Há anos nutro uma admiração improvável pela banda ucraniana DakhaBrakha. Começou durante a pandemia, quando ouvi pela primeira vez a música "Baby", sugerida por um aplicativo.

A canção começa com um vocal masculino e alterna a um coral de mulheres em ucraniano. Não compreendo uma palavra daquele canto, mas ele sempre me conduz a um lugar de bênção e de magia. As boas músicas têm esse poder: aproximam-nos do sagrado, seja qual for o idioma.

Quando, em março deste ano, encontrei-me com Oleksandra Matviichuk, advogada ucraniana laureada com o Nobel da Paz em 2022, falamos dos crimes documentados durante a guerra e o cotidiano de um povo obrigado a sobreviver sob bombardeios.

Na manhã seguinte, voltamos a conversar. Dessa vez, DakhaBrakha era minha carta na manga. Oleksandra sorriu; conhecia de cor. Perguntou se eu já havia escutado "Dytyatochko", composição recente inspirada no roubo de crianças ucranianas pelas autoridades russas durante a guerra.

Respondi que não. E acrescentei, um tanto em choque, que aquela era a primeira vez que eu ouvia falar daquela prática.