz a escritora, que na época já morava em São Paulo e só soube das fotos anos depois, ao fazer a pesquisa para o livro. — Quando decidi escrever, logo descobri esse projeto de Jorge Amado e Flávio Damm e tive ainda mais certeza de que havia uma história ali para ser contada. A Flip me deu essa oportunidade de mais uma vez projetar esse belíssimo trabalho fotográfico e mostrar de perto o rosto de mulheres que, apesar dos muitos abusos sofridos e do absoluto apagamento oficial, marcaram uma geração. A história delas caminhou junto com a história do Brasil e da Bahia. E todas essas histórias estão ali intrincadas em “Ressalga”. Com uma escrita polifônica e envolvente como os causos narrados pelas protagonistas, a escritora de 37 anos faz o leitor mergulhar na diversidade da Bahia do século XX, das águas do interior à efervescência da capital até os anos 1970. São mulheres que se divertem, sofrem, se apaixonam e caem em desgraça. Ficção, mas com fundo histórico. Fora alguns momentos mágicos, o enredo de Janaína, Graça e Flora é condizente com a realidade de muitas brasileiras, e suas tramas se entrelaçam a períodos marcantes do país, como a morte de Getúlio Vargas e a ditadura militar. — Eu comecei a escrever “Ressalga” a partir da vontade de recuperar um pouco da história da Ladeira da Montanha, que hoje está praticamente em ruínas. É uma região que habita o imaginário da cidade— diz a escritora. Fotografia de Flávio Damm retrata a cena do trabalho sexual em Salvador na década de 1960 — Foto: Flávio Damm/Cortesia acervo do artista/Cândido Damm Durante a pesquisa, a autora percebeu que as mulheres haviam sido praticamente apagadas da historiografia oficial. — Não encontrei nada que estivesse de fato na voz de uma dessas mulheres. Para entender como elas haviam chegado até ali, era preciso compor um mosaico a partir da memória dos homens — afirma. Bethânia lembra que a região reunia intelectuais, artistas, políticos e figuras lendárias de Salvador, como a Mulher de Roxo e Maria da Vovó. A mesa de Bethânia contará também com a participação da escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah. Em comum, seus livros revelam inúmeras formas de violência a que são submetidas suas personagens. Nathacha foi a ganhadora do Femina 2025 com um dos romances de maior repercussão no ano passado na França. Já a brasileira teve o primeiro livro, “Ninho”, vencedor dos prêmios Sesc de Literatura, APCA e Jabuti (Contos). Apesar de falar com entusiasmo sobre a pesquisa, Bethânia prefere que a trama seja conhecida durante a leitura. — Acho sempre melhor entrar no livro o mais às cegas possível, para se deixar surpreender.
Destaque na Flip, livro de Bethânia Pires Amaro dá voz a trabalhadoras sexuais retratadas a pedido de Jorge Amado
Projeto fotográfico original de 1966, realizado por Flávio Damm, havia sido engavetado pela repressão da ditadura militar









