A caixa de entrada virou uma combinação de spam e lixeira, onde nem 10% do que chega tem relevância 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ofertas e-mail — Foto: André Mello RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A evolução dos meios de comunicação transformou o ambiente de trabalho. O e-mail, que antes representava uma revolução instantânea, substituiu ferramentas tradicionais como o fax e o telegrama. Atualmente, o WhatsApp suplantou o correio eletrônico no cotidiano profissional. Essa mudança trouxe o desafio de impor limites diante do fluxo constante de mensagens invasivas. As caixas de entrada tornaram-se depósitos de publicidade indesejada e spam. Menos de 10% das mensagens recebidas atualmente possuem real relevância para os usuários. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Lá no final dos anos 1990, quando comecei a trabalhar, ainda peguei o aparelho de fax como o método mais prático de comunicação com as redações de jornal. A gente ligava e pedia o sinal. Aquele zumbido tranquilizador emitido pela máquina, atestando que a mensagem estava em vias de ser entregue ao destinatário. E depois a clássica ligação para se certificar: chegou? Do outro lado, havia duas possibilidades de respostas: chegou (ufa!) ou não chegou, manda de novo. E o processo recomeçava: pede o sinal, o zumbido do telefone, o cuidado para o papel não deslizar errado na máquina e a pessoa do outro lado receber tudo torto. Antes do fax houve o telex, o telegrama e, ainda antes, a carta. Essa, coitada, se não morreu de vez, respira por aparelhos. Quando vim morar no meu apartamento, pedi ao antigo proprietário a chave do escaninho de correspondências. Ele, um senhor português muito divertido, respondeu, bem sincero: “Não tenho a chave, lá só chegam contas. Quem é que vai querer lhe roubar contas? E, se roubar, é um favor que lhe faz.” Mas a revolução na comunicação, especialmente no trabalho, veio com o e-mail. O que era aquilo? A mensagem chega imediatamente, você pode mandar ao mesmo tempo para quantos destinatários desejar, pode anexar arquivos de imagem ou de texto, se por qualquer razão a mensagem não chegar, é enviado um aviso automaticamente. Era bom demais para ser verdade! Mas na eterna evolução da comunicação, o e-mail foi suplantado pelo WhatsApp. Amigos de diferentes áreas de trabalho (médicos, terapeutas, jornalistas, advogados) dizem que as mensagens invasivas — orçamentos, sugestões de pauta, pedidos de receitas médicas — chegam a todo momento, não importa o dia e a hora. O destinatário é obrigado a colocar limite no quanto a comunicação instantânea irá incomodar. Desde a semana passada, estou à espera de um e-mail importante de trabalho. Mas toda vez que volto à minha caixa de entrada, o que encontro é e-mail da loja de roupas em que só fiz o cadastro para efetuar a troca de um presente, e-mail da loja de chocolates onde comprei na Páscoa, e-mail da loja de café onde compro cápsulas, e-mail da casa de shows com a programação do mês, e-mail da loja onde comprei um colchão há três anos, do banco onde sequer tenho conta, e-mails do shopping, da livraria, da companhia aérea, do site de ingressos, da programação do streaming, da empresa de dedetização, da galeria de arte, da empresa de entrega de comida, do aplicativo de transporte, do petshop, da loja de perfumes, da rede social que não acesso, do hotel onde me hospedei no Nordeste há quatro anos. Consumo, consumo, consumo... Socorro! Não me lembro de ter solicitado tanta informação, sobre tantas empresas. Ainda que fossem mensagens do meu interesse, não haveria transtorno de ansiedade nem cartão de crédito que dessem conta. Num misto de exaustão, rebeldia e liberdade, decidi cancelar, um a um, todos esses envios. Encham a caixa de outros, a minha não! Mas logo desisti, depois de concluir que a função me tomaria uma tarde inteira. Fui derrotado pela força do e-mail marketing. A caixa de entrada do e-mail virou, na verdade, uma combinação de spam e lixeira, onde nem 10% do que chega tem relevância. Aquele e-mail importante de trabalho? Ainda não chegou. Deve estar vindo por fax.