O Departamento de Justiça (DOJ) americano informou nesta quinta-feira que vai retirar as intimações que solicitavam registros telefônicos e depoimentos perante o júri de jornalistas do jornal New York Times que haviam noticiado as capacidades de segurança do novo avião presidencial Air Force One, fabricado no Catar. A medida ocorre depois que o juiz Arun Subramanian interrogou os advogados do DOJ por quase uma hora sobre a forma como lidaram com as intimações, que o jornal havia tentado anular. O NYT classificou as intimações como uma tentativa de intimidar seus repórteres. — O governo está preparado para retirar unilateralmente as intimações neste momento — disse Sean Buckley, um dos funcionários de mais alto escalão do escritório do procurador dos EUA em Manhattan, em uma audiência no Tribunal Distrital dos EUA. Subramanian afirmou que o Departamento de Justiça não estava impedido de intimar novamente os repórteres, caso o governo seguisse os procedimentos adequados. O caso tornou-se um ponto crítico nos esforços da administração Trump para aumentar a pressão sobre as organizações de notícias independentes. As intimações aos jornalistas Julian E. Barnes, Eric Lipton, Tyler Pager e Eric Schmitt determinavam apenas que eles prestassem depoimento "a respeito de uma suposta violação da legislação criminal federal", sem detalhar a investigação. Elas foram emitidas por Jay Clayton, procurador federal em Manhattan e indicado recentemente por Trump para dirigir a Inteligência Nacional americana. As medidas foram adotadas após a publicação de duas reportagens sobre o novo avião presidencial. A primeira disse que, após participar da cúpula da Otan, Trump deixou a Turquia utilizando um modelo mais antigo do Air Force One por recomendação do Serviço Secreto. A segunda revelou que a aeronave doada pelo Catar não possuía alguns dos recursos avançados de segurança presentes no avião anterior, incluindo sistemas antimísseis. Ambas citaram fontes que falaram sob anonimato. Bandeira americana tremula sobre o novo Air Force One — Foto: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP Antes da publicação da primeira reportagem, um alto funcionário do FBI entrou em contato com um repórter e um editor sênior do NYT para pedir que a publicação do texto fosse adiada, alegando tratar-se de uma questão de segurança nacional. Segundo o jornal, o representante do FBI não explicou qual seria o risco envolvido e também solicitou que o veículo revelasse suas fontes. O pedido foi recusado. Novo Air Force One O novo Air Force One entrou em operação no início do mês, após o governo investir cerca de US$ 400 milhões (R$ 2 bilhões) para adaptar e modernizar a aeronave recebida do Catar. Trump viajou para a Turquia no novo avião, mas embarcou em um modelo mais antigo para deixar o país com destino à base aérea de Mildenhall, na Inglaterra. O novo Air Force One também voou até a base britânica, onde o presidente voltou a embarcar na aeronave para seguir viagem até a Base Conjunta Andrews, nos EUA. A troca de aeronaves ocorreu em meio ao agravamento das tensões no Oriente Médio. O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã já havia entrado em colapso após ataques americanos ao território iraniano e ações militares de Teerã contra três países árabes do Golfo na ocasião. Como Irã e Turquia compartilham uma fronteira, surgiram especulações de que o novo Air Force One não estaria equipado com todos os sistemas de defesa considerados necessários para uma situação de risco elevado. Sistemas de defesa, blindagem e autonomia estendida: Conheça o Air Force One, avião presidencial dos EUA Segundo o NYT, a decisão de utilizar dois aviões partiu de uma recomendação do Serviço Secreto, diante da ausência de alguns recursos de proteção na aeronave recém-incorporada à frota presidencial. Trump negou qualquer problema de segurança e afirmou que a parada em Mildenhall ocorreu apenas para permitir que militares americanos conhecessem o novo avião. Durante o voo, também rejeitou que ameaças iranianas tivessem motivado a mudança de aeronave. — Estou sob ameaça o tempo todo. Sou o número um da lista deles — disse Trump ao ser questionado se tinha conhecimento de ameaças críveis do Irã contra o Air Force One. Posteriormente, a Casa Branca afirmou que o novo avião atende aos padrões de segurança exigidos para o transporte presidencial. "O novo Air Force One é uma aeronave de última geração equipada com protocolos de segurança de alto nível que garantem a segurança do presidente e de sua equipe", afirmou em comunicado o porta-voz Steven Cheung, acrescentando que o governo utiliza diferentes estratégias para enfrentar ameaças ao republicano. "Como o presidente disse recentemente, há muitos inimigos dos Estados Unidos que o têm como alvo, e usamos todas as ferramentas à nossa disposição, incluindo distração e despiste, para enfrentar essas ameaças". Donald Trump embarca em novo Air Force One, doado pelo Catar, em imagem de 1º de julho; reportagens sobre a aeronave levaram à intimação de jornalistas do NYT — Foto: Doug Mills/The New York Times O Departamento de Justiça, por sua vez, declarou na ocasião que a investigação não tinha como alvo os jornalistas, mas os responsáveis por eventuais vazamentos de informações sigilosas. Em nota, a porta-voz Emily Covington disse que o governo reconhece a importância da imprensa, mas argumentou que também precisa garantir o cumprimento das normas sobre o uso de informações sigilosas. "Os repórteres não são os alvos; quem vaza informações sigilosas é que são. Valorizamos e reconhecemos o importante papel que a imprensa desempenha neste país, mas o Departamento de Justiça também tem um papel importante em garantir que as pessoas encarregadas dos segredos da nossa nação façam o que devem fazer com essas informações", disse o comunicado, indicando que o governo continuará investigando casos de vazamento. "Reconhecemos que sempre pode haver uma tensão natural nesse processo, mas não vamos ignorar a lei".