BCE manteve os juros inalterados, mas trouxe um tom mais duro sobre a política monetária Operadores na bolsa de valores Euronext NV em Paris — Foto: Benjamin Girette/Bloomberg Os principais índices de ações europeus fecharam em queda nesta quinta-feira (23), em linha com um movimento de maior cautela nos mercados internacionais, após os houthis atacarem navios petroleiros da Arábia Saudita no Mar Vermelho, representando uma nova escalada de tensões no Oriente Médio. Os preços do petróleo apresentam forte valorização, com o Brent chegando a encostar em US$ 100, e pressionam o desempenho dos ativos de risco. Os investidores também repercutiram a decisão do Banco Central Europeu (BCE), que manteve os juros inalterados, mas trouxe um tom mais duro sobre a política monetária. No fechamento, o índice pan-europeu Stoxx 600 teve queda de 1,30%, aos 638,50 pontos. O FTSE 100, da Bolsa de Londres, caiu 0,73%, aos 10.639,17 pontos, e o DAX, de Frankfurt, recuou 1,56%, aos 24.763,12 pontos. O CAC 40, de Paris, registrou perda de 1,64%, aos 8.299,09 pontos. Entre os destaques, uma queda expressiva nas ações de fabricantes de chips e semicondutores contribuiu para pesar sobre o desempenho das bolsas europeias. As ações da STMicroelectronics caíram 9,77%, após a empresa projetar uma receita para o terceiro trimestre cujo ponto médio ficou ligeiramente abaixo das expectativas do mercado. A BE Semiconductor recuou 7,34%, também depois de informar seus resultados financeiros. Por outro lado, a Soitec subiu 21,64%, depois de a receita vir melhor que o esperado. Ainda na temporada de balanços, a Nestlé terminou o dia em forte queda de 7,66%, depois de divulgar seus resultados, apesar de ter elevado sua projeção para crescimento das vendas em 2026. A empresa também informou que espera levantar cerca de US$ 3,43 bilhões com a venda de parte de sua divisão de águas e bebidas premium. A TotalEnergies avançou 2,54%, após divulgar o maior lucro trimestral em quase três anos, impulsionado pelos preços mais altos do petróleo e pelas fortes margens de refino. Os preços do petróleo dispararam nesta quinta-feira, com o contrato futuro do Brent chegando a US$ 100 por barril, após os houthis, apoiados pelo Irã, reivindicarem o ataque a navios petroleiros da Arábia Saudita no Mar Vermelho. A rota vinha sendo usada como uma maneira de contornar o bloqueio ao Estreito de Ormuz, e a ofensiva contribui para sufocar ainda mais o tráfego de petróleo pelo Oriente Médio. O episódio representa uma escalada significativa no conflito, e o presidente americano, Donald Trump, prometeu uma "punição severa" em resposta. A continuidade das hostilidades no Oriente Médio pesa em especial sobre a Europa, na medida em que o continente depende da exportação de energia. No cenário macroeconômico, o Banco Central Europeu (BCE) manteve a principal taxa de juros da zona do euro em 2,25% ao ano, após realizar seu primeiro aperto monetário desde 2023 na reunião anterior, no mês passado. Em coletiva de imprensa após a decisão, a presidente da autarquia, Christine Lagarde, disse que a votação foi unânime, mas parte do comitê de política monetária se questionou sobre a possibilidade de mais uma alta de juros. Ela pontuou que "alguns dirigentes se questionaram" se uma alta de juros seria o melhor caminho. No entanto, de acordo com ela, ao analisar os dados "percebemos que estamos bem posicionados para esperar enquanto acompanhamos os desdobramentos". Lagarde foi questionada se isso seria uma sinalização de uma alta de juros na reunião de setembro, mas ela reiterou a abordagem dependente de dados e "reunião a reunião" do BCE no momento. No entanto, participantes do mercado acreditam que a autoridade monetária está inclinada a voltar a elevar juros. "A incerteza é elevada, mas não se enganem: a pausa do BCE em julho não reflete dúvidas. Trata-se de uma pausa enquanto o banco atualiza suas projeções e cenários, antes de voltar a elevar os juros em setembro", afirma Mark Wall, economista-chefe do Deutsche Bank para a Europa.