Estudo da GBTA revela que a maioria das empresas ainda não possui uma visão consolidada de seus programas de viagens, dificultando o uso estratégico da inteligência artificial e reforçando a importância da governança de dados Divulgação — Foto: Divulgação A inteligência artificial passou a ocupar um espaço central nas estratégias de transformação digital das empresas. No mercado de viagens corporativas, não é diferente. Automatização de processos, recomendações inteligentes, previsibilidade e apoio à tomada de decisão estão entre as principais promessas da tecnologia. No entanto, existe um obstáculo que costuma receber menos atenção do que deveria: a qualidade e a integração dos dados que alimentam esses sistemas. Quando informações sobre reservas, despesas, fornecedores, políticas de viagens e comportamento dos viajantes permanecem dispersas entre diferentes plataformas e parceiros, a inteligência artificial perde sua principal matéria-prima. Em vez de gerar análises consistentes e apoiar decisões estratégicas, passa a operar sobre uma visão parcial da realidade. Esse diagnóstico foi reforçado por um estudo divulgado em maio de 2026 pela Global Business Travel Association (GBTA), em parceria com Spotnana, Marriott International e Direct Travel. A pesquisa Innovation and the Perfect Business Trip: AI, TMC Innovation and Hotel Distribution, realizada com 269 gestores de viagens corporativas da América do Norte e da Europa, revelou um descompasso entre o entusiasmo em torno da inteligência artificial e os resultados efetivamente percebidos pelas empresas. Segundo o levantamento, 58% dos entrevistados afirmam que a IA teve pouco ou nenhum impacto concreto em seus programas de viagens. Os próprios dados ajudam a explicar esse cenário: apenas 12% das organizações possuem uma visão consolidada de seus programas de viagens em uma única fonte de dados; 63% convivem com relatórios fragmentados; 61% consideram difícil gerenciar viagens entre diferentes regiões; e 52% operam com múltiplas empresas de gestão de viagens (TMCs), o que amplia a dispersão das informações e dificulta uma gestão orientada por dados. Os números mostram que o desafio para ampliar o uso da inteligência artificial vai além da adoção de novas ferramentas. Antes de discutir algoritmos mais sofisticados, as empresas precisam garantir que suas informações sejam confiáveis, integradas e capazes de oferecer uma visão completa da operação. Existe uma expectativa de que a inteligência artificial seja capaz de resolver problemas históricos de gestão. Na prática, porém, ela potencializa aquilo que já existe. Se a base de dados é fragmentada, os resultados também serão. Se as informações são incompletas ou inconsistentes, as recomendações geradas dificilmente refletirão a realidade do negócio. Esse cenário também ajuda a explicar outro dado do estudo. Ao escolher uma empresa de gestão de viagens (TMC), os compradores atribuem 54% do peso à tecnologia e 46% à qualidade do atendimento. A proximidade entre esses percentuais demonstra que inovação não depende apenas de plataformas mais modernas, mas da capacidade de transformar dados dispersos em inteligência para apoiar decisões. Nesse contexto, o papel das empresas especializadas em gestão de viagens corporativas também evolui. Mais do que operacionalizar reservas ou negociar tarifas, elas passam a atuar como parceiras estratégicas das organizações, integrando informações, estruturando indicadores, apoiando a governança dos dados e oferecendo uma visão consolidada da mobilidade corporativa. Na Voetur Viagens, essa transformação faz parte da evolução da própria gestão de viagens. "Existe uma expectativa muito grande em torno da inteligência artificial, mas ela não substitui uma base de dados bem estruturada. Sem informações integradas, confiáveis e atualizadas, qualquer tecnologia terá limitações para gerar análises consistentes e apoiar decisões estratégicas", afirma Humberto Cançado, Sócio-Diretor na Voetur Viagens. Segundo o executivo, o mercado começa a compreender que a maturidade digital não está apenas na adoção de novas ferramentas, mas na capacidade de organizar informações e transformá-las em conhecimento. "Hoje, o maior diferencial competitivo não é simplesmente ter acesso à inteligência artificial. É criar um ambiente em que ela consiga entregar valor para o negócio. Isso passa, necessariamente, por governança de dados, integração de sistemas e gestão especializada." A discussão sobre inteligência artificial nas viagens corporativas, portanto, talvez esteja sendo conduzida pela perspectiva errada. O desafio mais urgente não é descobrir qual plataforma possui os algoritmos mais avançados, mas garantir que exista uma base única, consistente e confiável para orientar decisões. A tecnologia continuará evoluindo em ritmo acelerado. Mas, enquanto os dados permanecerem fragmentados, a inteligência artificial seguirá operando com uma visão incompleta do negócio. E nenhuma empresa consegue tomar decisões verdadeiramente inteligentes quando enxerga apenas parte da informação.