Nenhum país consegue construir competências nucleares relevantes no momento em que decide precisar delas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Complexo de Angra — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/07/2026 - 22:02 Lula destaca importância de investimentos contínuos em soberania nacional A soberania nacional não pode ser improvisada, destaca o presidente Lula, ressaltando a importância da preparação. A história da tecnologia nuclear ilustra essa lição: competências estratégicas exigem continuidade e investimento a longo prazo. Alessandro Facure, presidente da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, reforça que a verdadeira preparação estatal está na construção e preservação de capacidades ao longo do tempo. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO ‘Não quero guerra nem ser pego de surpresa.’ A frase do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao defender a importância da preparação nacional, provocou interpretações variadas. A discussão política é legítima. Ainda assim, talvez o aspecto mais interessante da declaração esteja em outro lugar. Ela leva a uma pergunta antiga, que acompanha a própria formação dos Estados modernos: por que os países investem em capacidades cujo uso talvez jamais venha a ser necessário? A história da tecnologia nuclear oferece uma resposta particularmente esclarecedora. Em dezembro de 1942, sob as arquibancadas de um estádio da Universidade de Chicago, uma equipe liderada pelo físico Enrico Fermi realizou a primeira reação nuclear em cadeia controlada da História. O experimento durou poucos minutos. Seus efeitos permanecem conosco mais de 80 anos depois. Naquele momento, ninguém poderia prever todas as consequências do domínio do átomo. Em poucas décadas, a tecnologia nuclear alterou o equilíbrio de poder internacional, impulsionou avanços científicos de enorme relevância e deu origem a aplicações que hoje estão presentes na medicina, na indústria, na agricultura e na produção de energia. Poucas tecnologias exerceram influência tão ampla e simultânea sobre a ciência, a organização do Estado e as relações internacionais. O setor nuclear passou a reunir três dimensões que raramente se encontram de forma tão intensa em uma mesma atividade. A primeira é tecnológica. O domínio do átomo exige conhecimento científico sofisticado, infraestrutura complexa e profissionais cuja formação leva muitos anos. A segunda é política. Programas nucleares dependem de decisões que frequentemente ultrapassam ciclos de governo e exigem instituições permanentes, capazes de preservar conhecimento e coordenar ações ao longo de décadas. A terceira é estratégica. Nenhum país consegue construir competências nucleares relevantes no momento em que decide precisar delas. Esse talvez seja o ensinamento mais importante que a experiência nuclear oferece. Certas capacidades nacionais simplesmente não podem ser produzidas sob demanda. Não se improvisam cientistas, engenheiros, laboratórios especializados, sistemas regulatórios robustos ou culturas institucionais de segurança em resposta a circunstâncias inesperadas. Essas competências exigem continuidade, investimento persistente e, sobretudo, tempo. O século XXI tem fornecido exemplos eloquentes desse fenômeno. A pandemia expôs a dependência de muitos países em relação a cadeias de suprimento consideradas estáveis. A disputa por semicondutores, minerais críticos e tecnologias associadas à inteligência artificial mostrou que determinadas capacidades produtivas e científicas se converteram, novamente, em ativos estratégicos. Em cada um desses casos, o problema não surgiu quando as dificuldades apareceram. O problema começou muitos anos antes, quando competências foram negligenciadas ou consideradas dispensáveis. Como presidente da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, convivo diariamente com uma realidade que ilustra esse dilema. Instituições técnicas não são constituídas apenas de edifícios, equipamentos ou normas. Seu principal patrimônio reside nas competências que conseguem acumular e transmitir entre gerações: pessoas qualificadas, conhecimento especializado, métodos de trabalho e capacidade de tomar decisões em ambientes de elevada complexidade. Vista por essa perspectiva, a preocupação de não ser surpreendido deixa de ser uma referência a um episódio específico e passa a expressar um princípio mais permanente da ação estatal. Nenhum governo é capaz de antecipar com precisão os desafios que surgirão nas próximas décadas. Os Estados mais resilientes não são aqueles que conseguem prever o futuro. São aqueles que preservam, mesmo em períodos de aparente normalidade, capacidades que ampliam sua liberdade de escolha quando o inesperado finalmente acontece. A soberania de um país não reside apenas naquilo que ele possui. Ela depende, em larga medida, daquilo que ele foi capaz de construir antes de precisar utilizar. *Alessandro Facure é diretor-presidente da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear