Sem perspectivas concretas de expansão, talentos acabam migrando para outros segmentos da economia ou para o exterior 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Complexo de Angra dos Reis — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/07/2026 - 22:11 Futuro incerto do setor nuclear no Brasil ameaça talentos locais O setor nuclear enfrenta um desafio silencioso no Brasil: a falta de um projeto claro para seu futuro, o que gera incertezas sobre quem operará o segmento. Apesar do interesse de jovens e da formação de profissionais qualificados, a falta de contratações e expansão leva talentos a migrar para outros setores ou para o exterior. É urgente definir uma política de Estado para integrar a tecnologia nuclear em áreas como indústria, saúde e defesa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O debate sobre o futuro da energia nuclear costuma girar em torno de usinas, tecnologias, investimentos e metas climáticas. Mas há uma pergunta fundamental que raramente aparece nas discussões estratégicas: quem operará o segmento no futuro? A resposta parece óbvia. Serão engenheiros, físicos, técnicos, pesquisadores e especialistas altamente qualificados. No entanto percebemos que esse talvez seja um dos maiores desafios silenciosos para o desenvolvimento do setor nuclear nacional. O mundo vive uma retomada sem precedentes da energia nuclear. Recentemente, vários países ampliaram seus programas nucleares ou anunciaram novos projetos para atender à crescente demanda por eletricidade, fortalecer a segurança energética e apoiar metas de descarbonização. A expansão global não gera apenas uma corrida tecnológica, mas também uma corrida por pessoas. O Brasil chega a esse momento sem ter definido, de forma clara, seu projeto para o setor nuclear nas próximas décadas. Quando não se sabe aonde se quer chegar, torna-se impossível planejar quem será necessário para chegar lá. Em atividades de alta complexidade tecnológica, conhecimento não é algo que se transfira de um dia para o outro. Diferentemente da substituição num jogo de futebol, em que um atleta sai e outro entra imediatamente em campo, setores intensivos em tecnologia exigem períodos de convivência entre gerações. O conhecimento precisa ser compartilhado, documentado e transferido. Quando isso não acontece, perde-se muito mais que apenas um profissional. Perde-se experiência acumulada durante décadas. Esse desafio já é visível em instituições de pesquisa, órgãos reguladores e empresas estratégicas do setor nuclear nacional. Há um aspecto ainda mais preocupante. Ao contrário do que muitos imaginam, o Brasil não sofre hoje com falta de jovens interessados, nem de profissionais qualificados. Existe um contingente significativo de profissionais que poderiam contribuir para a renovação das instituições nucleares brasileiras. Entretanto, sem contratações e sem perspectivas concretas de expansão, muitos desses talentos acabam migrando para outros segmentos da economia ou para o exterior. A experiência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ilustra bem essa realidade. Em 2010, a Escola Politécnica da UFRJ criou o primeiro curso de graduação em engenharia nuclear do país. A iniciativa surgiu mais por visão acadêmica que por política estruturada de Estado. Desde então, profissionais altamente capacitados vêm sendo formados todos os anos. Muitos deles, porém, acabam recebendo propostas mais atraentes no exterior. Trata-se de uma evasão de cérebros. Por isso, discutir recursos humanos para o setor nuclear não se limita a abrir novas vagas ou ampliar os cursos existentes. Significa construir uma política de Estado. Uma política que transcenda governos, ciclos eleitorais e prioridades momentâneas. Antes de discutir quantos profissionais serão necessários, o Brasil precisa responder a uma pergunta mais básica: qual é o projeto nacional para o setor nuclear? Qual será o papel da tecnologia nuclear na indústria, na pesquisa, na agricultura, na saúde e na defesa? Sem essas respostas, qualquer planejamento de longo prazo torna-se um exercício de adivinhação. É necessário transformar o potencial existente em uma estratégia nacional consistente. Porque a pergunta não é apenas quem operará o setor nuclear no futuro. A pergunta é se o Brasil pretende participar desse futuro ou apenas assistir enquanto outros países avançam. *Aquilino Senra, professor da Coppe/UFRJ, foi presidente da empresa Indústrias Nucleares do Brasil, diretor de tecnologia da Faperj e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia