Caciques do Centrão afirmam que discurso reacendeu dúvidas sobre a capacidade do senador de ampliar alianças para além da base bolsonarista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flávio Bolsonaro discursa para plateia de representantes do corpo diplomático de 42 países — Foto: Divulgação Novo Selo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/07/2026 - 13:04 Flávio Bolsonaro radicaliza discurso e preocupa partidos do Centrão Sob pressão das pesquisas, Flávio Bolsonaro adota discurso mais radical e retoma a identidade bolsonarista do pai, Jair Bolsonaro. A mudança, que inclui críticas ao STF e questionamentos sobre urnas eletrônicas, preocupa partidos do Centrão, essenciais para alianças eleitorais. A estratégia, que reacende símbolos do bolsonarismo, tenta consolidar a base antes de atrair novos eleitores. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Pressionado pelas pesquisas e por uma sequência de desgastes na pré-campanha ao Planalto, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a endurecer o discurso e a incorporar elementos da estratégia política do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), após meses em que sua campanha tentou apresentar um perfil mais moderado. A mudança aparece nas críticas às urnas eletrônicas, na retomada dos ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes, na defesa de pautas e narrativas que marcaram o governo Bolsonaro, na aposta em lives inspiradas nas transmissões semanais do ex-presidente e no resgate de símbolos que consolidaram sua identidade política. O movimento começou a provocar preocupação justamente entre partidos que o PL tenta atrair para a chapa presidencial. Segundo dirigentes e parlamentares do Centrão ouvidos pelo GLOBO, o discurso de Flávio a diplomatas estrangeiros, quando voltou a levantar alegações falsas sobre as urnas eletrônicas e defendeu o envio de observadores internacionais para acompanhar as eleiçõe, reacendeu dúvidas sobre sua capacidade de ampliar alianças para além da base bolsonarista. Em nota divulgada depois da repercussão do episódio, a pré-campanha do senador voltou a negar que tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil. Assinado por Flávio, pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da pré-campanha, e por Maria Claudia Bucchianeri, coordenadora jurídica da empreitada eleitoral bolsonarista, o texto afirma que, em sua fala aos diplomatas, o pré-candidato "se limitou a relatar dois fatos públicos e amplamente divulgados pela imprensa". Reservadamente, membros das cúpulas de União Brasil, PP e Republicanos afirmam que a fala reforçou a percepção de que o senador está cada vez mais próximo da retórica do pai e mais distante do perfil pragmático apresentado no início da pré-campanha, algo almejado pelo Centrão como condição para apoiar sua candidatura. A avaliação contrasta com o plano desenhado pela campanha quando Flávio foi escolhido pelo PL para disputar o Palácio do Planalto. Desde o lançamento da pré-candidatura, em dezembro do ano passado, auxiliares trabalharam para construir uma identidade própria para o senador, mais distante da retórica do pai. A ideia era preservar o legado de Bolsonaro, mas apresentar um candidato menos confrontador, capaz de dialogar com outros partidos e ampliar o alcance da direita. Nos bastidores, integrantes da campanha chegaram a definir Flávio como um Bolsonaro mais moderado, alguém que compartilharia as mesmas bandeiras do pai, mas evitaria os embates institucionais que dificultaram alianças durante o governo. Essa tentativa também apareceu na postura pública do senador, que já nos primeiros meses da pré-campanha tentou reduzir o tom das críticas ao STF e a Alexandre de Moraes, priorizando agendas voltadas à apresentação de propostas e evitando reproduzir os principais confrontos travados pelo pai com o Judiciário. A expectativa era que esse perfil facilitasse as negociações com o Centrão, partidos considerados essenciais para ampliar o tempo de televisão, assim como poderia ajudar a atrair eleitores independentes — que, na avaliação da pré-campanha, serão os definidores do resultado de outubro. A inflexão começou logo após a crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o financiamento do filme Dark Horse. A repercussão do episódio, somada às dificuldades enfrentadas pela campanha nas pesquisas e às turbulências internas provocadas pelo rompimento público com Michelle Bolsonaro, levou integrantes da equipe a concluir que seria necessário consolidar novamente o eleitorado bolsonarista antes de tentar conquistar novos segmentos. A avaliação passou a ser a de que a candidatura corria o risco de perder sua base sem conseguir avançar entre eleitores moderados. O diagnóstico, porém, não é unânime no entorno de Flávio, que ainda tem presente ao seu redor aliados que defendem uma moderação do discurso. Foi nesse contexto, também, que vídeos do ex-presidente passaram a aparecer com mais frequência nas redes sociais de Flávio, jingles começaram a explorar de forma mais explícita o legado do pai e agendas pelo país passaram a reproduzir cenas que marcaram o bolsonarismo nos últimos anos. Em viagens, apoiadores foram mobilizados para recepcionar o senador em aeroportos, repetindo um ritual que se tornou comum durante o governo Bolsonaro. Nos eventos, os gritos de "mito", que haviam perdido espaço no início da pré-campanha, voltaram a ser ouvidos. Outro ponto similar adotado recentemente pela campanha foram as transmissões ao vivo, que se transformaram em uma das principais ferramentas para responder a crises e falar diretamente com os apoiadores, reproduzindo um modelo consolidado por Bolsonaro durante a Presidência. Em uma live recente, organizada após decisão de Moraes que restringiu por 90 dias as visitas de Flávio ao pai, o senador apareceu em uma sacada no Rio de Janeiro, tendo apenas uma bandeira do Brasil ao fundo. O cenário improvisado e o formato mais espontâneo foram comemorados por integrantes da equipe, que notaram maior engajamento na ofensiva, e foi repetido na semana seguinte durante uma live com a Daniella Marques, cotada a vice, para apresentar o plano de governo voltado ao público feminino. A mudança também se refletiu no discurso. Depois de meses evitando confrontos diretos com o STF, Flávio voltou a intensificar críticas à Corte e voltou a citar nominalmente o ministro Alexandre de Morais, visto por aliados bolsonaristas como “algoz” de Bolsonaro. Nessa esteira, o senador passou a afirmar que o ministro poderia desequilibrar as eleições por meio dos inquéritos sob sua relatoria e retomou argumentos que haviam sido deixados em segundo plano no início da campanha. O movimento, porém, atingiu seu ponto mais evidente nesta terça-feira, quando Flávio se reuniu com diplomatas estrangeiros e defendeu uma maior fiscalização internacional do processo eleitoral, repetindo uma estratégia semelhante à adotada por Bolsonaro em 2022 — e que acabou sendo o pivô para a declaração, posteriormente, de sua inelegibilidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A aproximação com o estilo do ex-presidente também passou a ser percebida dentro do próprio campo conservador. Integrantes da ala mais moderada do bolsonarismo afirmam, reservadamente, que o senador deixou de lado a imagem construída nos primeiros meses da campanha e voltou a reproduzir o comportamento político do pai. Um aliado resumiu a avaliação dizendo que "esse não era o candidato" apresentado no lançamento da pré-candidatura. Apesar da sequência de movimentos, integrantes da campanha negam que exista uma orientação deliberada para radicalizar o discurso. Segundo interlocutores, o endurecimento parte do próprio Flávio, que estaria indignado com decisões judiciais envolvendo Bolsonaro e com a atuação de Moraes. Outro integrante da equipe afirma que não houve mudança de estratégia e diz que o tom do senador varia de acordo com o momento político. Ao mesmo tempo em que reforça a identificação com Bolsonaro, a campanha tenta preservar iniciativas voltadas à ampliação do eleitorado. O principal exemplo é o programa Brasil por Elas, lançado após a crise com Michelle Bolsonaro. A iniciativa reúne propostas como zerar a fila de creches, criar um benefício para mães que não conseguem vaga para os filhos, ampliar o acesso à internet, desenvolver uma ferramenta de inteligência artificial para orientar mulheres em temas como saúde e segurança, incentivar o empreendedorismo feminino e fortalecer políticas de cuidado. O programa será apresentado em uma caravana nacional liderada por Fernanda Bolsonaro, esposa do senador, pela economista Daniella Marques e pela deputada Simone Marquetto (PP-SP), também cotada para vice de Flávio. A avaliação da campanha é que a iniciativa pode reduzir a resistência ao bolsonarismo entre as mulheres, um dos segmentos em que a direita enfrenta maior dificuldade.